Franz Nauschnigg
Franz Nauschnigg 25 de setembro de 2013 às 01:01

Um euro mais fraco para uma Europa mais fraca

O que é que pode ser feito para que as “economias em crise” do sul da Europa reduzam os seus défices externos?

A discussão é frequentemente apresentada como um conflito entre os afogados em défice – Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha (os chamados PIIGS) – e os países com excedente da conta corrente, com a Alemanha em destaque. Mas, nos últimos anos, emergiu um novo e mais importante desequilíbrio: o comércio e os serviços entre os PIIGS e a China, que sugere uma possível solução para o actual mal-estar económico do sul da Europa – um renminbi mais forte.

 

Até 2004, os maiores défices comercial e de serviços dos PIIGS eram com o resto da Zona Euro. Contudo, em 2005, o défice combinado dos cinco países com o resto do mundo, de 37,2 mil milhões de euros, excedeu em 4 mil milhões de euros o défice combinado com os restantes Estados-membros. Assim, em 2008, antes do choque causado pela crise financeira global, o défice global dos PIIGS alcançou um máximo histórico de 116,5 mil milhões, 34,8 mil milhões dos quais advinham da relação com a China, superando o défice destes países com a Alemanha pela primeira vez na história – em mais de 2 mil milhões de euros (ver quadro).

 

Na prática, embora o défice combinado dos PIIGS com a Alemanha, com a Zona Euro e com o resto do mundo se tenha diminuído de forma substancial nos quatro anos seguintes, o seu défice com a China permaneceu enorme – de 33 mil milhões de euros em 2010 e de 29 mil milhões em 2011.

 

Há dois factores que ajudam a explicar como é que se atingiu esta situação. O primeiro é a rápida valorização do euro contra o renminbi no início da década de 2000. O euro subiu de uma taxa média de 7,4 yuans em 2001 para 10,4 yuans em 2007, antes de depreciar para os 7,8 yuans em Agosto de 2012. Em parte, este movimento deveu-se ao facto de o renminbi estar a seguir o dólar norte-americano, que resvalou de forma radical em relação ao euro entre 2002 e 2004.

 

Como resultado da abrupta apreciação nominal do euro, a Zona Euro, como um todo, tornou-se menos competitiva. O impacto foi sentido de forma particularmente forte nos PIIGS, cujas economias em ascensão estavam a atrair enormes entradas de fluxos de capital que dinamizavam a inflação e os salários.

 

O efeito adverso sobre a competitividade foi agravado por um segundo desenvolvimento. As economias do sul da Europa, fortemente dependentes dos sectores têxteis, do vestuário e do calçado, começaram a sentir uma intensa concorrência por parte das importações chinesas. De acordo com o relatório publicado pelo Fundo Monetário Internacional, as exportações têxteis da China eram amplamente responsáveis pelos enormes défices em Portugal, Itália, Grécia e Espanha. Pelo contrário, as contas correntes da Alemanha, Finlândia, Áustria e França eram muito menos afectadas, devido à maior força dos seus sectores exportadores, tal como a maquinaria, nos quais a China era relativamente fraca.

 

Outra publicação do FMI também sublinhou que, além do crescimento da China, a integração da Europa Central e de Leste e os maiores preços do petróleo afectaram as posições de negociação das economia da Zona Euro de diversas formas, sendo que os PIIGS foram os que sentiram o maior impacto.  

 

O pior foi evitado porque os países com excedente das contas correntes financiaram os défices externos dos PIIGS, apesar dos seus próprios desequilíbrios comerciais significativos com o resto do mundo. Na prática, os investidores de fora da Zona Euro apenas aumentaram as suas solicitações sobre a Alemanha, a França e outras economias excedentárias.

 

Mas o que é que os políticos da Zona Euro podem fazer para ajudar? As baixas taxas de juro, as elevadas dívidas e os enormes défices deixam pouca margem para uma maior expansão monetária ou orçamental. A pressão para moderar os salários só pode ir até certo ponto; na verdade, até pode ser contraproducente dado que atinge a procura interna e aumenta, assim, o risco de recessão.

 

Sob três condições, as economias em crise poderiam descobrir uma forma mais fácil de fazerem os ajustamentos externos necessários: uma procura externa mais forte, um ambiente de financiamento menos oneroso e um euro mais fraco. Muito disto poderá ser alcançado através de uma revalorização do renminbi face ao dólar e a outras moedas dos principais parceiros comerciais.

 

Tal iria dar às economias do sul europeu um impulso essencial para a procura externa ao mesmo tempo que deixava margem para estrangularem os défices orçamental e externo. Na verdade, foi a procura externa mais forte que ajudou a Alemanha a reduzir o seu défice orçamental nos últimos anos.

 

Pode fazer sentido para os políticos da Zona Euro centrarem-se nas dificuldades que a fraca procura externa e as exportações da China criaram ao sul da Europa. Em tais circunstâncias, um euro mais fraco poderia ajudar uma Europa enfraquecida.

 

Balança comercial e de serviços combinada da Grécia, Itália, Irlanda, Portugal e Espanha, 2004-2011 (em mil milhões de euros).

 

 

Mundo

Zona Euro

Alemanha

Resto   do Mundo

China

2004

-40.789

-31.394

-22.830

-9.395

-13.644

2005

-69.984

-32.786

-24.479

-37.199

-17.961

2006

-103.934

-43.244

-28.995

-60.690

-23.797

2007

-104.101

-48.185

-38.331

-55.916

-30.923

2008

-116.466

-48.219

-31.600

-68.246

-33.840

2009

-41.424

-21.153

-16.214

-20.269

-20.425

2010

-63.841

-23.156

-17.939

-40.683

-33.417

2011

-22.887

-8.227

-13.494

-14.658

-29.220

Fonte: Eurostat, gabinete de estatísticas europeu

 

 

Franz Nauschnigg é chefe da divisão de Assuntos Europeus e Organizações Financeiras Internacionais no Banco Nacional da Áustria. O autor expressa apenas as suas próprias opiniões. 

 

Copyright: Project Syndicate, 2013.
www.project-syndicate.org

 

Tradução de Diogo Cavaleiro 

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