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Nassim Nicholas Taleb 27 de Dezembro de 2012 às 00:49

Há mais em jogo em 2013

Para mim, o ponto alto de 2012 foi quando, durante um momento difícil, recebi uma mensagem de incentivo de um bombeiro. Ele achava as minhas ideias sobre o risco de cauda extremamente fáceis de entender. A questão dele era: como é que os gurus do risco, os académicos e os criadores de modelos financeiros não entenderam?

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Bem, a resposta está mesmo à minha frente, na própria mensagem. O colega é bombeiro; não pode interpretar mal o risco. Ele seria directamente prejudicado pelo seu próprio erro. Por outras palavras, ele tem muito a perder. E, além disso, ele é honrado, e arrisca a sua vida sem receber nada em troca.

A ideia de ter muito a perder é central ao bom funcionamento de um mundo complexo. Num sistema opaco, há um incentivo para os operadores esconderem o risco, actuando sem pensar no lado negativo. E não existe um método de gestão de riscos que possa substituir o muito que está em jogo – particularmente quando a opacidade informativa está a ser agravada por assimetrias de informação, em conjunto com o que os economistas chamam de problema do principal agente.

Aqueles que têm a parte positiva não são necessariamente aqueles que vão incorrer no lado negativo. Por exemplo, os banqueiros e os gestores de empresas recebem bónus por "desempenhos" positivos], mas não têm de fazer reverter esse bónus no caso de terem desempenhos negativos e, têm assim, um incentivo para esconder os riscos nas caudas da distribuição – por outras palavras, para atrasarem os efeitos negativos.

Os antigos tinham plena consciência que este incentivo poderia esconder os riscos e implementaram uma simples mas potente heurística. Há cerca de 3800 anos, o Código Hamurábi especificava que se uma casa caísse e fosse a causa da morte do seu proprietário, o construtor devia ser condenado à morte.

Este simples princípio está na origem do "olho por olho, dente por dente", assim como, da regra de Ouro da ética ("Faz aos outros o que gostarias que eles te fizessem"). Mas, além da ética, esta é simplesmente a melhor regra de gestão de risco de sempre.

Os antigos entendiam que o construtor sabe sempre mais sobre os riscos do que o cliente e pode esconder as fragilidades e melhorar as suas rentabilidades através de decisões atabalhoadas. Nas fundações é o melhor local para esconder o risco. O construtor pode também enganar o inspector; a pessoa que esconde o risco tem uma grande vantagem informativa sobre a pessoa que a tem de descobrir.

E porque é que eu acredito que uma certa classe de pessoas tem incentivos para "parecerem boas" em vez de "fazerem o bem"? A razão é simplesmente a ausência de risco pessoal. E os problemas e as soluções são as seguintes:

Em primeiro, considere os decisores políticos e os políticos. Num sistema descentralizado – digamos, um município – estas pessoas são controladas pelo sentimento de vergonha por terem prejudicado os outros com os seus erros. Num grande sistema centralizado, por outro lado, a fonte dos erros não é tão visível e uma folha de cálculo não envergonha ninguém. Esta punição, a vergonha, em conjunto com outros argumentos, é um caso para a descentralização.

Em segundo, nós entendemos mal a estrutura de incentivos dos gestores de empresas. Contrariamente à percepção pública, os gestores de empresas não são empresários. Eles não são aquilo que se poderia apelidar de agentes do capitalismo. Desde o ano 2000, nos Estados Unidos, que a bolsa de valores tem registado perdas – dependendo da forma como o medimos – de mais de dois biliões (triliões no original) de dólares para os investidores (o que compara com retornos que eles tinham deixado nos seus fundos em dinheiro ou em bilhetes do Tesouro).

Por isso, pode estar-se inclinado a pensar que dado que a remuneração dos gestores é baseada nos incentivos à produtividade, eles iriam incorrer em perdas. De modo algum: há uma assimetria. Os gestores que perdem dinheiro não têm uma compensação negativa. Há uma opcionalidade construída na compensação dos gestores de empresas que pode ser retirada apenas obrigando-os a assumir algumas perdas. Devido à opção incorporada, enquanto os accionistas tiveram perdas, os gestores ganharam mais de meio bilião (trilião no original) de dólares para eles próprios.

Em terceiro, há um problema como os economistas académicos, criadores de modelos quantitativos e com os estrategas políticos. A razão pela qual os modelos económicos não se encaixam na realidade é porque os economistas não desincentivam e nunca penalizam os seus erros. Desde que eles agradem aos editores dos jornais académicos, o seu trabalho é considerado bom.

E como resultado disso, utilizamos modelos como a teoria da carteira e métodos semelhantes sem a mais remota razão empírica. A solução é evitar que os economistas ensinem os profissionais. Novamente, isto destaca o caso para a descentralização: um sistema no qual a política seja decidida ao nível local por unidades pequenas – e assim não são precisos economistas.

Em quarto, previsões em alguns domínios sócio económicos não funcionam, mas previsões são raramente prejudicadas pelas suas previsões. Ainda assim, nós sabemos que as pessoas assumem mais ricos depois de verem uma previsão numérica. A solução é pedir – e apenas tomar em linha de conta – o que diz a previsão ou o que aponta para o futuro.

Digo às pessoas o que tenho na minha carteira, não aquilo que prevejo; dessa maneira, eu vou ser o primeiro a ser prejudicado. Não é ético arrastar as pessoas para exposições sem incorrer em riscos de perdas. No meu livro Antifragile, digo às pessoas o que faço, não o que devem fazer, para grande irritação dos críticos literários. Faço-o não por razões autobiográficas mas apenas porque outra abordagem não seria ético.

Por fim, existem os belicistas. Para lidar com eles, um defensor dos consumidores e ex-candidato a presidente dos Estados Unidos, Ralph Nader, propôs que aqueles que votam a favor da guerra deviam colocar-se ou os seus descendentes no serviço militar.

Apenas podemos esperar que alguma coisa seja feita em 2013 para que seja implementada algum tipo de heurística de que há muito em jogo. Uma sociedade segura e justa exige nada menos do que isso.

Tradução: Ana Laranjeiro

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