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Rui Neves ruineves@negocios.pt 20 de Março de 2012 às 23:30

Vi Ana a ser violentada

Foi preciso um administrador da Empordef demitir-se, acusando os seus pares de "inércia", para o Governo tomar uma decisão sobre os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC).

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Foi preciso um administrador da Empordef demitir-se, acusando os seus pares de "inércia", para o Governo tomar uma decisão sobre os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC). Foram necessários nove meses, permitindo à empresa afundar-se numa onda de rejeição escandalosa de encomendas e de propostas de viabilização, para o Executivo parir uma via de solução.

Curiosamente, o primeiro-ministro decidiu, de supetão, anunciar o arranque da reprivatização dos estaleiros precisamente na véspera das audições parlamentares sobre a empresa. Tentou-se assim abafar os atropelos cometidos na gestão dos ENVC, ontem confirmados pelo ex-administrador, Luís Miguel Novais, e dar margem aos presidente da Empordef e dos estaleiros para brilharem na dissertação sobre a operação de alienação de capital.

"Se o meu ‘harakiri’ serviu para alguma coisa foi para pôr as coisas a mexerem-se", confidenciou ontem Novais ao Negócios. Não sabemos ao certo o que este senhor vale como gestor, mas há a certeza que acaba de fazer um grande serviço ao País. Bateu estrondosamente com a porta e abriu uma janela de oportunidade para a solução de um gigantesco cancro empresarial público.

Os ENVC têm sido "enormes" na forma como têm vivido no seio do Sector Empresarial do Estado. Nunca deu lucros e há muitos anos que não é capaz de entregar um único navio com rendibilidade positiva. Neste século, apenas os dois navios que construiu para a Douro Azul, entregues em 2004, deram resultados positivos. E agora que teve a oportunidade de construir mais quatro unidades para a mesma empresa, inventou desculpas para não firmar a encomenda e assim perdeu um negócio de 50 milhões de euros.

E continuamos sem perceber como é que o Governo não obriga uma empresa estatal , a Atlânticoline, a aceitar o navio Atlântida (e o Anticiclone, ainda em blocos), construído em Viana , que continua "encalhado" e cujos custos de produção e manutenção já atingem os 65 milhões de euros.

Depois de ter boicotado o acesso dos estaleiros nacionais ao novo concurso para a construção de dois "ferries", o presidente da Atlânticoline deu-se agora ao luxo de rejeitar o pedido para prestar declarações na Comissão Parlamentar de Defesa. Alegou que o seu testemunho serviria "apenas para gastar tempo". Que insular insolência!

Com um passivo superior a 270 milhões de euros e 650 trabalhadores, os ENVC vão ter que aguardar mais uns tempos para conhecerem o seu real destino.

Conta a lenda que um barqueiro se apaixonou por uma linda rapariga e que passava o tempo a gritar: "Vi a Ana no Castelo", reportando-se ao posicionamento geográfico da sua amada. O "pulmão económico" do distrito de Viana grita agora pela sua salvação. Estados todos a torcer para que não fique "a ver navios"!


*Coordenador do Negócios Porto

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