João Quadros
João Quadros 30 de janeiro de 2015 às 09:55

Viver acima das nossas impossibilidades

A Grécia voltou a agitar a Europa, mas desta vez há muitos portugueses satisfeitos. A vitória do Syriza, que muitos esperavam mas que poucos queriam considerar, acabou por ser uma espécie de terramoto anunciado.

 

A Grécia voltou a agitar a Europa, mas desta vez há muitos portugueses satisfeitos.


A vitória do Syriza, que muitos esperavam mas que poucos queriam considerar, acabou por ser uma espécie de terramoto anunciado. Como se a União soubesse o que aí vinha mas, como sempre, não se tivesse preparado para isso. "Deixa ver o que acontece e depois logo vemos" tem sido a máxima de Bruxelas. Habituado a países como Portugal, a Bélgica ou a Alemanha, que levam entre 40 a 500 dias a formar um Governo, o Syriza fez o Governo de um dia para o outro, tomou posse e começou logo a trabalhar. Afinal, os gregos não são todos paralíticos. É, provavelmente, essa a razão para a ausência de mulheres no novo Governo grego: era impossível ter uma mulher pronta, para ser ministro, em 24 horas.


As primeiras horas após a vitória e tomada de posse de Alexis Tsipras foram preenchidas com palpites sobre as intenções do Syriza e críticas à ausência de gravatas ou de mulheres no Governo. Ou, ainda, à aliança com um partido de direita. "Nem um basquetebolista no governo do Syriza!"; "aquilo é só gente grega!"; "qual cultura se não há um indivíduo de laço?!"; "ministro um disléxico nem!". Acho extraordinário este tipo de preocupações e embirrações. Parecem aqueles indivíduos cheios de fome a quem oferecem uma tosta mista e barafustam porque não é aparada.


Num momento como este, em que há um discurso de ruptura com tudo o que nos tem sido dito - e com a elite e as regras que nos têm governado -, o que ainda continua a ser importante, para as pessoas, são as aparências. Querem um Syriza politicamente correcto, com quotas, cargos para a fotografia e alianças baseadas na comunhão de ideias ao nível dos tipos de queijos ou de fronteiras inultrapassáveis. Tudo o que tem dado bom resultado por essa Europa fora.


O Syriza vai para a guerra. Não vai para a foto nas escadas. Vai, de certeza, com os que acha que são mais capazes. Aposto que não vai com Machetes. Em 24 horas, o governo de Alexis Tsypras aumentou o ordenado mínimo e aprovou electricidade gratuita para 300 mil pobres. Não admira que não usem gravata; até deviam estar em mangas de camisa.


O Syriza sem gravatas mete um bocado de medo a quem usa o colarinho apertado. Ninguém os quer encarar de frente. Têm medo de olhar para o abismo e passar a fazer parte dele.

O primeiro-ministro português diz que "é sabido que o programa do partido que ganhou as eleições é difícil de ser conciliado com aquilo que são as regras europeias." Por acaso, uma das regras, nestas coisas das relações entre estados - de pessoas de gravata - é ser extremamente grosseiro e gozar as ideias de um homólogo.


Cheira a medo por todo o lado. O nosso PM não é, sequer, capaz de dizer o nome do líder, nem do partido que venceu as eleições gregas. Usa sempre frases como - o 'líder do partido que ganhou as eleições na Grécia' - ou - o partido vencedor das eleições gregas - ou o novo PM grego. Há ali medinho. Passos Coelho diz que as promessas do Syriza são histórias para crianças mas, faz chichi pelas pernas abaixo se ouve o nome Tsipras. Nem se atreve a dizer o nome, não vá ele existir, porque, para o Doutor Passos, o Syriza é o papão que o há-de vir buscar, uma noite, com o seu saco. 

 

 

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TOP ALEXIS


1 "A redução do preço do petróleo não é assim tão favorável à TAP" - deixam de viajar os angolanos.


2 20 minutos de caminhada reduz o risco de morte prematura - excepto se for na auto-estrada.


3 Benfica retira estrutura em torno da estátua de Eusébio - vai para Valência.


4 "Cavaco Silva condecorou 5 fadistas portugueses" - (incluindo Kátia Guerreiro, eu não sei como é que a Maria ainda não percebeu) a seguir vai condecorar todos os "do Carmo" menos o Carlos.


5 "70 anos de Auschwitz relembrados em toda a Europa" - pelo menos, os 70 anos de Auschwitz sempre são uma variante e são 24 horas nas televisões a dizer mal dos alemães. Vamos lá ver se vai dar para festejar os 75 anos ou se começa- mos a contar do zero outra vez.

 

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