Andrew Sheng e Xiao Geng
Andrew Sheng e Xiao Geng 16 de julho de 2015 às 20:00

China experimental

Há cinco anos, poucos esperariam que a China produzisse quatro das dez principais empresas mundiais da internet (pelo número de visitantes) – a Alibaba, a Baidu, a Tencent e a Sohu – bem como multinacionais inovadoras como a Huawei e a Xiaomi. Nem muitos anteciparam que a China iria fornecer cada vez mais bens públicos ao nível mundial, nomeadamente através da estratégia "um cinto, um caminho" que visa dar as infraestruturas necessárias para fazer da Eurásia um vasto mercado único.

Mais notícias extraordinárias surgiram: apesar do abrandamento das taxas de crescimento económico, a China, em conjunto com Hong Kong, obteve 29 mil milhões de dólares em ofertas públicas iniciais desde o início do ano – quase o dobro dos fundos obtidos pelos fundos norte-americanos.

 

Seja qual for o critério escolhido, o caminho da inovação da China começou a crescer. Como é que isto aconteceu e porque está a ter lugar agora?

 

A resposta está nos desafios sem precedentes que a China enfrenta, incluindo a corrupção, poluição, dívida local insustentável, cidades fantasmas, banca paralela, empresas públicas ineficientes e um excesso de controlo governamental sobre a economia. Certamente ninguém argumentará que estes pontos são positivos para a China. No entanto, têm sido uma bênção disfarçada. Têm incutido esforços de reformas com um nível de urgência que têm tido um impacto de largo alcance. Porém, os dados convencionais relativos ao produto interno bruto (PIB) não reflectem a escala da transformação que estão a impulsionar.

 

Claro que a China há muito que está comprometida com reformas estruturais orientadas para o mercado aos níveis nacional e municipal. Caso contrário poderia ter alcançado a posição de segunda maior economia do mundo. Mas a chave do sucesso da China tem sido a experimentação constante e a perseguição dessa crença aparentemente intensificou-se.      

 

Por exemplo, a rede de telecomunicações, estradas, caminhos-de-ferro e transportes marítimos permitiram à China tornar-se um centro de produção de bens de consumo duráveis e melhorar a sua distribuição. Mais recentemente, a China começou a aplicar a mesma abordagem para construir uma economia inovadora e baseada no conhecimento – na qual o sector dos serviços, em conjunto com o consumo doméstico, impulsionaram o crescimento.

 

Em resultado disso, o país tem estado cada vez mais focado nas chamadas "killer apps" [programas informáticos que são muitos desejados] que, de acordo com o historiador Niall Ferguson, levou ao crescimento do domínio económico do Ocidente: concorrência, ciência, propriedade, medicina moderna, consumismo e uma ética de esforço. Em particular, a China trabalhou para impulsionar a concorrência de mercado e impulsionar a ciência e a inovação com progressos nestas áreas apoiado pelos esforços para melhorar a governação, fortalecendo os mecanismos de responsabilização e impulsionar o investimento em bens públicos.

 

Decididamente, mesmo que os objectivos específicos da China tenham mudado, os seus políticos aderiram à abordagem experimental que serviu o país tão bem até agora. De facto, foi a combinação de uma educação mais ampla, abertura à ciência e à inovação, investimento em infraestruturas de telecomunicações avançadas e conhecimentos na produção de smartphones impulsionou o progresso rápido da China nas indústrias da internet e do comércio electrónico. Esta abertura à inovação – em conjunto com aquilo que alguns consideram como regulamentação negligente – também permitiu uma plataforma como a Alibaba integrar os pagamentos e a logística antes de muitos players ocidentais o fazerem.

 

A abordagem chinesa da "aprendizagem pela prática" vai provavelmente continuar a produzir soluções inovadoras para problemas emergentes. Por exemplo, enfrentando a diminuição da força de trabalho, o Governo aumentou o investimento na automatização robótica e em outras tecnologias para melhorar a produtividade. O impacto na competitividade chinesa do aumento dos salários reais – que têm vindo a crescer em mais de 15% ao ano desde 2008 – vai, esperam os líderes do país, em última análise ser compensado pelos benefícios do crescimento baseado na produtividade, para não falar do muito necessário aumento do consumo interno.

 

Claro que a abordagem da China provocou muito nervosismo, retrocessos e falhanços. As bolhas do imobiliário, crédito e nos mercados – que produziram cidades fantasma, dívidas locais más e volatilidade nos preços das acções – atestam isso. Mas as decisões políticas que deram origem a estes problemas - a descentralização do controlo sobre as terras e a liberalização da economia para facilitar a circulação de talento, comércio, investimento e capital – também têm sido críticos para o processo.

 

Os líderes chineses entendem bem isso. Em vez de evitarem o risco, continuam preparados para reverter as políticas defeituosas. E se necessário estão disponíveis a pagar pelos seus erros. Dadas as poupanças que o país tem, reflexo saliente nas reservas em moeda estrangeira, o Governo central tem espaço para os pagar.

 

Actualmente, a campanha anti-corrupção deve ser encarada como um esforço dos líderes chineses para corrigirem outra consequência negativa das políticas passadas. Esta abordagem tem duas vertentes: o Governo está a privatizar algumas das empresas públicas para que a concorrência do mercado possa verificar o comportamento dos líderes das empresas enquanto trata líderes de outras empresas públicas (tipicamente maiores) como funcionários públicos, sujeitos a regras cada vez mais severas de responsabilidade pública, incluindo disciplina partidária. Em Junho, o Presidente Xi Jinping anunciou uma nova vaga de medidas.

 

O Governo chinês enfrenta riscos reais ao impulsionar as reformas estruturais que não têm precedentes quer em rapidez, escala e complexidade. Felizmente, a China tem, tanto a experiência, como a possibilidade de experimentar uma nova fase de transformações estruturais.

 

Andrew Sheng é membro do Fung Global Institute e do Conselho Consultivo de Finanças Sustentáveis da UNEP. Xiao Geng é Director de Investigação no Fung Global Institute.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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