Brahma Chellaney
Brahma Chellaney 08 de agosto de 2018 às 14:00

A grande estratégia de Trump

Trump não pode ser culpado pelo declínio relativo da América; na verdade, ele até pode travá-lo. Por mais imprevisível que Trump possa ser, vários dos seus principais movimentos ao nível da política externa sugerem que o seu governo está a perseguir uma grande estratégia destinada a reavivar o poder global dos EUA.

A incapacidade do presidente dos EUA, Donald Trump, de pensar estrategicamente está a minar os relacionamentos de longa data, a subverter a ordem global e a acelerar o declínio da influência global do seu país - ou é nessa direcção que aponta cada vez mais o senso comum. Mas essa avaliação não é tão óbvia como os seus proponentes - especialmente os adversários políticos e os críticos nos principais meios de comunicação dos EUA - afirmam.

 

O declínio relativo da América foi um tema quente muito antes de Trump ter tomado posse. O processo começou quando os Estados Unidos, encorajados pela sua emergência da Guerra Fria como a única superpotência mundial, começaram a exceder-se significativamente, ampliando a sua capacidade militar e aumentando os seus compromissos económicos e de segurança globais.

 

O "alcance imperial" dos EUA foi identificado pela primeira vez durante o governo do presidente Ronald Reagan, responsável por um crescimento frenético dos gastos militares. Atingiu níveis de crise com a invasão e subsequente ocupação do Iraque, em 2003, sob a liderança do presidente George W. Bush - um momento decisivo que causou danos irreparáveis ??à posição internacional dos EUA.

 

No governo do presidente Barack Obama, a China aumentou rapidamente a sua influência global, inclusive mudando à força o status quo no Mar do Sul da China (sem incorrer em custos internacionais). Nesse ponto, já não havia dúvidas: a era da hegemonia dos EUA havia terminado.

 

Assim, Trump não pode ser culpado pelo declínio relativo da América; na verdade, ele até pode travá-lo. Por mais imprevisível que Trump possa ser, vários dos seus principais movimentos ao nível da política externa sugerem que o seu governo está a perseguir uma grande estratégia destinada a reavivar o poder global dos EUA.

 

Para começar, a administração Trump parece ansiosa para recuperar o alcance imperial dos EUA, inclusive evitando a intervenção em guerras longínquas e exigindo que os aliados paguem a sua parte na defesa. O facto é que muitos membros da NATO não cumprem os seus compromissos ao nível dos gastos, obrigando efectivamente os contribuintes americanos a subsidiarem a sua segurança.

 

Estas não são ideias novas. Mesmo antes de Trump ter decidido candidatar-se, os especialistas defendiam que os EUA precisavam de seguir uma política de contenção, reduzindo drasticamente os seus compromissos internacionais e transferindo uma parte da factura na área da defesa para os seus aliados. Mas só com a chegada de Trump, que vê a administração de um país como a gestão de uma empresa, os EUA tiveram um líder disposto a seguir esse caminho, mesmo que isso prejudicasse os valores que há muito sustentam a política externa dos EUA.

 

O foco de Trump em conter a China - que o director do FBI Christopher Wray definiu recentemente como um desafio muito maior do que a Rússia, mesmo na área da espionagem -  encaixa-se bem nessa estratégia. Sucessivos presidentes dos EUA, de Richard Nixon a Obama, ajudaram a ascensão económica da China. Trump, porém, considera a China não como uma parceira económica dos Estados Unidos, mas como "uma inimiga em termos económicos" e até mesmo - como disse recentemente o porta-voz oficial China Daily - "a principal rival estratégica dos EUA".

 

Em geral, as tarifas de Trump têm como objectivo devolver aos EUA o controlo das suas relações económicas, travando os seus crescentes défices comerciais, tanto com amigos como com inimigos, e levando a actividade económica (e os empregos que a acompanham) de volta para casa. Mas não é segredo que, acima de tudo, as tarifas de Trump têm como alvo a China - um país que há muito desafia as regras do comércio internacional e se envolve em práticas predatórias.

 

Ao mesmo tempo, Trump também está a trabalhar no sentido de garantir que a China não alcança os EUA ao nível tecnológico. Em particular, a sua administração pretende frustrar o programa "Made in China 2025", o projecto revelado pelo governo chinês em 2015 para garantir o domínio global sobre dez indústrias estratégicas de alta tecnologia, da robótica aos veículos de energia alternativa.

 

As actividades diplomáticas de Trump parecem destinadas a promover essa visão estratégica mais ampla de reverter o declínio relativo da América. Ele tentou convencer os líderes autocráticos, de Kim Jong-un, da Coreia do Norte, a Vladimir Putin, da Rússia, a fazer concessões - uma abordagem que motivou críticas. Mas os elogios de Trump não se traduziram em concessões.

 

Por exemplo, apesar de toda a controvérsia sobre a interferência da Rússia nas eleições presidenciais de 2016, o facto é que, desde a tomada de posse de Trump, os EUA expulsaram diplomatas russos, fecharam um consulado russo e impuseram três rondas de sanções ao país. O seu governo ameaça agora aplicar sanções extraterritoriais para impedir que outros países façam acordos de defesa "significativos" com a Rússia, um importante exportador de armas.

 

Não houve nenhum líder estrangeiro que Trump tenha lisonjeado mais do que o presidente chinês Xi Jinping, a quem chamou de "fantástico" e "um grande cavalheiro". No entanto, quando Xi se recusou a ceder às exigências de Trump, o presidente dos EUA não hesitou em revidar "usando tácticas chinesas", incluindo a mudança repentina das posições negociadoras e a escalada imprevisível das tensões comerciais.

 

Até mesmo a abordagem directa de Trump com a Coreia do Norte enfraquece a posição da China contornado-a. Trump está certo ao pensar que transformar o relacionamento EUA-Coreia do Norte é mais importante do que garantir a desnuclearização completa. Se conseguir cooptar a Coreia do Norte, o único aliado militar formal da China, a geopolítica do nordeste asiático será remodelada e a ascensão solitária da China será mais aparente do que nunca.

 

Os métodos de Trump têm muitos problemas. O seu estilo de negociação exagerado, teatral e imprevisível, juntamente com o seu desrespeito pelas normas internacionais, estão a desestabilizar as relações internacionais. Problemas domésticos como a polarização política e o impasse legislativo - que Trump exacerbou activamente - também enfraquecem a posição da América a nível internacional.

Mas não há como negar que a musculosa abordagem "América Primeiro" de Trump - que inclui um dos reforços militares mais significativos desde a Segunda Guerra Mundial - reflecte uma visão estratégica focada em assegurar que os EUA permaneçam mais poderosos do que qualquer rival no futuro previsível.

 

Talvez mais importante ainda, a abordagem transaccional das relações internacionais, da qual depende a estratégia de Trump, deverá persistir por muito tempo depois de ele deixar o cargo. Amigos e inimigos devem acostumar-se a uma América mais egoísta, que faz tudo o que estiver ao seu alcance, independentemente do custo, para evitar o seu precipitado declínio.

 

Brahma Chellaney, professor de Estudos Estratégicos no Centro de Pesquisa Política em Nova Deli e membro da Academia Robert Bosch em Berlim, é autor de nove livros, incluindo Asian JuggernautWater: Asia’s New Battleground, e Water, Peace, and War: Confronting the Global Water Crisis.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
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Tradução: Rita Faria