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Daniel Gros - Director do CEPS 10 de Dezembro de 2014 às 19:00

Os grilhões alemães da Europa

Um barco que está a ser sacudido pela tempestade perto de penhascos perigosos precisa de uma âncora forte para evitar embater contra as rochas. Em 2012, quando uma tempestade financeira atingiu a Zona Euro, foi a Alemanha que manteve o navio europeu a salvo do desastre. Mas agora, a âncora da Europa tornou-se um freio, que está a dificultar a caminhada em diante.

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Naturalmente, a chanceler alemã Angela Merkel só actuou, em 2012, depois de dizer ao eleitorado nacional que não havia alternativa. Mas, no final, Merkel concordou com um fundo de resgate permanente para a Zona Euro. Além disso, também apoiou a formação de uma união bancária, que embora permaneça incompleta, representa um passo fundamental em direcção a um sistema financeiro supervisionado pelo Banco Central Europeu. A tormenta financeira acalmou graças a estas medidas e à garantia do presidente do BCE, Mario Draghi, de que a autoridade monetária faria tudo o que fosse preciso para salvar o euro. Promessa que a Alemanha apoiou tacitamente.  

 

Mas agora, a Zona Euro parece incapaz de escapar a um cenário de deflação, com pouco crescimento económico e preços que mal sobem.

 

Não era suposto isto acontecer. Quando a crise estalou, as economias da periferia da Zona Euro foram atingidas pelos choques gémeos da subida dos juros da dívida e da queda do mercado imobiliário. Ao mesmo tempo, a economia alemã beneficiou do capital que fugiu da periferia. As taxas de juro reais (ajustadas à inflação) na Alemanha tornaram-se negativas, provocando um ‘boom’ imobiliário. Supunha-se que isto geraria uma forte procura interna na Alemanha, ajudando a periferia a exportar mais.

 

Em vez disso, a economia alemã praticamente não cresceu; de facto, o enfraquecimento do comércio mundial ameaça levar o país para uma recessão. O excedente em conta corrente, que era suposto cair acentuadamente, na verdade aumentou, com a poupança a manter-se mais elevada – e o investimento mais baixo – do que o esperado.

 

Um outro problema, pelo menos do ponto de vista do resto da Zona Euro, é que a inflação na Alemanha permanece demasiado baixa. Com os preços na Alemanha a crescer menos de 1% ao ano, a periferia da Zona Euro precisa de uma queda nos preços para recuperar a competitividade perdida durante os anos de expansão, antes de 2008.

 

Esta falta de dinamismo no núcleo da Zona Euro tornou-se agora o seu principal problema. Sem crescimento na Alemanha, o resto da região do euro pode não ser capaz de reduzir a dívida através de excedentes externos. E, à falta de um botão mágico, pode não existir nenhuma para aumentar a procura interna na Alemanha.

 

Obviamente, o governo alemão está no comando das finanças públicas do país. Mas a política orçamental tem sido praticamente neutra nos últimos anos, não podendo, portanto, ser responsabilizada pela falta de dinamismo da economia alemã. Este ano, o orçamento do sector público pode passar de um pequeno défice para aquilo que as autoridades alemãs chamam de "black zero" – ou seja, um pequeno excedente. Mas esse ajustamento não implica qualquer efeito adverso no crescimento.

O principal motivo do desempenho económico lento da Alemanha nos últimos anos é uma contínua falta de vontade das empresas e famílias de consumir e investir. E não é fácil dizer o que o governo alemão pode fazer a respeito disso.  

 

Na verdade, o investimento caiu apesar de as condições de financiamento para as empresas nunca terem sido tão fáceis, tanto em termos de taxas de juro ultra-baixas, como da disposição dos bancos para emprestar. No entanto, o sector empresarial da Alemanha permanece relutante em contrair crédito e investir no país, porque vê poucos motivos para esperar crescimento económico de longo prazo, uma vez que a população deverá diminuir e os ganhos de produtividade deverão continuar anémicos.

 

Dado que é pouco provável que o investimento se torne um motor para a economia alemã, o consumo é a chave para o crescimento da procura na Alemanha. A debilidade do consumo é algo surpreendente: os rendimentos reais estão em alta, e o governo de coligação que chegou ao poder no ano passado, introduziu uma série de medidas sociais generosas, incluindo um grande aumento do salário mínimo, a redução da idade da reforma, e uma pensão adicional para mulheres com filhos.

 

Mas mesmo essas medidas, que os observadores estrangeiros negligenciaram largamente, não conseguiram impulsionar a procura dos consumidores. Então, que mais poderia fazer o governo para afastar os alemães dos seus hábitos abstémios?

 

O investimento público é a única área em que o governo poderia actuar. Mas o impulso de crescimento proveniente do sector público e dos gastos com infraestruturas só pode ser modesto. Aumentar os gastos com infraestruturas em um quarto - o que representaria um enorme esforço administrativo - significava elevar o crescimento do PIB em apenas 0,4 pontos percentuais.

 

Agora, o principal perigo é político. A debilidade da economia alemã torna muito mais difíceis os ajustamentos estruturais que são necessários na periferia da Zona Euro. Isso, por sua vez, alimenta a percepção de que a responsabilidade recai sobre o governo alemão, que é visto como pouco disposto a tomar as medidas necessárias para fortalecer a procura interna. Com o desemprego elevado e os rendimentos estagnados em grande parte da Zona Euro, a tentação de culpar "os alemães" está a tornar-se cada vez mais forte.

 

Sem surpresa, o governo alemão nem sequer reconhece que existe um problema. Com o desemprego próximo de mínimos históricos, a falta de crescimento da procura é simplesmente ignorada, e a ausência de inflação é vista como um sinal de sucesso.

 

Isso é um erro. A âncora alemã da Europa está encalhada, e a crescente onda de ansiedade entre os parceiros da Alemanha não deve deixar o seu governo indiferente.

 

Daniel Gros é director do Centro de Estudos Políticos Europeus.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

Tradução: Rita Faria

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