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Jaswant Singh 25 de Agosto de 2010 às 12:41

Uma centena de Weltpolitiks

Mao Zedong lançou uma vez um famoso apelo aos chineses

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Mao Zedong lançou uma vez um famoso apelo aos chineses para que “deixassem uma centena de flores florescerem”. No entanto, rapidamente recuou perante aquilo que entendeu como um caos de ideias rivais. Hoje em dia, o mundo parece estar a entrar num período onde, se não uma centena, pelo menos dezenas de variedades de Weltpolitik são seguidas de modo idêntico, tanto pelas maiores potências como pelos mercados emergentes. Reconciliar estas visões estratégicas do mundo rivais, em particular no quadro da crise global, vai tornar a diplomacia internacional mais complicada do que nunca.

A intervenção da Turquia e do Brasil no fracturante tema do programa nuclear do Irão é o mais recente e claro sinal deste novo elemento das relações internacionais. Em Maio, os líderes iraniano, turco e brasileiro encontraram-se em Teerão para concluir um acordo que levaria o Irão a depositar 1.200 quilogramas de urânio ligeiramente enriquecido na Turquia que, em troca, iria enviar 120 quilogramas de combustível enriquecido para ser usado nos reactores de pesquisa iranianos.

A Rússia tinha proposto este tipo de troca mais cedo mas o Irão rejeitou a oferta. A versão acordada com o Brasil e com a Turquia foi vista como uma forma de impedir a possibilidade de o Irão produzir urânio altamente enriquecido, que pode ser usado em armas nucleares. Mas a outra intenção era, provavelmente, frustrar os esforço norte-americanos de lançarem sanções das Nações Unidas ao país.

É cedo para dizer se o desejo do Irão em obter armas nucleares foi adiado. A Agência Internacional de Energia Atómica não legislou contra o acordo e tenho informações de que o entendimento mediado pelo Brasil e pela Turquia não viola o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que o Irão é obrigado a respeitar por ser um dos signatários. Independentemente disso, os esforços de bloquear a estratégia dos EUA falharam, já que as Nações Unidas impuseram novas sanções no mês passado.

Sendo o acordo uma forma de evitar um impasse nuclear com o Irão, então porque é que há tanto escândalo nos EUA e no ocidente? Temo que seja porque os norte-americanos viram negada a primazia em estabelecerem a política internacional naquele país. E, em vez de tentarem explorar as possibilidades na abertura brasileira e turca, os EUA rapidamente pressionaram o Conselho de Segurança das Nações Unidas para impor mais sanções ao Irão (a quarta vaga, até ao momento). Isto forçou o Brasil e a Turquia, dois países membros não permanentes do Conselho na actualidade, a votarem contra a resolução sancionatória.

O resultado? Esta crucial votação perdeu a unanimidade (o Líbano também votou contra).

A votação sobre as sanções das Nações Unidas também foi bastante influenciada por outro pequeno país com a sua própria Weltpolitik: Israel. Em Fevereiro, uma delegação de altos responsáveis israelitas viajou para Pequim para apresentar aos líderes chineses as “provas” das ambições atómicas do Irão. Com um considerável detalhe, os israelitas explicaram aos anfitriães as potenciais consequências económicas para a China caso se tornasse necessário um ataque ao Irão por parte de Israel, com o intuito de impedir a concretização das suas “ambições nucleares”.

Tudo aponta para que a China tenha levado a mensagem a sério, já que votou a favor das multas ao Irão pela primeira vez. O país em causa respondeu ao dizer que o voto chinês tinha “duas caras”.

A rede de Weltpolitik engrossou ainda mais com a entrada preventiva de Israel em águas internacionais para parar uma frota que supostamente transportava ajuda humanitária para Gaza, cidade que se encontrava bloqueada. Num dos barcos, onde estava hasteada uma bandeira turca, as forças israelitas mataram nove pessoas, causando uma ruptura quase iminente nas relações israelo-turcas.

Para ser rigoroso, esta complexa teia de acontecimentos ligados entre si reflecte o declínio do papel internacional dos Estados Unidos. Por outro lado, também mostra a afirmação vigorosa da defesa do interesse nacional por muitos actores no quadro internacional.

O Brasil, a Turquia e, sim, o Irão anseiam, claramente, manifestar a autonomia das suas políticas interna e externa. O Brasil quer provar que merece um assento permanente no Conselho de Segurança. A Turquia procura restabelecer a identidade islâmica e a influência “otomana” sobre o Médio Oriente, tendo flexibilizado os músculos diplomáticos para a União Europeia, cuja entrada como membro tem sido rejeitada. O Irão deseja, simplesmente, mostrar mais uma vez que não irá reverenciar o “Grande Satã”.

Todas estas motivações desafiam a superioridade diplomática internacional dos EUA de uma forma bastante séria. É melhor para o país que se habitue a este tipo de jogos diplomáticos. Neles, há a presença de outras potências, tanto emergentes como estabelecidas, com políticas externas próprias direccionadas à escala global: a Índia, a Indonésia e o Japão. Mas há “jogadores” com os quais também vale a pena contar em futuras disputas regionais, tais como a África do Sul, a Nigéria, a Arábia Saudita, o Egipto, a Indonésia e a Coreia do Sul, entre outros.

Uma crescente complexa rede de interesses nacionais que se interceptam é a face da diplomacia internacional do século XXI. Antigas rivalidades e desavenças ancestrais podem, ou não, fazer parte dela: só uma crise no futuro o pode confirmar. Mas esta amálgama de visões estratégicas concorrentes marca, provavelmente, o fim do poder dos EUA no pós-Guerra Fria.

Com o mundo inteiro a ser afectado pelo conflito no Golfo Pérsico e no Médio Oriente, talvez isto até seja um ponto positivo. Certamente, os interesses nacionais dos Estados Unidos e do ocidente não são os únicos em questão. Então, porque é o resto do mudo deve deixar a resolução destes conflitos apenas nas mãos dos norte-americanos?

A era da hegemonia diplomática dos EUA está perto do fim. E seria um erro bastante grave pensar que um poder bipolar entre os norte-americanos e a China iria liderar a ordem internacional, da mesma forma que a rivalidade das superpotências EUA e URSS imperou na época da Guerra Fria. Actualmente, há muitos países também eles poderosos a mexerem os “cordelinhos” da diplomacia na defesa dos seus interesses. As cem flores de que Mao falou podem ter brotado apenas por um curto período de tempo, mas as inúmeras espécies de Weltpolitik irão florescer perenemente.


Jaswant Singh, um antigo ministro indiano dos Negócios Estrangeiros, das Finanças e da Defesa, é autor de Jinnah: India – Partition – Independence

Copyright: Project Syndicate, 2010.
www.project-syndicate.org







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