José Graziano da Silva
José Graziano da Silva 20 de julho de 2015 às 20:00

Alimentação na era dos biocombustíveis

Ao longo dos últimos anos, os biocombustíveis têm sido um ponto de discórdia. Para uns, são uma fonte de energia renovável produzida a partir de matéria orgânica equivalente a uma varinha mágica na luta pelas alterações climáticas. Mas outros olham para os biocombustíveis como uma ameaça existencial, porque os terrenos utilizados para os produzir competem com terras agrícolas e água que, por outro lado, seriam usadas para plantações.

Mas esta é uma falsa dicotomia. A escolha não pode ser entre alimentação e combustíveis. Podemos fazer um bom uso de ambos. Sob as condições correctas, os biocombustíveis podem ser uma forma eficaz de aumentar a segurança alimentar, ao apresentarem-se aos agricultores pobres como uma fonte de energia sustentável e acessível.

 

Em alguns países africanos sem acesso ao mar, a gasolina custa três vezes a média mundial, o que faz dos preços dos combustíveis uma das principais barreiras para o crescimento da agricultura. Estender o uso de biocombustíveis nessas regiões poderá impulsionar a produtividade e criar novas oportunidades de emprego, especialmente nas áreas ruais. O efeito poderia ser ainda mais forte, se a maior procura por matéria-prima criada por biocombustíveis fosse recebida por famílias de agricultores e produtores de pequena-escala.

 

Os biocombustíveis tornaram-se um factor de vida e o seu uso é previsto que continue a aumentar consistentemente. Em 2013, os biocombustíveis equivaliam a 3% do total de transporte de combustíveis em todo o mundo, segundo um relatório da Organização para a Agricultara e a Alimentação (FAO, na sigla anglo-saxónica) e da OCDE. Apesar de ser esperado que esta percentagem se mantenha, podemos, no entanto, esperar que a produção de biocombustíveis aumente em termos absolutos, à medida que o mercado global de transporte de combustíveis também aumentar.

 

De facto, a produção global de biocombustíveis está prevista que duplique até 2023, relativamente ao nível de 2007. Se essa previsão for confirmada, os biocombustíveis irão consumir 12% dos cereais secundários, 28% das canas-de-açúcar e 14% do óleo vegetal. À medida que a produção destes combustíveis aumentar, iremos precisar de mais políticas, programas e instalações para assegurar que são usados de forma sustentável, sem distorcer os mercados alimentares ou comprometer a segurança alimentar, que será sempre a primeira prioridade.

 

Os pioneiros dos biocombustíveis provavelmente seriam surpreendidos pelo quão pouco contribuem para o total de fornecimento de combustível mundial nos dias de hoje. O primeiro motor de Rudolf Diesel, concebido no final do século XIX, funcionava com combustível derivado de óleo de amendoim. Henry Ford percorreu uma vez a Flórida, na esperança de comprar terrenos para a plantação de cana-de-açúcar, convencido de que os EUA não iriam tolerar a poluição da queima de combustíveis fósseis, ou a dependência implícita da importação de petróleo para produzir gasolina.

 

Apenas nas últimas décadas os biocombustíveis recuperaram a sua atractividade original, devido aos esforços para assegurar uma energia acessível, gerar rendimentos e mitigar a dependência para a qual Ford alertou. Mais recentemente, preocupações relacionadas com a poluição, as alterações climáticas e a natureza finita dos combustíveis fósseis tem impulsionado um aumento da procura – que deve, agora, ser gerido.

 

A flexibilidade é fundamental nos esforços para alavancar a crescente dependência mundial de biocombustíveis para aumentar a produtividade agrícola, acelerar o desenvolvimento rural e aumentar a segurança alimentar. Por exemplo, os legisladores devem neutralizar as pressões concorrências entre a alimentação e os combustíveis, através da concepção de esquemas que combatam a volatilidade dos preços dos produtos alimentares básicos. As autoridades poderiam exigir que a percentagem de biocombustíveis misturados com combustível convencional aumentasse quando os preços dos alimentos caem e fosse reduzida quando estes sobem. Isto serviria como uma espécie de estabilizador automático. Os agricultores pobres continuariam a desfrutar da forte procura pelos seus produtos, mesmo quando os preços dos alimentos caíssem, e os consumidores estariam protegidos contra rápidos ou excessivos aumentos dos preços.

 

As metas nacionais poderiam também ser mais flexíveis. Se os decretos para o uso de biocombustíveis fossem aplicados ao longo de vários anos, em vez de apenas um, os legisladores poderiam influenciar a procura, de modo a minimizar a pressão sobre os preços dos alimentos.

 

Por fim, a nível individual, uma maior flexibilidade poderia também ser construída na bomba, através da promoção de veículos de combustível flexível, iguais aos que são já usados no Brasil. Se os carros são equipados com motores que podem funcionar com combustíveis fósseis convencionais ou misturas com percentagens elevadas de biocombustíveis, os consumidores podem adaptar-se às oscilações dos preços, alternando entre um e outro combustível.

 

Encontrar o equilíbrio certo não será fácil. Mas se reunirmos o nosso conhecimento coletivo, incluirmos os pequenos agricultores dos países em desenvolvimento neste esforço e mantivermos o foco na redução da pobreza e proteção dos mais vulneráveis, poderemos ter mais combustíveis, mais alimentação e uma maior prosperidade para todos.

 

José Graziano da Silva é director-geral da Organização para a Agricultara e a Alimentação das Nações Unidas (FAO).

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.
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Tradução: André Tanque Jesus

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