Daniel Gros
Daniel Gros 14 de agosto de 2018 às 14:00

O golpe comercial da Europa

Qualquer benefício que a China consiga com medidas proteccionistas pode ser anulado por uma escalada da guerra comercial - especialmente agora que a UE está segura e que a China terá que enfrentar os EUA sozinha.

Tudo ficou mais tranquilo na frente comercial transatlântica, com o acordo do mês passado entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, a dissipar os receios em torno de uma guerra de tarifas a nível global. O acordo foi surpreendente, mas talvez não devesse ter sido.

 

Na base do acordo entre Juncker e Trump esteve o entendimento de que a União Europeia e os Estados Unidos "trabalharão juntos no sentido de tarifas zero, barreiras não-tarifárias zero e zero subsídios para bens industriais não relacionados com o sector automóvel", sem novas barreiras comerciais no entretanto. Mas o potencial para um acordo de livre comércio não é o ponto principal; o que interessa é o fim da escalada de represálias, accionada pela decisão de Trump de impor tarifas às importações americanas de aço europeu.

 

O presidente dos EUA tem o poder de impor tarifas e outras barreiras comerciais unilateralmente, no interesse da segurança nacional. Foi por isso que Trump conseguiu lançar a sua própria guerra comercial sem sequer consultar o Congresso dos EUA. Um acordo comercial em grande escala, pelo contrário, precisaria de aprovação do Congresso. Dada a miríade de interesses especiais que um acordo desse tipo mobilizaria, é altamente improvável que qualquer acordo comercial - mesmo limitado a produtos industriais - se materialize em breve.

 

Historicamente, os EUA só conseguiram concluir acordos comerciais quando uma coligação de actores que beneficiaria de melhores oportunidades de exportação obteve mais votos do que aqueles que eram vulneráveis ??à concorrência das importações. Quando o comércio é considerado uma questão económica, geralmente é possível montar uma coligação assim, porque os benefícios da liberalização do comércio superam os custos.

 

Mas isto é mais difícil nos EUA do que noutros lugares, porque o comércio desempenha um papel relativamente pequeno na economia dos EUA. As exportações de bens podem ser o foco principal de Trump, mas a verdade é que representam menos de 10% do PIB. O emprego directo nas indústrias exportadoras não desempenha um papel significativo no mercado de trabalho dos EUA.

 

Na Europa, pelo contrário, as exportações representam mais de 25% do PIB na maioria dos países; na Alemanha, o peso é superior a 50%. Quando uma economia é tão dependente do comércio, torna-se muito mais fácil argumentar a favor da liberalização, razão pela qual a Europa tem sido mais entusiasta do que os EUA sobre um acordo transatlântico de livre comércio. As negociações para esse acordo - a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento - estagnaram durante a administração do presidente Barack Obama.

 

Além do acordo em si, Juncker terá feito uma promessa pessoal de que a UE compraria mais produtos agrícolas aos EUA. Essa promessa é vazia e fácil de cumprir.

 

É vazia porque a Comissão Europeia não tem orçamento para comprar soja dos EUA nem forma de levar os consumidores da UE a fazê-lo. E é fácil de cumprir porque a China já impôs tarifas sobre a soja dos EUA em resposta às tarifas norte-americanas sobre as suas exportações, o que significa que os produtores de soja não-americanos deverão mudar as suas exportações para o mercado chinês, deixando o mercado da UE disponível para os produtores dos Estados Unidos. O principal impacto das tarifas chinesas sobre a soja dos EUA será, portanto, o redireccionamento dos fluxos globais de soja.

 

Mas o papel da China vai além da soja. Na verdade, é a dinâmica do comércio com a China que explica a disponibilidade de Trump para chegar a um acordo com Juncker em primeiro lugar.

 

Uma tarifa sobre as importações para os EUA tem um impacto muito maior se os exportadores chineses forem os únicos a enfrentá-la. Uma taxa de 25% sobre motores de aviões da China, por exemplo, permitiria que os fabricantes de outros lugares ganhassem quota de mercado, ao passo que se todos tivessem que pagar a mesma tarifa, o campo de jogo permaneceria inalterado.

 

Assegurar que a UE não enfrenta as mesmas tarifas que a China é particularmente significativo, porque os fornecedores europeus são os principais concorrentes dos exportadores chineses em muitos sectores. Dado que a UE também compete com os EUA no mercado chinês, a indústria europeia pode ganhar (marginalmente) com uma guerra comercial sino-americana. Enquanto os EUA e a China travam uma luta comercial, as tréguas transatlânticas representam um triunfo para a Europa.

Para a China, não servem de muito. Embora os líderes do país continuem a falar sobre o livre comércio, até agora não se mostraram dispostos a ter em conta as queixas tanto dos EUA como da Europa. Se a China quer aliados na sua guerra comercial com os EUA, terá que rever muitos regulamentos e práticas internas que constituem discriminação de facto contra concorrentes estrangeiros.

 

Assim, o acordo UE-EUA trouxe ao de cima a verdadeira questão que os líderes da China enfrentam: manter ou não um forte apoio do governo à indústria doméstica. Ainda que há 20 anos, as medidas proteccionistas possam ter sido defensáveis, a economia chinesa é hoje muito mais competitiva. Qualquer benefício que a China consiga com essas medidas pode ser anulado por uma escalada da guerra comercial - especialmente agora que a UE está segura e que a China terá que enfrentar os EUA sozinha.

 

Daniel Gros é director do Centro de Estudos Políticos Europeus.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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