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Mário Negreiros 07 de Novembro de 2003 às 04:50

Uma factura bem pesada

Assisti no último sábado a uma grande reportagem (meia-hora ou mais) da SIC sobre uma personagem por quem, sem pretender desrespeitar as suas alegadas vítimas, não posso deixar de confessar alguma...

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Assisti no último sábado a uma grande reportagem (meia-hora ou mais) da SIC sobre uma personagem por quem, sem pretender desrespeitar as suas alegadas vítimas, não posso deixar de confessar alguma simpatia: Maria da Graça, a senhora recentemente presa em Espanha, sob acusação de burla.

Antes de mais nada, honra seja feita aos autores dessa reportagem da SIC. Trata-se de um raríssimo exemplo de trabalho feito com esmero (esmero no texto, nas imagens e na edição) que vi na televisão portuguesa.

Uma das virtudes desse trabalho era nunca perder de vista a personagem que se procurava ali retratar. Era a história da Maria da Graça – e nunca o texto, as imagens ou a edição –, que tinha que brilhar. Vamos a ela então: Pelo que pude entender, a Maria da Graça, antes de ser presa em Espanha, era empregada de balcão de uma loja de roupas; antes de empregada de uma loja de roupas em Espanha, foi presa em Portugal; antes de ser presa em Portugal foi mulher deste e amiga daquele Sr. Dr. e, por esse efeito, riquíssima e generosa em doações do dinheiro do cônjuge e dos amigos; antes de mulher de uns e amiga de outros Srs. Drs, foi emigrante em França porque, antes de ser emigrante em França, foi filha de portugueses pobres do norte pobre deste pobre país.

A mais impressionante cena daquela reportagem da SIC foi a de Maria da Graça empregada de balcão. Que à-vontade! Parecia nunca ter feito nada na vida além de estender calças de ganga sobre o balcão e apregoar, em espanhol, as suas qualidades aos eventuais compradores. Nenhum desconforto, nenhuma revolta, completa submissão ao seu destino, sim, mas de modo pouco português, pouco fadista, pouco trágico e muito... muito... como hei de dizer?... À Valentina! Sim, refiro-me à heroína da banda-desenhada assinada por Hugo Crepax.

Dito antes de pensar, tenho agora que pensar para justificar o que disse: “submissão ao destino mas de modo pouco português... à Valentina”. É preciso descobrir o que distingue o “modo português” do “modo Valentina” de submissão ao destino. O modo português (que, obviamente, não se aplica a todos os portugueses – e Maria da Graça é prova disso) é de resignação explícita, com marcas visíveis, com vales para sempre marcados na cara pelos rios e rios feitos de lágrimas resignadas. Valentina não chora (eu, pelo menos, nunca a vi chorar).

Resigna-se mas com gosto e, eventualmente – sendo personagem de banda-desenhada erótica –, com muito, muito, uau! com muitíssimo gosto. Atira-se à vida confiadamente e colhe dela tudo – a dor incluída – como parte do supremo gosto de estar viva.

Maria da Graça, quando presa em Portugal, chamava o seu cabeleireiro para a pentear na prisão. Valentina está sempre – mesmo nas situações mais complicadas – muito bem penteada.

Valentina não é boa nem má. É valente, isso sim. E a valentia é uma estranha virtude porque, embora indiscutivelmente virtude, tanto pode estar a serviço do bem quanto do mal. E a graça também.

PS: O elogio aqui feito a um trabalho da SIC não anula o que noutro dia disse da generalidade da programação das emissoras de sinal aberto em Portugal: “ofende os bons costumes, a decência, a delicadeza, os pruridos, a inteligência, a justiça, o senso estético e a verdade (não necessariamente nessa ordem)”. Parece-me, aliás, que todos esses requisitos foram cumpridos por todas as emissoras de sinal aberto (a SIC incluída) na cobertura das eleições do Benfica. Exijo espaço de antena semelhante para as próximas eleições da ADO (Associação Desportiva de Oeiras).

PPS: Não há valentia nem graça em estacionar carros no passeio.

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