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Brahma Chellaney 31 de Maio de 2012 às 23:30

A resistível ascensão da Ásia?

Actualmente, um dos temas favoritos do debate internacional é se a ascensão da Ásia significa o declínio do Ocidente. No entanto, o foco no mal-estar económico da Europa e dos Estados Unidos está a desviar as atenções das numerosas ameaças que põem em questão o sucesso contínuo da Ásia.

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Actualmente, um dos temas favoritos do debate internacional é se a ascensão da Ásia significa o declínio do Ocidente. No entanto, o foco no mal-estar económico da Europa e dos Estados Unidos está a desviar as atenções das numerosas ameaças que põem em questão o sucesso contínuo da Ásia.

Desde logo, as actuais alterações de poder, a nível global, estão essencialmente relacionadas com a fenomenal ascensão económica da Ásia, cuja escala e velocidade não têm paralelo na história mundial. Com as economias que mais crescem no mundo, os gastos militares que aumentam mais rapidamente, e a competição mais feroz por recursos, a Ásia detém a chave para a futura ordem global.

Mas a Ásia enfrenta grandes constrangimentos. Tem de lidar com entrincheiradas disputas territoriais e marítimas, como no Mar da China Meridional; heranças históricas perigosas que pesam sobre as mais importantes relações entre Estados; um nacionalismo cada vez mais fervoroso; um extremismo religioso crescente; e uma competição cada vez maior pela água e a energia.

Além disso, a integração política da Ásia deixa, erradamente, para trás, a sua integração económica e, ainda por cima, carece de uma estrutura de segurança. Os mecanismos de consulta regionais permanecem fracos. Persistem dúvidas sobre se uma estrutura ou comunidade de segurança deve estender-se por toda a Ásia, ou estar limitada a uma mal definida "Ásia Oriental".

Uma preocupação central é que, ao contrário das sangrentas guerras da Europa na primeira metade do século XX, que tornaram a Guerra inconcebível nos dias de hoje, as guerras na Ásia, na segunda metade do século XX, apenas acentuaram as rivalidades. Desde 1950, quando começou a Guerra da Coreia e a anexação do Tibete, várias guerras foram travadas sem ficarem resolvidos os conflitos asiáticos subjacentes.

Tomemos o exemplo mais significativo: a China realizou intervenções militares mesmo quando era um país pobre e com problemas internos. Um relatório do Pentágono, de 2010, cita acções militares preventivas em 1950, 1962, 1969 e 1979 em nome da defesa estratégica. Além disso, houve também a tomada, por parte da China, das Ilhas Paracel ao Vietname, em 1974, e a ocupação, em 1995, de Mischief Reef, nas Ilhas Spratly, perante os protestos das Filipinas. Esta história ajuda a explicar porque a crescente capacidade militar da China inspira sérias preocupações na Ásia actualmente.

Na verdade, desde que o Japão ascendeu à posição de potência mundial durante o reinado do Imperador Meiji (1867-1912) não surgiu nenhuma outra potência não ocidental com semelhante potencial para moldar a ordem mundial. Mas há uma diferença importante: a ascensão do Japão foi acompanhada pela decadência de outras civilizações asiáticas. Afinal, no século XIX, os europeus colonizaram grande parte da Ásia, não restando nenhum poder asiático que pudesse pôr freio no Japão.

Hoje, a China está a crescer, a par com outros países asiáticos importantes como a Coreia do Sul, o Vietname, a Índia e a Indonésia. Embora a China tenha destronado o Japão enquanto segunda maior economia do mundo, o Japão continuará a ser uma forte potência no futuro previsível. Em termos de rendimento por habitante, o Japão continua a ser nove vezes mais rico que a China, e possui a maior frota naval da Ásia e as mais avançadas indústrias de alta tecnologia.

Quando o Japão emergiu como potência mundial, a conquista imperial seguiu, já que os crescentes impulsos expansionistas da China estão, em certa medida, controlados por outras potências asiáticas. Militarmente, a China não está em posição de agarrar os territórios que o Japão cobiça. Mas os seus gastos com a defesa cresceram quase duas vezes mais rápido que o seu PIB. E, provocando disputas territoriais com os seus vizinhos, e aplicando uma política externa agressiva, os dirigentes da China estão a obrigar outros países da Ásia a colaborar, de forma mais estreita, com os Estados Unidos, e entre si.

Na verdade, a China parece seguir o mesmo caminho que fez do Japão um estado agressivo e militarista, com consequências trágicas para a região – e para o Japão. A Restauração Meiji criou um exército potente sob o slogan militar "Enriquecer o país e fortalecer o exército". Com o tempo, o exército chegou a ser tão forte, que podia impor condições ao governo civil. O mesmo pode acabar por acontecer na China, onde o Partido Comunista está cada vez mais dependente do exército para manter o seu monopólio de poder.

Mais amplamente, é provável que a dinâmica de poder da Ásia permaneça instável, com novas ou diferentes alianças e capacidades militares fortalecidas continuem a desafiar a estabilidade da região. Por exemplo, da forma como a China, Índia e Japão manobram para conseguir uma vantagem estratégica, estão a transformar as suas relações recíprocas, de uma maneira que augura um compromisso mais estreito entre a Índia e o Japão, e uma concorrência maior entre eles e a China.

O futuro não pertence à Ásia, simplesmente por ser o continente maior, mais populoso e com um desenvolvimento mais rápido. O tamanho não é, necessariamente, um activo. Historicamente, os estados pequenos, estrategicamente orientados, têm exercido o poder global.

Na verdade, com muito menos habitantes, a Ásia teria um maior equilíbrio entre o tamanho da população e os recursos naturais disponíveis, incluindo água, comida e energia. Na China, por exemplo, de acordo com dados oficiais, a escassez de água custa cerca de 28 mil milhões de dólares em produção industrial anual, apesar de a China, ao contrário de outras economias asiáticas, como a Índia, a Coreia do Sul ou Singapura, não constar da lista das Nações Unidas de países que enfrentam escassez de água.

Além dos seus crescentes desafios políticos, e em material de recursos naturais, a Ásia tem cometido o erro de insistir num crescimento excessivo do PIB, com a exclusão de outros índices de desenvolvimento. Como resultado, a Ásia está a tornar-se mais desigual, a corrupção está a crescer, o descontentamento interno a aumentar, e a degradação ambiental está a tornar-se um problema grave. Pior, muitos países asiáticos adoptaram os valores económicos do Ocidente, mas rejeitaram os seus valores políticos.

Não nos equivoquemos. Os desafios da Ásia são maiores do que aqueles que a Europa enfrenta, que encarna um desenvolvimento global mais do que qualquer outra parte do mundo. Apesar da aura de inevitabilidade da China, está longe de ser certo que a Ásia, com os seus desafios internos, vá ser capaz de encabeçar o crescimento global e moldar uma nova ordem mundial.


Brahma Chellaney, professor de Estudos Estratégicos, no Centro para a Investigação Política, de Nova Deli, é autor das obras "Asian Juggernaut" e "Water: Asia’s New Battleground".


© Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria


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