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José Cutileiro 25 de Dezembro de 2012 às 23:30

Visão e coragem

Os sul-africanos trataram dos seus problemas sem interferência da "comunidade internacional" (isto é dos Estados Unidos), livres portanto de crença no poder redentor de eleições livres em quaisquer circunstâncias e da mania de ver qualquer conflito como um combate entre o Bem e o Mal.

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Cyril Ramaphosa foi eleito vice-presidente do ANC, o que o coloca na posição de herdeiro presuntivo de Jacob Zuma na presidência da África do Sul. É uma óptima notícia porque o país precisa de melhor chefe dos que tem tido desde a jubilação de Mandela. Dois mandatos de Thabo Mbeki e um mandato ainda incompleto de Jacob Zuma não tiveram envergadura. Ramaphosa, advogado, fundador de um sindicato de mineiros durante o apartheid teve carreira sindicalista e política exemplar que o levou duas vezes às cadeias do apartheid e lhe granjeou grande reputação de negociador e organizador. Quando Mandela foi libertado em 1990 Ramaphosa fora trabalhar directamente com ele (no meu primeiro encontro com Mandela, no Soweto, 15 dias depois dele ser libertado após 28 anos de prisão, era Ramaphosa quem estava a tomar notas do seu lado) e muita gente pensou que lhe viria a suceder. Mas a máquina do partido impôs Mbeki; Ramaphosa passou da política para os negócios, sem deixar completamente o ANC, ocupando lugares discretos nos órgãos do partido, mas dedicando talento e energia à vida empresarial. É hoje multimilionário, mas há muitos militantes do seu movimento que o querem outra vez em força na política.


A grande razão do seu invulgar prestígio vem de ter sido um dos dois artífices principais da transição pacífica do apartheid para a democracia pluri-racial. O outro foi um afrikaner do Partido Nacional, Rolf Meyer, que entretanto também deixou a política. Muita gente nessa altura, dentro e fora da África do Sul, estava convencida de que a mudança se faria num banho de sangue. Tal não aconteceu por várias razões: o bom senso de milhares de sul-africanos de todas as raças e credos, o estabelecimento de uma comissão de reconciliação em vez de tribunais que decidissem quem era bom e quem era mau mas, acima de tudo, pela decisão de não ir para eleições gerais nem promulgar nova constituição antes que os dois grandes partidos em contenda – o ANC de Mandela e o Partido Nacional de De Klerk – se tivessem entendido sobre as regras e princípios principais da África do Sul futura. Esse trabalho determinado e pormenorizado foi tão eficazmente conduzido por Meyer e Ramaphosa, que, a seguir, as eleições foram uma gigantesca manifestação de civismo e não uma oportunidade para avivar discordâncias e dificultar entendimentos futuros.

Os sul-africanos trataram dos seus problemas sem interferência da "comunidade internacional" (isto é dos Estados Unidos), livres portanto de crença no poder redentor de eleições livres em quaisquer circunstâncias e da mania de ver qualquer conflito como um combate entre o Bem e o Mal. E não foi questão de sorte, mas sim de determinação.

Os protagonistas tiveram visão e sobretudo tiveram coragem. Há muita gente capaz de imaginar um futuro risonho. Muito menos gente está disposta a meter-se ao caminho para lá, contra inimigos e, às vezes, mesmo contra amigos. Na África Austral (ou, tem-se visto ultimamente, na Europa).

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