Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 14 de junho de 2018 às 20:32

Uma prestação surpreendente

Há uma espécie de método naquilo que parece ser muitas vezes uma linha política de loucura na atual política externa norte-americana.

Para começar, para tornar claro, não sou, nem pouco mais ou menos, simpatizante da personalidade de Donald Trump. Quero, no entanto, exprimir a surpresa que senti perante o nível da sua conferência de imprensa depois da histórica cimeira com Kim Jong-un. Trump já passou os 70 anos e, da sua biografia, das historias que são conhecidas, tem tido uma vida bem intensa.

 

No entanto, nessa conferência de imprensa, ele esteve perante jornalistas de todo o mundo mais de uma hora a responder, sem papel, a todas as questões que lhe foram colocadas. Citou nomes de cidades coreanas, os números dos milhões de habitantes de cada uma delas, referiu os termos técnicos dos equipamentos e dos espaços militares da Coreia do Norte, mas, principalmente respondeu também com números e com fundamentos às matérias económicas, nomeadamente sobre os desequilíbrios comerciais e as sequelas da reunião do G7. Ouvindo o Presidente dos Estados Unidos numa conferência como esta, percebe-se que podem ter alguma razão os que sustentam que há uma espécie de método naquilo que parece ser muitas vezes uma linha política de loucura na atual política externa norte-americana. Donald Trump parece seguir, por vezes, uma estratégia de terror, ameaçando denunciar acordos, atacar militarmente, abandonar cimeiras, entre outras. Essas ameaças, como é evidente, às vezes podem dar maus resultados mas aqui, no caso desta cimeira, parece não ter impressionado o líder da Coreia do Norte. A curiosidade com a descoberta de algum tipo de lógica, aquilo que à primeira vista parece ser uma linha de conduta completamente errática, tem feito multiplicar análises e comentários em textos variados da imprensa internacional.

 

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Boris Johnson, segundo li, terá até especulado, numa reunião com membros do Partido Conservador, sobre o que poderia resultar do processo de negociação do Brexit se ele fosse conduzido por Donald Trump, com essas ameaças, essas mudanças repentinas, esses delitos frequentes. É manifesta a animosidade, em grande medida compreensível, da imprensa para com o Presidente dos Estados Unidos, nomeadamente a CNN, que tem a liderança permanente nessa aversão. Logo a seguir ao encontro de Trump com os jornalistas, os comentadores da CNN, a começar pela célebre jornalista Christiane Amanpour, criticaram muito o caráter vago do acordo assinado. Pois sim! Esqueceram-se todavia de dizer que isto foi só o início de um processo, muito, muito difícil de espoletar. Se aquela conferência de imprensa tivesse sido feita por Barack Obama ou outro Presidente das mesmas áreas, não se calariam os elogios. Mas, além da duração da conferência, da segurança nos números e do conhecimento dos dossiês, talvez seja bom que as pessoas meditem nos argumentos expostos pelo Presidente dos Estados Unidos, nomeadamente quanto às diferenças no seio do G7. É que não vale a pena trabalhar-se com base em argumentos de ficção ou já ultrapassados. Para concordar, para discordar, para fazer acordar ou para denunciar, é preciso conhecer os assuntos e conhecer a realidade. A não ser assim, passaremos a vida com surpresas como aquela da noite da própria eleição do Presidente dos Estados Unidos.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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