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Manuel Monteiro 23 de Setembro de 2016 às 00:01

Uma razão para a eleição de António Guterres

Num mundo em que a hipocrisia das palavras substituiu a realidade do sofrimento, seria desejável, e até exigível, que o primeiro rosto da ONU fosse um exemplo permanente de humanismo e um testemunho activo do que é a solidariedade.

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Este é, sem nenhuma dúvida, um dos motivos para ambicionarmos que António Guterres seja o próximo secretário-geral das Nações Unidas. A sua personalidade, bem como o trabalho que desenvolveu no Alto-Comissariado para os Refugiados, dá-nos a garantia de que a causa da paz e do apoio aos que sofrem não será apenas evocada nos discursos de circunstância.

 

Todavia, há outra razão para querermos a eleição de António Guterres e essa razão chama-se ONU. Mais do que uma competição entre perfis, mais do que apoios ditados pela simpatia, pela amizade, pela exaltação das suas capacidades comunicativas e linguísticas ou pelo trabalho feito, o que verdadeiramente está em causa é a afirmação, se preferirem a reafirmação, do projecto da ONU.

 

E António Guterres reúne as condições para afirmar ou reafirmar esse projecto e dar voz aos fins, aos objectivos e aos princípios, que estão inscritos nos documentos que deram origem às Nações Unidas. É por isso, é essencialmente por isso, que o devemos apoiar e esperar que ele seja o sucessor de Ban Ki-moon. 

 

Se António Guterres for eleito, vencerá uma determinada ideia do que a ONU pode ser, se António Guterres for preterido, a ONU manterá um estatuto sem substância e uma acção sem identidade própria. Que não haja ilusões quanto a este respeito. Por muito legítima que seja a vontade de vermos a eleição de Guterres como um assunto de proximidade pessoal ou nacional, o que está em jogo ultrapassa essas fronteiras.

 

E ultrapassa-as num dos momentos mais críticos após o fim da chamada guerra fria e da queda do muro de Berlim. Com Estados nacionais cada vez mais fragilizados, com democracias constantemente ameaçadas, com uma globalização desgovernada e uma crescente certeza de que quem determina o nosso presente e define o nosso futuro se encontra em parte incerta, seria imprescindível que a ONU assumisse um novo papel.

 

Não significa isto que se substitua à acção dos governos nacionais ou sequer que abra caminho para a definição de uma qualquer ideia de governação mundial, mas que se assuma de forma persistente como um palco de aproximação entre os povos e um lugar de conciliação entre os seus dirigentes e governantes. Estaremos diante uma tarefa difícil, nestes tempos de angústia, de indefinição e de incerteza? Talvez! Porém as dificuldades existem para serem enfrentadas e ultrapassadas, desde que aqueles que lideram saibam que quanto maiores são os desafios, melhores serão as oportunidades para demonstrarem os seus valores, as suas convicções e a sua fé.

 

E no momento que vivemos, a ONU necessita de um secretário-geral que tenha valores e convicções e que possua a fé, para não desistir de lutar por um mundo diferente e bem melhor do que aquele que temos.

 

Professor Universitário

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