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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 20 de Outubro de 2004 às 13:59

Viagem ao país da insanidade

Imagine-se um país onde o entretenimento público era totalmente dominado por uma competição desportiva banal, mas capaz de desencadear as mais acaloradas agitações emocionais e sociais.

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Baseada nos sentimentos mais primevos, nós ou eles, vencedores ou vencidos, esta competição era uma constante fonte de conflitos, por vezes violentos, antagonizando indivíduos e comunidades, famílias e regiões inteiras. Apesar disso, todas as semanas estes torneios inundavam o território, atraindo milhares de pessoas e ocupando as conversas, os jornais, as televisões e rádios muito para lá dos eventos propriamente ditos. De tal maneira que, embora realizando-se quase sempre aos domingos, invariavelmente a polémica alastrava pelo resto da semana até de novo se chegar a nova disputa. Na verdade, o magno desporto ocupava todo o tempo e todas as atenções, tornando tudo o resto secundário e irrelevante.

Este país consumia aliás uma enorme fatia do seu orçamento na promoção dos jogos, construindo enormes e dispendiosos estádios, afectando terrenos, criando vastos planos urbanísticos de forma a facilitar a visibilidade e acesso de tais catedrais, injectando avultadas somas na contratação de jogadores e em geral na manutenção e enriquecimento de uma verdadeira casta de dirigentes e funcionários. E isto apesar de uma parte considerável da população viver na mais extrema das misérias, ao que parece um em cada cinco dos seus habitantes e de um número ainda superior não ter sequer habitação condigna. O dinheiro parecia nunca chegar para alimentar o monstro. E tanto dinheiro gerava uma vasta teia de interesses e oportunismos, numa promiscuidade impressionante entre dirigentes desportivos, políticos locais e nacionais, empresários, chegando mesmo a atingir os mais altos responsáveis desta nação, os quais nunca perdiam uma oportunidade de se associar ao espectáculo, de manifestar o seu apoio incondicional e até frequentemente de condecorar jogadores e dirigentes com medalhas e outras sinecuras em nome do interesse comum. O jogo dominava o Estado e minava a sua democracia formal, envolvendo tudo e todos numa mesma trama corrupta e decadente.

Um tal estado de coisas era legitimado com a argumentação de que este desporto contribuía para o desenvolvimento do país, para o fomento do exercício físico e para a formação dos seus jovens. No entanto, semana após semana, registavam-se conflitos de uma agressividade inaudita, ora derivados de uma elaborada promoção do ódio, ora expressos em manifestações da mais baixa índole e falta de civismo. O nível de violência era tal que os jogos tinham que ser acompanhados de enormes aparatos policiais, e, mesmo assim, resultavam quase sempre em confrontos físicos, prisões e feridos. Em particular cada clube patrocinava e organizava hordas de jovens que tinham por única missão insultar, provocar e agredir as hostes contrárias, em rituais que iam buscar a sua iconografia e ideologia a movimentos neonazis e fomentadores da mais exacerbada das intolerâncias. A formação dos jovens ficava assim dependente dos mais baixos sentimentos e de uma visão de convivência social marcada pela hostilidade e pelo desrespeito do outro.

Nestas disputas, os dirigentes dos clubes, ao invés de acalmar os ânimos e impor alguma civilidade, eram eles mesmo os principais mentores do antagonismo através de insultos, ameaças e declarações de guerra, em crescendos de grosseria e sordidez. Na sua maioria homens de farta fortuna e baixa cultura, utilizavam o seu estatuto público para fins pessoais, tantos deles de uma mesquinhez impressionante.

Neste país ninguém parecia ser capaz de introduzir nem racionalidade nem urbanidade. No meio da algazarra as poucas vozes do bom senso não se faziam ouvir. Os poderes públicos temendo os dirigentes desportivos e em geral toda a parafernália social à sua volta, encolhiam-se e remetiam-se ao silêncio. E lenta mas implacavelmente a degradação civilizacional ia avançando com uma dinâmica insana que só podia produzir o mais trágico dos resultados. Este país condenava-se à decadência moral e cívica, mas ninguém parecia dar-se conta. Até um dia...

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