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Mário Negreiros 13 de Dezembro de 2005 às 13:59

Vergonha de ser português

O que é pior na história do encaixotamento dos emigrantes ilegais é que não surpreende. Trata-se do paroxismo de uma arrogância crescente no Estado português – ou, ...

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Trata-se do paroxismo de uma arrogância crescente no Estado português – ou, se nos abstrairmos do caso sui generis do procurador Souto Moura, mais justo seria falar numa arrogância crescente nas instâncias média e baixa da administração do Estado português. É nelas (e em Souto Moura, a presença excepcional da mais alta instância nesse rol) que o Estado que, para todos os efeitos, nos representa e protege, se mostra cada vez mais discricionário, injusto, arbitrário, auto-suficiente e, por isso tudo, perigosamente próximo da corrupção e da violência – uma não vive sem a outra e, para o confirmar, basta cruzar os dados da Amnistia Internacional com os da Transparência Internacional.

Enquanto os mais altos governantes portugueses se vêem tolhidos, intimidados, mais cheios de medos do que de pruridos de exercer a sua autoridade, os agentes médios e baixos da administração pública vão ocupando o vácuo, e exercendo, à sua maneira, o poder que julgam lhes caber, à maneira que julgam melhor, contra quem melhor entendem (sim, porque a autoridade deles precisa de alguém contra quem se exercer), e com os meios que estão mais à mão. O caso dos imigrantes encaixotados não é senão o resultado natural e em nada surpreendente dessa mediocracia rancorosa e ressentida que, calada, como é do seu feitio, vem tomando conta deste país, diante da pasmaceira meio cúmplice meio inocente da Nação.

A violência que ali se exerceu foi muito além dos horríveis desconfortos e ameaças impostos àquelas pessoas. O que ali se fez foi suprimi-las temporariamente – não sabiam, nem havia quem soubesse, o que seria feito delas, tornaram-se não-pessoas, porque nem mortos eram (só depois de chorados nos tornamos mortos). Para lá da enormidade da violência imposta a cada uma daquelas pessoas (e é preciso não esquecer jamais a dimensão individual do sofrimento), os agentes do Estado português (que nos representam e protegem) agrediram a própria condição humana, feriram-lhe a dignidade.

Por isso tenho vergonha de ser português – porque não se tratou de um acto isolado de um maluco qualquer que, por acaso, era português, e sim de uma acção de Estado, como são todas as acções de indivíduos que agem, a nosso soldo e com a devida autorização, em nome do Estado. E foi devidamente autorizados (na medida em que a omissão autoriza) e, mais do que isso, munidos do poder que o Estado lhes conferiu, que os indivíduos que encaixotaram os imigrantes agiram como agentes do Estado português. E é, portanto, o Estado português que deve desculpas e indemnizações a uns e responsabilização criminal a outros. E, como alguém já disse, «o Estado sou eu» - sim, eu e todos os que, de alguma maneira, o sustentamos e legitimamos. Mais razões temos para nos envergonharmos do que somos – porque somos, entre outras coisas, o Estado português – do que para nos orgulharmos dos triunfos de mourinhos, figos, saramagos ou de qualquer feito de que não participámos mas que seja atribuído a uma pessoa que, por acaso, até é portuguesa.

Da minha parte, cheio de vergonha, peço as mais sentidas desculpas.

PS: A liberalidade também pode ser arrogante. Por exemplo: o agente de autoridade que «liberaliza» a lei que ordena a proibição do estacionamento em cima dos passeios arroga-se, sem legitimidade para isso (daí a arrogância), o direito de obrigar as pessoas a pé, em cadeiras de rodas, com carrinhos de bebés, os cegos, etc, etc, etc, a submeterem-se ao risco de atropelamento.

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