Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 06 de dezembro de 2017 às 19:15

Vitória de Centeno é prémio político

Centeno teve o mérito de ser ministro das Finanças de um governo apoiado no parlamento por forças eurocéticas, mas que fez tudo para que as contas públicas cumprissem os compromissos assumidos por Portugal perante os seus parceiros.

Portugal pouco tem beneficiado em ter cidadãos nacionais a liderar importantes instituições europeias. Não consta que tenha havido dividendos para o País do consulado de Durão Barroso na Comissão Europeia, nem da vice-presidência de Constâncio no BCE. A vitória de Centeno no eurogrupo é acima de tudo uma vitória pessoal e também um prémio para o governo que contra muitas marés manteve o rumo europeísta, apesar de em termos parlamentares depender de partidos eurocéticos.

 

O euro sobreviveu a um duro teste da crise das dívidas soberanas. Até a Grécia emergiu do caos, sendo que a narrativa sobre Portugal é mesmo a de um sucesso após o duro ajustamento do resgate. O papel do Banco Central Europeu foi determinante para esta acalmia.

 

O governo da geringonça entrou com o país em dura dieta da troika e isso permitiu devolver alguns rendimento sem grandes custos. O crescimento económico e a tendência de baixa de juros possibilitou uma poupança significativa. E Centeno consegue ainda algumas proezas com a redução do défice, através do eficaz truque das cativações. Tudo isto facilitou o acalmar dos mercados e o melhorar da nota de rating.

 

Centeno, ministro de um governo socialista, sucede a outro ministro socialista no eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem. E o português tem um currículo académico muito superior ao do seu antecessor. 

 

Na Europa correm ventos favoráveis ao euro. A proposta da Comissão Europeia, com o aval francês, aponta para a criação de um mecanismo que poderá ser uma arma decisiva no combate às crises financeiras. O euro está mais consolidado que antes das crises. Mas o pecado original da moeda única de agrupar na mesma área monetária economias com níveis de produtividade tão diferentes como a Alemanha e Portugal, ou a Holanda e a Grécia.

 

Quando foi escolhido o nome da moeda única, o então primeiro-ministro português, parafraseando o novo testamento disse: "serás euro e sobre ti construirei a Europa". A realidade mostrou que a moeda única ajudou a criar um muro invisível entre o Norte rico e credor e o Sul devedor. Por isso, mesmo com a nova conjuntura europeia, há um guião a que Centeno não pode escapar. Os países do sul serão sempre obrigados a rigor e disciplina financeira. O léxico até pode mudar, mas quem verdadeiramente manda no euro são os alemães. Quer o poder político de Berlim, quer o BCE, em Frankfurt, criado à imagem e com a doutrina do poderoso banco central alemão.

 

Saldo positivo: cabo elétrico submarino

 

A visita do primeiro-ministro a Marrocos marca o arranque do projeto de construção de um cabo para interconexão elétrica, com 220 quilómetros, entre os dois países. Este cabo submarino pode significar uma importante poupança na fatura elétrica nacional ao permitir importar energia do Norte de África. No futuro esta alternativa pode ser uma boa notícia para as empresas e famílias. Até lá continuarão a pagar uma fatura demasiado cara, agravada com impostos.

 

Saldo negativo: escândalo em Lisboa

 

Quando as autarquias têm demasiado dinheiro acaba por haver maiores desperdícios. A atribuição de um salário de 3.752 euros para assessores da Assembleia Municipal de Lisboa, aprovado por unanimidade, é uma captura de todos os aparelhos políticos de recursos públicos para alimentarem os seus "boys and girls". Os cidadãos sobrecarregados com o IMI e tantas outras taxas é que pagam este pessoal. Na prática, trata-se de financiamento partidário encapotado.

 

Algo completamente diferente: seca revela má gestão da rede de água 

 

A seca severa que sofremos já causa situações dramáticas no abastecimento de água. O caso mais grave é em Viseu, mas outros municípios já são forçados a racionar. Esta seca prova que as alterações climáticas são reais. E o clima português arrisca-se a ficar mais parecido com o Sahel. Mas perante este cenário aterrador muito pouco tem sido feito para melhorar e poupar água potável. Grande parte do preciso líquido perde-se na rede, gastamos água potável nas sanitas. A água é um recurso escasso que convém começar a gerir melhor.

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