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Teodora Cardoso 27 de Maio de 2008 às 13:59

Várias crises, uma síntese?

As crises que estão a desenrolar-se na economia internacional – financeira, energética, alimentar e ambiental – exigem a utilização prudente dos instrumentos clássicos da política económica, mas não são meras crises conjunturais do capitalismo, resolúveis

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A demonstrar este ponto está a sua profundidade e interpenetração, bem como o facto de se manifestarem em áreas muito diferentes, indo desde as altamente (exageradamente?) desreguladas – o sector financeiro – até outras objecto de forte protecção. Isto tem, pelo menos, a vantagem de obrigar a rever modelos de pensamento e de actuação diferentes ou mesmo antagónicos que, todavia, convergiram na incapacidade de reagir atempadamente aos múltiplos avisos de especialistas e entidades coordenadoras ou reguladoras.

No caso dos mercados financeiros, estamos perante as consequências do excesso de confiança na liberalização das trocas e na auto-regulação, a par com o absoluto cepticismo quanto à eficácia da intervenção dos governos. Já no que respeita tanto ao petróleo como aos produtos alimentares encontramo-nos quase no polo oposto. Mesmo nos países mais liberais imperam as mais variadas formas de intervenção e protecção desses mercados que, no entanto, não impediram o aprofundamento dos desequilíbrios que desembocaram na actual crise. O ponto comum não é, por isso, o maior ou menor grau de protecção, mas sim a convicção de que cada país (sobretudo os grandes países desenvolvidos) ainda podiam gerir estes mercados em benefício das suas clientelas, reduzindo às aparências a preocupação com os equilíbrios internacionais.

A emergência das grandes economias asiáticas transformou essa convicção em simples mito. Porém, todos estes casos – e talvez ainda mais a crise ambiental – dão tanto mais que pensar quanto ocorrem na idade da informação e do conhecimento, quando nem as autoridades, nem os especialistas, nem os agentes directamente envolvidos podiam ignorar as consequências do que estava a passar-se. Que o mercado do subprime e o modo como alastrou o “lixo tóxico” por ele gerado só podia acabar em desastre não era geralmente sabido, mas tinha de ser do conhecimento das entidades que nele intervinham ou o acompanhavam. Aqui esteve em causa o excesso de confiança na perfeição dos mercados (apoiada na intervenção da Fed) que seria sempre capaz de resolver os problemas. Dele resultaram a opacidade das transacções e a expansão de instrumentos e actuações, cuja existência, em plena era da informação, só foi conhecida depois da crise irromper.

Do lado das matérias-primas era sabido que a China e a Índia estavam a crescer rapidamente, a um ritmo apenas superado pelo aumento do seu consumo de energia e produtos alimentares. Os efeitos sobre o ambiente também não eram ignorados. Quanto à evolução da oferta nos mercados relevantes, o conhecimento geral era muito menor. Como agora tem de concluir-se, uma conjugação de interesses mercantis e políticos permitiram que ignorássemos, por exemplo, que, ao mesmo tempo que o consumo aumentava, o crescimento da produtividade agrícola baixava nos países asiáticos mais populosos, enquanto em África enormes extensões de terrenos agrícolas não eram, pura e simplesmente, cultivadas. Ao mesmo tempo baixava significativamente o apoio a projectos agrícolas por parte dos organismos internacionais (segundo o Banco Mundial, apenas 4% da ajuda oficial total se destina a esse sector), era descurado o investimento em irrigação e em investigação e infra-estruturas ligadas ao sector agrícola, bem como o financiamento dos agricultores ou as políticas de preços.

As crises estão agora estreitamente ligadas: a subida do preço dos combustíveis reflecte-se, por um lado, nos custos agrícolas, o que não só faz subir os preços no consumidor, como prejudica seriamente a capacidade produtiva de pequenos agricultores na Ásia e em África, sem acesso a crédito; por outro, agrava a escassez ao desviar para os biocombustíveis uma parcela importante da produção agrícola (da produção americana de cereais); por outro ainda, a crise financeira fez crescer a especulação em ambos esses mercados e, quando se está perante problemas estruturais, que vão levar tempo a resolver, e face a produtos essenciais, é difícil aceitar que a especulação seja o instrumento apropriado para obrigar à contenção da procura e estimular a resposta da oferta. Neste caso, os efeitos de curto prazo são demasiado graves para que esse seja o caminho aceitável.

De facto, não estamos numa situação que possa ser deixada exclusivamente às forças de mercado. Contudo, a ideologia oposta não produz melhores resultados. Precisa-se de uma síntese que tem de partir do reconhecimento de que a evolução tecnológica criou um espaço global que tem de ser gerido a esse nível, já que não é possível impedir – por meios decentes e racionais – a difusão dos produtos, das tecnologias ou do pensamento. A supraterritorialidade tornou-se um facto e do que se trata agora é de pensar em como governar essa realidade. A recusa em aceitá-la não é certamente o caminho. Instrumentalizar as crises para fins eleitorais ainda menos.

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