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Daniel Gros 08 de Abril de 2014 às 16:11

O que é que torna a Grécia especial

A crise do euro parece ter ficado, em grande medida, para trás. Os prémios de risco continuam a cair a todos os níveis. Um país – a Irlanda – já saiu do programa de ajustamento. Outro – Portugal – estás prestes a terminá-lo. Já se financiam a si próprios no mercado e as suas economias parecem estar novamente a crescer.

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Pelo contrário, a Grécia ainda enfrenta dificuldades em alcançar as metas do seu programa de ajustamento e encontra-se envolvida em intermináveis negociações em relação a outro pacote de financiamento multilateral. O problema pode ser resumido a uma só palavra: exportações (ou, melhor, falta de crescimento das exportações).

 

As notícias da Grécia no último mês têm sido dominadas pelo anúncio de que o governo atingiu, em 2013, um excedente orçamental primário (a balança orçamental sem integrar os encargos com a dívida). Pela primeira vez em várias décadas, o governo grego conseguiu pagar as suas despesas com as suas próprias receitas.

 

Este é, de facto, um marco histórico. Mas houve um outro factor noticioso que recebeu muito menos atenção: a Grécia exportou, em 2013, menos do que em 2012.  

 

Este desempenho fraco, que se seguiu a anos de estrangulamento da quota de mercado, é difícil de explicar, dado que todos os outros países da periferia da Zona Euro apresentaram níveis sólidos de crescimento das exportações. Por exemplo, as exportações portuguesas cresceram entre 5% e 6% por ano ao longo dos últimos anos, apesar de todas as condições externas desafiantes (Espanha é o seu principal mercado exportador) e de uma contracção do crédito, que fez com que fosse difícil para os exportadores obterem financiamento.

 

Assim, nem a fraca procura externa nem a ausência de financiamento podem ser a

A ausência de crescimento das exportações tornou a recessão da Grécia muito mais profunda e prolongada do que poderia ter sido. Se as exportações gregas tivessem crescido ao mesmo ritmo que Portugal (ou Espanha), a recessão estaria agora para trás.

razão para o pobre desempenho exportador da Grécia. A reduzida competitividade também não é uma explicação já que os custos laborais reais (ajustados à inflação) caíram na Grécia nos últimos anos mais do que em qualquer outro país da Zona Euro, com excepção da Irlanda.

 

Mas seria estranho concluir, a partir da experiência grega, que a deflação salarial é uma ferramenta útil para melhorar a competitividade, dada a hipótese generalizada de que a Alemanha beneficia massivamente dela. Assim, a única explicação para o fraco desempenho exportador tem de ser a de que a economia helénica continua tão distorcida que não está a responder a sinais de alteração dos preços.

 

Esta falta de capacidade de ajustamento é crucial. Na Irlanda, Espanha e até em Portugal, as exportações cresceram mais fortemente quando as economias nacionais entraram em colapso e os salários ajustaram. Mas estes países eram já mais flexíveis e, em alguns deles, já se encontravam sob fortes reformas.

 

Pelo contrário, na Grécia, não há provas de que muitas das reformas estruturais impostas pela troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) levaram a uma verdadeira melhoria no terreno. Muitos indicadores de eficiência sobre como funcionam o governo e o mercado laboral deterioraram-se.

 

O argumento simplista de que a Grécia tem poucas coisas para exportar é irrelevante neste aspecto. O problema não é o montante reduzido das exportações gregas mas mais o da inexistência do seu crescimento, o que deveria ser possível, especialmente tendo em conta o baixo ponto de partida. Há vários anos, as exportações de bens e serviços gregas eram semelhantes às de Portugal. Hoje em dia, Portugal está quase 20 mil milhões de euros à frente. Isto representa uma perda potencial de mais de 10% de riqueza para a Grécia.

 

A ausência de crescimento das exportações tornou a recessão da Grécia muito mais profunda e prolongada do que poderia ter sido. Se as exportações gregas tivessem crescido ao mesmo ritmo que Portugal (ou Espanha), a recessão estaria agora para trás.

 

Além do mais, esta inexistência de expansão exportadora tornou o ajustamento orçamental muito mais difícil. Exportações mais elevadas teriam, não só, rendido receitas mais elevadas como também teriam um efeito multiplicador na economia nacional, aumentando as receitas dos impostos sobre o consumo.

 

A Grécia tem uma balança corrente equilibrada – uma conquista, depois de défices de dois dígitos (em percentagens do PIB) registados há poucos anos. Mas, ao contrário de outras economias na periferia da Zona Euro, esta melhoria foi alcançada inteiramente através da compressão das importações.

 

Tudo isto sugere que não se pode ter qualquer esperança de uma recuperação sustentada da Grécia a não ser que as exportações comecem a crescer. É frequentemente defendido que, se houvesse menos austeridade, a procura interna seria mais forte. Tal até pode ser verdade, mas uma mais forte procura interna levaria a importações mais elevadas, o que teria de ser pago através de receitas com exportações mais significativas, dado que o país não pode acumular mais dívida externa. Sem exportações não há crescimento: a sustentabilidade da dívida grega depende, em última medida, deste critério chave.

 

O que correu mal na Grécia não foi o ajustamento orçamental. Pelo contrário, a austeridade foi, talvez, bastante bem-sucedida (e dolorosa). Mas foi a resposta ao alvo errado.

 

O objectivo a alcançar realmente importante para qualquer país que está a iniciar um programa de ajustamento com um défice da conta corrente de dois dígitos tem de ser o crescimento das exportações. Falhar essa meta foi aquilo que colocou a Grécia à parte.

 

Infelizmente, há pouco que possa ser feito pelo resto do mundo que assegure que a Grécia exporte mais. O governo pode ser obrigado a passar decretos, o Parlamento pode ser pressionado a adoptar toda a legislação de reformas conhecida pela humanidade. Mas, no final, o que conta é como é que a reforma é aplicada no terreno, e como é que a economia a ela responde. E um programa de ajustamento é bem-sucedido, ou falha, no terreno onde é aplicado, e não em Bruxelas ou em Washington.

 

Daniel Gros é director do Center for European Policy Studies.

 

Copyright: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

Tradução: Diogo Cavaleiro

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