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Baptista Bastos b.bastos@netcabo.pt 07 de Dezembro de 2005 às 15:28

Uma grande chatice

O projecto democrático português não existe porque nenhum dos dirigentes políticos sabia, ou sabe, o que o País deseja. Se, acaso, o País deseje alguma coisa – a não ser umas boas doses de futebol. A "consolidação" da democracia advém do conhecimento polí

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"Ao contrário do que o dr. Cavaco julga, a democracia portuguesa não está ‘consolidada’. Se estivesse, ele não era eleito."

VASCO PULIDO VALENTE

(Diário de Notícias - 4. XII. 2005)

O projecto democrático português não existe porque nenhum dos dirigentes políticos sabia, ou sabe, o que o País deseja. Se, acaso, o País deseje alguma coisa – a não ser umas boas doses de futebol. A "consolidação" da democracia advém do conhecimento político, da prática cívica, da necessidade cultural. E, também, do confronto de ideias, da polémica, do debate. O encontro de segunda-feira, entre Cavaco e Alegre (SIC-RTP-N), ilustrou as debilidades: o atraso acentua-se num tempo acelerado, que não admite a facilidade das simples soluções.

E que soluções? A rápida decomposição da sociedade impede eventuais processos de recomposição. Recorro a Ortega y Gasset: "Não sabemos o que se passa, e é isso, justamente, o que se passa". Quantos projectos "democráticos" nos foram apresentados, nesta Segunda República? As descoincidências entre os partidos existentes não têm correspondido, apenas, a antagonismos ideológicos. Resultam de uma dispersão buliçosa, desatenta aos interesses fundamentais dos portugueses. Num país onde um "gestor" recebe 3 600 contos de reforma, depois de exercer funções durante seis meses; e um trabalhador aufere 60 contos, após quarenta anos de labor – qualquer reflexão séria cai, por parcelar. Mas indica que uma "democracia" assim é uma forma imaginária de sistema justo e equânime. Para não dizer: uma aberração.

A regressão política e social a que assistimos põe em causa os valores nascidos em Abril de 74, dos quais o dr. Cavaco não será, propriamente, sentinela vigilante. A dispersão manifestada no "debate" com Manuel Alegre foi útil apenas porque o candidato do PSD-CDS reincidiu na incapacidade de perceber as complexidades do nosso tempo, fora dos esquemas economicistas que conduziram Portugal a um beco sem saída. O dr. Cavaco tocou um velho e cansativo realejo, sem fulgor e sem altanaria. Fatigou-nos com a insistência na palavra "competitividade", da cartilha meta-nacional do liberalismo. Só não vê essas debilidades quem não quiser ver. E pior do que um cego é aquele que tapa os olhos, e encobre a ponderação exigível em assunto tão grave como é o da escolha para a Presidência da República.

Admito que esperava mais do meu velho amigo Manuel Alegre. Desgosto do discurso de regeneração, no qual se apagam as diferenças sociais. Prefiro a contundência da linguagem explicativa, que não suprima nem atenue, por delicadeza ou excessiva cortesia, as responsabilidades de quem as tem. E Cavaco tem-nas – e de que maneira! Recordo o que, há anos, em entrevista, me disse o admirável poeta de "Senhora das Tempestades": "A social-democracia não passa da grande gestora do capitalismo". Nem sequer conseguiu evitar as regressões democráticas. E a discussão presidencial também deve incluir esse item. Devia.

O problema manifesta-se um pouco por toda a Europa, onde o "socialismo" perde o prestígio e a capacidade de atracção, por haver desistido de edificar uma política de civilização e de eliminação da selvajaria das relações humanas. Apenas resta a retórica, que nada resolve neste período difícil e incerto, propício a todas as aventuras usurpadoras. Logo, a Direita mais extrema radicaliza as intervenções, com o beneplácito de poderosos grupos económicos e financeiros, e a casta complacência dos que acreditam nos "potenciais de boa vontade".

Entretanto, agitamo-nos mais do que agimos e, quando agimos, fazemo-lo por impulsos. A questão central reside em resistir, ou não, à desumanização da política, à crispação social, e à falaciosa técnico-ciência que conduz à intolerância, à violência e ao fanatismo. Nem sequer foi abordada pelo candidato de Esquerda. E Alegre poderia tê-lo feito. Sobram-lhe duas das razões morais pelas quais tem pautado a vida: a convicção e a responsabilidade. A indolência do debate, cuja culpa também cabe aos "moderadores", chegou a ser exasperante. Uma grande chatice. Não sei quem o ganhou. Nós, telespectadores, não fomos, de certeza.

APOSTILA – A levíssima revista Única, suplemento do pesado Expresso, inclui uma alucinada entrevista do arquitecto Saraiva ao dr. Durão Barroso. É um texto hilariante, em particular a longa "entrada", que contém os parágrafos mais risíveis do jornalismo português das últimas décadas. Guardei, com transporte e unção, o curioso texto, cuja leitura, em colectivo, vai animar a minha tertúlia, dada à circunspecção e à prudência. Peço, reiterado, ao dr. Francisco Balsemão que nunca deixe de incentivar o arquitecto a escrever. De contrário, perder-se-ia o maior humorista involuntário cá do sítio.

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