Adair Turner
Adair Turner 14 de julho de 2016 às 20:30

O alarme do Brexit

Na qualidade de europeu entusiasta, fiquei horrorizado com o resultado do referendo britânico à permanência na União Europeia, que quase de certeza nos fará sair da UE. Durante muitos anos receei que a imigração em larga escala para o Reino Unido levasse a uma penalizadora resposta populista.

As elites globais têm agora de aprender e agir perante a crucial lição do Brexit. Contrariamente às suposições simplistas, a globalização do capital, o comércio e os fluxos migratórios não são "benéficos para todos". Se não abordarmos os seus efeitos adversos, o Brexit não será a última – nem a pior – consequência.

 

Em inícios da década de 1990, a imigração líquida para a Grã-Bretanha era praticamente nula. Começou a aumentar em finais dessa mesma década e cresceu rapidamente, após oito países ex-comunistas terem aderido à UE em 2004, quando a Grã Bretanha – ao contrário, por exemplo, de França e da Alemanha – preferiu não usar o seu direito a impor um prazo de sete anos antes de permitir a circulação de pessoas de novos Estados-membros. No ano passado, a imigração líquida para o Reino Unido ascendeu a 333.000 pessoas, ao passo que a população total cresceu em cerca de 500.000. Segundo estimativas credíveis, a população britânica, que é actualmente de 64 milhões de pessoas, poderá superar os 80 milhões em meados do presente século.

 

A migração traz, sem dúvida, muitos benefícios – Londres é uma cidade fabulosa, em parte devido à sua fusão cosmopolita de variadas culturas. No entanto, tal como referiu em 2008 a Comissão dos Assuntos Económicos da Câmara dos Lordes, da qual faço parte, a imigração em larga escala trouxe grandes desvantagens para muitas pessoas.

 

O impacto preciso das vagas de imigração tem sido intensamente debatido pelos economistas, mas nenhuma economia consegue enfrentar um súbito aumento da oferta de trabalho sem que haja algumas consequências adversas para pelo menos alguns grupos de trabalhadores autóctones. Um súbito aumento da população, frequentemente concentrado em regiões específicas, produzirá também um aumento excessivo de serviços públicos-chave, como a educação e os cuidados de saúde, a menos que isso seja compensado por um aumento bem planeado e bem financiado do investimento público. No Reino Unido, esse investimento não aconteceu.

 

Em Inglaterra – que compete com a Holanda em matéria de maior densidade populacional na Europa – muitos receiam que um aumento adicional da população signifique uma pressão indesejada sobre as muito apreciadas zonas rurais. Isto provocou uma intensa oposição local ao desenvolvimento de novas infra-estruturas de relevo, causando inevitavelmente atrasos intermináveis, maiores custos ou ressentimentos persistentes.

 

Por todas estas razões, era inevitável que o aumento da migração para o Reino Unido provocasse uma reacção política. Essa reacção reflectiu em parte uma xenofobia atiçada por exageros deliberados. Os defensores do "Leave", por exemplo, deram a entender que a Turquia, com a sua população vasta e em rápido crescimento, em breve entraria na União Europeia sem o consentimento dos britânicos. Mas foram mentiras que funcionaram, porque se criaram em torno de um núcleo de verdade, e negar o reconhecimento dessa verdade acabou por intensificar a reacção populista.

 

Com efeito, frente à crescente inquietude acerca da migração, os políticos do "establisment" e os economistas académicos reagiram rejeitando esses receios como sendo racismo encoberto ou mesmo negando a existência de consequências adversas; em ambos os casos, parece que milhões de cidadãos sofriam de falsa lucidez. Mas se algumas pessoas se confrontam de facto com problemas reais, dar sermões sobre os benefícios da migração só as enfurecerá ainda mais.

 

O facto de os defensores do "Remain" não terem sido capazes de afastar os receios acerca da migração reflecte a incapacidade geral da elite mundial em convencer as pessoas de que a livre circulação de capitais, bens e pessoas é, em termos gerais, positiva para todos. Na realidade, não o é, e uma boa fundamentação económica poderá explicar porquê.

 

De acordo com a teoria económica, cada uma destas três liberdades pode contribuir para aumentar a dimensão do bolo global que existe para repartir. No entanto, a teoria económica diz-nos também que haverá inevitavelmente perdedores e vencedores, pelo que a liberalização e a globalização só serão benéficas para todos se os vencedores compensarem os perdedores. Em todo o mundo, essa compensação tem sido notavelmente diminuta.

 

Nos Estados Unidos, o principal desafio do futuro será, muito provavelmente, o impacto do comércio, e não da migração, porque a era da entrada em larga escala de pessoas provenientes da América Latina poderá em breve chegar ao fim, à medida que a queda das taxas de fertilidade vai estabilizando as populações de toda a região. Paradoxalmente, o candidato presidencial norte-americano Donald Trump conseguiu reunir apoios ao seu absurdo plano de construir um muro na fronteira com o México no preciso momento em que a migração líquida proveniente daquele país está a entrar em números negativos.

 

Mas o argumento de que muitos trabalhadores norte-americanos sofreram – e poderão sofrer ainda mais – com o comércio livre encontrou eco, porque em parte é verdade. A menos que o sistema político dos Estados Unidos consiga dar respostas eficazes a esta realidade, a rejeição populista do comércio livre, a par com o antagonismo face aos imigrantes, poderá crescer.

 

Em contrapartida, na Europa, o grande desafio no futuro será o da migração e não tanto de dentro das fronteiras da União Europeia mas de fora. Segundo as Nações Unidas, a população africana poderá aumentar dos actuais 1,2 mil milhões de pessoas para mais de 4,3 mil milhões em 2100. Se este crescimento não se fizer acompanhar por um aumento da prosperidade, e pela rápida expansão de oportunidades de emprego, então os fluxos migratórios contínuos e de grandes proporções através do Mediterrâneo serão inevitáveis.

 

Consequentemente, toda a Europa se confronta com dois grandes desafios: ajudar a impulsionar o desenvolvimento económico em África e no Médio Oriente, e lidar da melhor forma possível com os substanciais fluxos migratórios que sem dúvida ocorrerão, com consequências adversas significativas para alguns cidadãos.

 

Para lidar com estes desafios será necessária uma resposta coordenada a nível europeu e lamento profundamente que a Grã-Bretanha passe agora a desempenhar um papel muito menor neste esforço colectivo da Europa. Se pode haver algum efeito positivo com este triste resultado, será o de ter soado o alarme dos aspectos negativos da globalização. E se esses aspectos negativos não forem reconhecidos e combatidos, a reacção adversa que alimentou o Brexit continuará a crescer.

 

 

Adair Turner foi presidente da Autoridade dos Serviços Financeiros do Reino Unido e é actualmente "chairman" do Institute for New Economic Thinking. O seu mais recente livro intitula-se "Between Debt and the Devil".

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

 

Tradução: Carla Pedro

 

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