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Venha daí um acordo. Qualquer

O acordo à esquerda ultrapassou o ponto de não retorno. Falhar não é opção. Seria a hecatombe no PS, o descrédito absoluto do PC, apontado, mesmo injustamente, como o principal causador desse falhanço, e só o Bloco seria de alguma forma poupado já que tem sabido gerir bem a sua disponibilidade para o histórico encontro.

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Falhar não é, portanto, possível.

 

A questão é outra. Haverá certamente um acordo, mas que acordo?

 

A direita, a começar pelo Presidente da República, exige um papel assinado e carimbado pelos três partidos. Quer mesmo redigir parte substancial desse papel. Reclama que seja escrito, preto no branco, muita coisa que não faz qualquer sentido e outra tanta, que fazendo algum, nada tem a ver com o assunto.

 

Desde logo há que perguntar: é mesmo necessário um papel? Convenhamos. O essencial do acordo é bastante simples. Não precisa de muita literatura. É provável que venha a ter várias páginas para agradar aos jornalistas, mas, bem vistas as coisas, uma linha bastaria. PC e Bloco comprometem-se, durante esta legislatura, a não apresentar nem votar uma moção de rejeição do Governo do PS. É tudo. E basta perfeitamente.

 

Um caderno de encargos, em que se fala da NATO, dos 3% do défice, do Tratado Orçamental e por aí adiante é simplesmente delirante. A estabilidade governativa, que todos exigem, resume-se a uma única coisa. Um governo que dure quatro anos e que não seja deitado abaixo à primeira contrariedade. Um governo que não tenha a maioria do Parlamento contra si, como sucede com o atual.

 

Naturalmente que a disponibilidade do PC e do Bloco para firmarem um tal compromisso de não rejeição exige alguma cedência por parte do PS. Não tem mal nenhum. É próprio de uma democracia avançada. Ao incidir sobretudo na área social, nomeadamente com a reposição dos salários e pensões, essa negociação não implica qualquer alteração programática em nenhum dos partidos. A ponte é feita por onde se concorda e não pela abdicação daquilo que se discorda.

 

Acusar estes partidos de capitulação e mesmo de traição aos seus ideais é simplesmente ridículo. Cada partido mantém as suas ideias, o seu caminho, sendo este um momento singular do cruzamento entre trajetórias diversas. Mais uma vez a democracia é isso mesmo.

 

Aliás, é absolutamente natural que os dois partidos possam continuar a rejeitar algumas leis do PS que considerem particularmente gravosas. O acordo não se deve estender à aprovação de tudo, mas ficar-se pela não rejeição do todo. Desde que isto esteja garantido, qualquer acordo é um bom acordo.

 

Estamos a viver um momento único. Um salto radical na nossa democracia. A passagem a um estado adulto. Os verdadeiros democratas só podem saudar o instante em que se superou o apartheid partidário. Hoje temos um Parlamento inteiro e não um Parlamento amputado. Onde todos os partidos, e não só os três do costume, contam para a formação do Governo.

 

Esta realidade vai alterar a própria dinâmica eleitoral. O voto de protesto vai perder força, ganhará o voto de convicção. O voto útil torna-se pouco relevante. Perde o partido isolado, fechado sobre si mesmo, ganham o debate, a participação e a cooperação.

 

É por isso justo prestar homenagem aos três partidos, e seus dirigentes, que conseguiram quebrar o círculo vicioso da democracia portuguesa. António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, aconteça o que acontecer, abriram um novo capítulo na nossa história comum. Nada será como dantes. A chantagem da direita sobre um PS isolado à esquerda deixou, finalmente, de fazer efeito. Daí que se deva saudar em particular António Costa, pela sua iniciativa, pela coragem, pela ousadia, num partido minado pela inércia e pelos compadrios, não só internos mas, como se vê por estes dias, que se estendem até ao PSD. Há efetivamente um PS que não consegue pensar a política além da alternância entre PS e PSD. Distribuindo cargos e mordomias entre os dois, arruinando o país e desacreditando a própria atividade política. Acabou. Com o acordo que aí vem. Qualquer que ele seja.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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