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Sérgio Figueiredo 25 de Junho de 2004 às 13:59

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A onda de greves que varre o sector de transportes colectivos em Portugal é uma vergonha. Não por causa dos estrangeiros que estão cá de passagem a ver futebol. Mas por causa dos portugueses. Os que trabalham todos os dias e que, ... , têm de pagar impost

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A onda de greves que varre o sector de transportes colectivos em Portugal é uma vergonha. Não por causa dos estrangeiros que estão cá de passagem a ver futebol. Mas por causa dos portugueses.

Os que trabalham todos os dias e que, cada vez que se mexem e a cada gesto que fazem, têm de pagar impostos. Para o Estado cobrir os gigantescos buracos que as empresas do sector diariamente abrem nas suas contas de exploração.

As greves da Carris visam o Programa de Reestruturação - um nome pomposo para um conjunto de medidas que qualquer gestor banal aplicaria, numa empresa asfixiada. Que, até agora, em nada belisca o Acordo de Empresa.

Este Acordo de Empresa da Carris, tal como do Metro, da CP e de todas as empresas públicas de transporte, escandaliza qualquer alma cristã. Coloca os cidadãos compatriotas que nelas trabalham numa casta social que a restante população trabalhadora do país nem sonha atingir.

Qual é o português que, no dia do seu aniversário, não gostaria de estar dispensado de ir ao emprego? E quantos trabalhadores deste país podem usufruir, livremente, um dia por mês para tratar dos seus assuntos pessoais – mesmo que não tenha assunto nenhum para tratar?

Nem é neste tipo de «direitos» que o tal programa de reestruturação mexe. A Carris pensa reduzir os prejuízos em 70% até 2007 com medidas de combate ao absentismo, com uma nova forma de organização que levará à rescisão de 1.200 contratos, etc., etc.

Não vou massacrar com números, mas a dívida já ultrapassa os 500 milhões, com responsabilidades com pensões. Os capitais próprios são negativos e, no fim do ano, passaram os 250 milhões. No Metro a situação não é melhor. E a situação da CP faz lembrar o Inferno de Dante.

Ou seja, estamos a falar de um conjunto de privilegiados, que insultam os outros portugueses, porque vivem dos impostos que eles pagam e não admitem ficar em situações laborais equiparadas.

Não estamos a falar de empresas tecnicamente falidas. Elas estão realmente falidas e só não fecham portas, primeiro porque não têm concorrência, segundo porque, mesmo que a tivessem, o Estado paga sempre. Temos pago sempre.

A greve de hoje do Metro é convocada porque a administração quer pegar nessa árvore de patacas que dá pelo nome de Acordo de Empresa e adaptá-lo ao Código de Trabalho.

Os funcionários do metropolitano ofendem-se, não por lhes estarem a ser pedidos sacrifícios incomportáveis, nem por ficarem numa situação profissionalmente indigna. Simplesmente, porque os querem colocar nas mesmas condições em que vivem todos os trabalhadores deste país.

Há outra razão para esta greve. O fim do complemento de reformas, que é pago pela empresa, para garantir um valor das pensões igual ao dos salários. Sem efeitos retroactivos. A contar só para os funcionários contratados a partir deste ano.

Isto é revoltante. Não para o país que paga impostos. Mas para todo o país que trabalha em empresas «normais». Não é um problema de gestão. É matéria política. É matéria de Governo. É matéria de ruptura. Deviam ir de carrinho.

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