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Jean Pisani-Ferry 08 de Abril de 2014 às 16:26

Vladimir Putin vai reforçar a Zona Euro?

Jacek Rostowski, ministro das Finanças da Polónia até Novembro passado, sugeriu recentemente que o Presidente russo Vladimir Putin não se atreveria a anexar a Crimeia se não tivesse visto a Europa agonizar enquanto procurava encontrar uma solução para a crise do euro. Rostowski tem razão?

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À primeira vista, tal ligação parece exagerada. A demonstração de força de Putin envolveu força militar e a implícita ameaça de embargo de gás, mas não poder monetário (que não tem). Durante o conflito da Crimeia o foco foi a relação da Ucrânia com a União Europeia (UE), não com a Zona Euro. Além disso, a recente história monetária da Ucrânia tem sido definida pela vinculação cambial ao dólar norte-americano, não ao euro. Portanto como podia o euro ser relevante para a anexação russa da Crimeia?

 

Segundo Rostowski os países europeus demonstraram, ao longo da crise do euro, pouca apetência para a solidariedade, mesmo em relação aos parceiros da união monetária. Quanta solidariedade estariam na disposição de garantir a um país que não é membro da União Europeia? O raciocínio é este: a Rússia interpretou a hesitante gestão da desordem como uma licença para agir. E podia ter ido ainda mais longe pela mesma razão.

 

Claramente a série de eventos que se seguiram ao colapso financeiro em 2008 pode ser vista como uma crise da solidariedade. Quando uma resposta conjunta à debacle dos bancos europeus era necessária, a resposta foi que cada país devia tratar das suas instituições financeiras. Quando a Grécia perdeu acesso aos mercados financeiros, foram necessários vários meses para desenhar uma resposta, que consistiu, essencialmente, na não dependência de fundos europeus e na limitação do compromisso financeiro de cada país. Na verdade, quando finalmente foi criada uma “firewall”, a sua capacidade foi estritamente limitada e não se permitiu qualquer forma de responsabilidade conjunta. E os Eurobonds foram rapidamente rejeitados porque acabariam por criar uma forma de mutualização de débito ilimitada.

 

Da mesma forma, apesar de ter sido planeado que o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) poderia ser usado para recapitalizar bancos, acabou por decidir-se o MEE só emprestar a

Putin terá concluído que a União Europeia, tão relutante em correr riscos a bem dos seus próprios membros, não correria, certamente, riscos por um mero país vizinho.

governos em vez de assumir directamente riscos bancários. E, mais recentemente, as negociações para a criação de uma união bancária na UE encontraram, novamente, o desafio de forjar um mecanismo de resolução conjunta enquanto se limita o compromisso de cada Estado-membro.

 

Resumidamente, de cada vez que a questão da solidariedade europeia foi colocada, a resposta foi: “Sim, mas só se for absolutamente necessário e somente na dimensão mínima possível”.

 

As reacções russas ao levantamento ucraniano demonstraram quão vivas permanecem, em Moscovo, as memórias da Segunda Grande Guerra Mundial. É justo assumir que o Kremlin tenha percebido que a Europa não tinha intenção de emular os Estados Unidos e projectar um Plano Marshall próprio. De forma mais genérica, Putin terá concluído que a UE, tão relutante em correr riscos a bem dos seus próprios membros, não correria, certamente, riscos por um mero país vizinho.

 

Uma das dimensões centrais do actual impasse na Ucrânia é a energia, e isso levanta a mesma questão acerca da solidariedade europeia. Como mostrava um recente estudo do Bruegel, a UE como um todo podia, com algum esforço, dispensar as importações de gás da Rússia. Mas fazê-lo requereria que os Estados-membros da UE vissem a segurança do abastecimento como uma preocupação comum, não como um problema que cada país tem de resolver por si próprio. Por exemplo, em resposta a um embargo que afectasse um país em particular, outros membros da UE podiam recorrer às suas próprias reservas, aumentar a sua própria produção, pagar mais pelas importações ou reduzir um pouco o consumo. Mas este tipo de solidariedade tem estado sistematicamente ausente do debate sobre a política energética da UE.

 

A questão essencial é saber se é justo assumir que o euro deveria ter propiciado maior solidariedade. Aqueles que conceberam inicialmente a moeda única esperavam que esta originasse consequências profundas. Na sua perspectiva constituiria uma forma de forjar uma comunidade. As fronteiras entre moedas normalmente coincidem com fronteiras políticas, pelo

Foi um erro acreditar que o euro podia criar de forma espontânea uma comunidade. Apesar de haver evidentemente um vínculo entre espaços monetários e comunidades políticas (considere-se a dissolução da zona do rublo na época do colapso da União Soviética), são comunidades políticas que criam a solidariedade necessária à promoção de laços monetários, não o contrário.

que se esperou que a criação de uma união monetária resultasse em algum tipo de entidade comum. Esperava-se que a partilha da mesma moeda criasse um sentimento de destino comum e, portanto, de solidariedade entre os participantes.

 

Mas não aconteceu isso. Mesmo antes da crise era claro que os cidadãos e os governos encaravam (erradamente) o euro como uma mera funcionalidade. A sua introdução foi vista como uma questão tecnocrática, para ser tratada pelos bancos centrais e ministros das Finanças, não como o fundamento de uma identidade comum europeia. A sua criação não provocou nenhum aumento do orçamento comunitário nem conduziu a uma mais profunda integração política. O compromisso necessário a uma moeda comum foi constantemente subestimado.

 

Em retrospectiva, foi um erro acreditar que o euro podia criar de forma espontânea uma comunidade. Apesar de haver evidentemente um vínculo entre espaços monetários e comunidades políticas (considere-se a dissolução da zona do rublo na época do colapso da União Soviética), são comunidades políticas que criam a solidariedade necessária à promoção de laços monetários, não o contrário.

 

Rostowski tem certamente razão: a fraqueza do euro encorajou Putin. No final, contudo, a questão essencial passa por saber se a crise da Crimeia acabará por reforçar a solidariedade europeia – e, portanto, o euro.

 

Jean Pisani-Ferry, professor na Hertie School of Governance, em Berlim, é comissário-geral para o planeamento político em Paris. Foi director do Bruegel, um think tank de economia com sede em Bruxelas.

 

Copyright: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

Tradução: David Santiago

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