Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Daniel Gros 23 de Dezembro de 2010 às 13:49

O Custo dos Almoços Grátis dos EUA

Durante décadas, o mundo reclamou que o papel do dólar como a moeda de reserva global

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...
Durante décadas, o mundo reclamou que o papel do dólar como a moeda de reserva global conferia aos Estados Unidos um “privilégio exorbitante”, uma expressão geralmente atribuída a Charles de Gaulle mas dita, de facto, pelo seu ministro das Finanças, Valery Giscard d’Estaing. Quando as taxas cambiais foram fixadas sob o sistema Breton Woods, a natureza de tal privilégio tornou-se clara: os EUA eram o único país que podia determinar livremente a sua política monetária. Todos os outros tinham de se adaptar à política ditada por aquele país.

Isto alterou-se com a chegada das taxas cambiais flutuantes em meados dos anos 70, o que permitiu que os países mais preocupados com a estabilidade, como a Alemanha, se dissociassem da política monetária norte-americana por a considerarem demasiado inflacionada. Mas, mesmo com as taxas de câmbio flutuantes, os EUA mantiveram uma vantagem: dado que o dólar continua a ser a divisa de reserva global privilegiada, a nação pode financiar enormes défices externos a taxas muito favoráveis.

Actualmente, o Tesouro norte-americano pode ainda pedir emprestadas quantidades ilimitadas a taxas de juro mínimas. A taxa de juro indexada à inflação estabeleceu-se nos -0,5%, mesmo para a maturidade a cinco anos. Por isso, a administração dos EUA está, na realidade, a ser paga para ficar com o dinheiro dos investidores – uma oferta generosa que é aceite em larga escala, na esperança de que o facto de direccionar estes recursos para os consumidores nacionais venha a elevar as despesas das famílias e, em consequência, gerar mais emprego.

Os EUA parecem ter alcançado o ponto mais próximo de que se pode imaginar da expressão “almoço grátis”, exceptuando que, como os economistas gostam de dizer, tal não existe. E isso também é verdade nesta situação: exercer o papel de reserva cambial permite que os EUA peçam dinheiro emprestado a baixos valores, mas com a desvantagem de não terem nenhuma influência significativa sobre a taxa de câmbio, que é determinada pela restante procura mundial por activos em dólares.

A Alemanha descobriu este facto durante as décadas de 60 e de 70 e resistiu à colocação do marco alemão como moeda de reserva internacional. As autoridades alemãs temiam que um país com uma economia orientada para as exportações viesse a sofrer de largas variações das taxas de câmbio, já que estas oscilações são a norma nas divisas de reserva mundiais. Contudo, dada a fraqueza das outras moedas europeias, e também tendo em conta o desejo da Alemanha em manter os mercados abertos, havia muito pouco a ser feito pelas autoridades.

Quando o marco se tornou numa das principais moedas de reserva internacional, durante os anos 80 e 90, as grandes alterações de cotação do dólar tiveram, de facto, um impacto enorme na economia alemã. Uma das razões que levou a nação germânica a aderir ao euro foi a esperança de que a união monetária iria distribuir por uma área mais alargada a sobrecarga que advinha do seu papel de moeda de reserva.

A economia norte-americana é ainda bastante fechada (as importações e as exportações contribuem apenas, em média, para cerca de 15% do PIB) e, ao longo dos anos, as exportações nunca foram o seu principal motor de crescimento. É por isso que a posição tradicional do país tem sido a seguinte: “A taxa de câmbio é nossa, mas o problema é vosso”.

Então, porque razão estão agora os EUA a mudar o seu discurso? A resposta é óbvia: a elevada taxa de desemprego da nação, que se situa entre os 9% e os 10%. É este o preço que os Estados Unidos têm de pagar pelo seu almoço: os norte-americanos podem continuar a consumir muito, mas os postos de trabalho estão noutro lugar.

Actualmente, a China substituiu a Alemanha (e o Japão) como o maior exportador mundial – mas com uma diferença: orienta fortemente a taxa de câmbio, através de controlos de capital e com uma intervenção massiva nos mercados cambiais. Sendo a única grande economia com controlos de capital, a China criou o seu próprio “privilégio exorbitante”: pode fixar a sua taxa de câmbio porque nenhum outro grande país impõe esses controlos.

Cada uma das duas superpotências económicas do globo ressente-se do “privilégio exorbitante” da outra. Em primeiro lugar, os Estados Unidos queriam ter os empregos da China e, em segundo lugar, a China queria ter melhores oportunidades de investimento. Nenhuma delas está a fazer nada para sair deste impasse, embora ambas possam facilmente ultrapassá-lo.

Os chineses podiam abolir os controlos dos fluxos de capital e deixar que a taxa de câmbio do renminbi flutuasse. Mas os EUA poderiam facilmente acabar com o privilégio da China ao restringir as vendas da dívida de Tesouro (e de outros instrumentos de dívida) para as autoridades monetárias daquela nação. Ao fazê-lo, os EUA não estariam a quebrar nenhum acordo internacional nem a começar nenhuma guerra comercial. É provável que essa medida fosse eficaz, dada a dimensão das intervenções chinesas (centenas de mil milhões de dólares norte-americanos por ano), um volume que não conseguiria, facilmente, ser reciclado através de bancos offshore sem expor o banco central da China a muitos outros riscos.

Claro que impedir que as autoridades chinesas comprem dívida norte-americana seria equivalente a impor controlos de capital, o que faria com que a China perdesse o monopólio no uso desses instrumentos. Mas isso também podia significar o fim da posição dos EUA como o centro do sistema financeiro mundial – e, portanto, o fim do seu próprio “privilégio exorbitante”.

Não há mesmo almoços grátis. Os EUA precisam de escolher entre a criação de emprego, que exige uma taxa de câmbio mais competitiva, e um financiamento barato para os seus défices externo e orçamental.

E enquanto a China e os EUA se preocupam com estas questões, cada um deles tentando manter o seu “privilégio exorbitante”, a Europa parece estar no meio dos dois, sofrendo das mesmas desvantagens da posição dos EUA mas sem experimentar nenhum dos seus privilégios. O euro também é uma moeda de reserva global (se bem que de uma importância secundária), mas os custos de financiamento de muitos dos governos da Zona Euro são muito maiores do que aqueles que paga o Tesouro norte-americano. Este é um dos inconvenientes da natureza incompleta da integração financeira na Europa.



Daniel Gros é director do Centro de Estudos Políticos Europeus (CEPS).


Copyright: Project Syndicate, 2010.
www.project-syndicate.org
For a podcast of this commentary in English, please use this link:
http://media.blubrry.com/ps/media.libsyn.com/media/ps/gros14.mp3
Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias