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Uma greve vazia e perigosa

1. Os pilotos da TAP têm o direito legítimo de fazer greve. A motivação, agora, não é salarial, mas sim o de combater um clima de "intimidação", que segundo o presidente do sindicato, Jaime Prieto, serve para "contornar práticas de gestão deficitárias". Este tipo de avaliação qualitativa é de pouco sustento para uma greve.

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1. Os pilotos da TAP têm o direito legítimo de fazer greve. A motivação, agora, não é salarial, mas sim o de combater um clima de "intimidação", que segundo o presidente do sindicato, Jaime Prieto, serve para "contornar práticas de gestão deficitárias". Este tipo de avaliação qualitativa é de pouco sustento para uma greve.

Mesmo aceitando estas alegações, o que não se percebe é o afã dos pilotos em mudar aquilo que dizem ser o actual estado das coisas, visto que daqui a menos de um ano a companhia estará noutras mãos, fruto da privatização em curso. Ou seja, considerando a tese da gestão deficitária, bastaria aos pilotos ter um pouco de paciência e esperar pelos novos donos para deixar de ter esse problema.

Lutar contra a actual administração é, por isso, mais uma questão de teimosia que de bom senso. Com um enorme senão – estão a desvalorizar a empresa na qual trabalham, fazendo com que os interessados na sua compra possam utilizar o argumento da contestação laboral para fazer baixar o preço.

2. Há quem elabore teorias conspirativas sobre os reais motivos dos pilotos. Uma delas é a de que estarão conluiados com um eventual comprador para fazer baixar o preço. Outra é a de que, encontrando emprego com relativa facilidade, os pilotos podem fazer "gato sapato" da TAP com relativo conforto. Tratam-se, com toda a certeza, de suspeitas infundadas.

No jogo mediático, os pilotos gozam de poucas simpatias. Os ordenados que auferem, muito acima da média nacional, geram comportamentos viscerais contra a classe, amplificados por estes tempos de austeridade. Também aqui existe alguma irracionalidade. Mas nenhum deste tipo de argumentos, alguns destrambelhados, seria chamado à liça se os pilotos apresentassem uma razão inatacável para fazer esta greve.

Não o fazem. As queixas de intimidação e de práticas de gestão deficitárias carecem de consistência nas actuais circunstâncias. As greves na TAP, neste momento, vão ferir de morte a companhia e tirar-lhe valor comercial, até porque ninguém quer ser dono de uma empresa problemática. Os pilotos, conhecedores do que é a aviação comercial, sabem disso melhor do que ninguém. E ainda assim teimam em fazer greve. Estranho. Muito estranho.

3. A TAP vale pela marca e pelo ‘hub’ que explora. Mas estas características estão longe de lhe garantir a perenidade. Basta lembrar a Varig para perceber a efemeridade de todas as empresas, mesmo das mais icónicas. Mais. A história da Varig serve também para mostrar como uma intervenção política errada, neste caso do Governo brasileiro, deitou tudo a perder. A greve dos pilotos arrisca-se a deixar a TAP em cacos. E aí, o Governo português não terá, nem marca, nem ‘hub’, nem rotas para vender. Quanto aos pilotos, limitar-se-ão a ir voar para outras companhias. É, pois, tempo de uma decisão definitiva.

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