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Willem Thorbecke 24 de Maio de 2011 às 11:52

China/Estados Unidos: um reequilíbrio inevitável

O economista norte-americano Herbert Stein afirmou que se algo não pode continuar para sempre, não continuará.

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No entanto, no caso dos desequilíbrios entre a China e o Ocidente o ponto de viragem parece estar ainda muito longe.

Há cinco anos, muitas pessoas alertaram que o excesso de consumo no Ocidente e as taxas de câmbio subavaliadas na Ásia iriam produzir desequilíbrios insustentáveis. Entre 2005 e 2008, o excedente bilateral da China com os Estados Unidos aumentou 41% e o excedente comercial com a Europa mais do que duplicou. Após uma queda em 2009, o excedente chinês com os Estados Unidos e a Europa aumentou em 32% e 16%, respectivamente, em 2010. Alguém que adormeceu em Agosto de 2008 e acordou em 2010 nunca perceberia que tinha existido uma interrupção dos desequilíbrios entre a China e o Ocidente.

Estes excedentes são, inicialmente, gerados nas redes de produção da Ásia Oriental. As multinacionais no Japão, Coreia do Sul e outros países enviam peças e componentes sofisticados para a China, para montagem e reexportação para países desenvolvidos. A China Customs Agency classifica este tipo de comércio como comércio de “processamento”. Em 2010, a China registou défices de 100 mil milhões de dólares no comércio de processamento com a Ásia Oriental e excedentes de 100 mil milhões de dólares com a Europa e 150 mil milhões com os Estados Unidos e Hong Kong. Em 2010, o excedente total no comércio de processamento foi de 322 mil milhões de dólares.

Ao contrário do comércio de “processamento”, o comércio corrente chinês (o outro importante regime aduaneiro chinês) está a reequilibrar-se. A produção de produtos de exportação corrente é feita com factores de produção chineses e as importações correntes destinam-se ao mercado interno. A balança comercial corrente da China passou de um excedente de 38 mil milhões de dólares, em 2005, para um défice de 48 mil milhões em 2010.

Investigadores do Centre D’Études Prospectives et D’Information Internationales analisaram o comércio corrente chinês até 2007 (http://www.cepii.fr/anglaisgraph/workpap/summaries/2011/wp2011-03.htm) e concluíram que a Europa (e em especial a Alemanha) exportaram grandes quantidades de automóveis e outros bens de consumo da China. Além disso, os países da Ásia Oriental aumentaram as exportações de partes e componentes e bens de capital para empresas estrangeiras localizadas na China, que produzem para o mercado local. Pelo contrário, a percentagem de exportações correntes dos Estados Unidos para a China diminuiu, o que pode indicar que o reequilíbrio chinês pode estar associado a contínuos excedentes bilaterais com os Estados Unidos.

Dados posteriores confirmam que esta tendência mantém-se. Em 2010, a balança comercial corrente chinesa atingiu um défice recorde de 71 mil milhões de dólares com a Ásia Oriental e um excedente de 44 mil milhões de dólares com os Estados Unidos e de 23 mil milhões de dólares com a Europa. As exportações correntes da Europa para a China aumentaram de 85 mil milhões de dólares em 2009 para 115 mil milhões de dólares em 2010. Pelo contrário, as exportações correntes norte-americanas para a China aumentaram mais lentamente, de 50 mil milhões de dólares, em 2009, para 64 mil milhões de dólares em 2010. Assim, as empresas da Ásia Oriental e da Europa estão a beneficiar mais do que as norte-americanas do aumento da procura na China.

De acordo com os dados da China Customs Statistics, o défice bilateral combinado dos Estados Unidos em comércio corrente e de processamento totalizou, em 2010, 186 mil milhões de dólares. Mas este montante subestima a dimensão do défice orçamental porque a grande percentagem das exportações de processamento chinesas para Hong Kong são enviadas para economias avançadas (o que significa que o défice bilateral europeu também é muito maior). Pelo contrário, os dados norte-americanos registam os bens que chegam da China, via Hong Kong, como exportações chinesas. Neste caso, o défice comercial bilateral é de 273 mil milhões de dólares, face aos 203 mil milhões em 2005.

Em 2005, muitos investigadores alertaram que os desequilíbrios entre os Estados Unidos e a Ásia Oriental eram insustentáveis, sublinhando que estes eram alimentados por um excesso de consumo nos Estados Unidos e por taxas de câmbio subavaliadas na Ásia Oriental. O excesso de consumo foi impulsionado por uma deterioração do equilíbrio orçamental norte-americano, de um excedente de 2% do PIB, em 2000, para um défice de 4% do PIB em 2004. As taxas de câmbio subavaliadas na Ásia foram suportadas por reservas de quase 1 biliões de dólares na China e mais umas centenas de milhões no resto da região.

Desde 2005, o défice orçamental norte-americano cresceu outros 6% do PIB, enquanto as reservas externas chinesas aumentaram em 2 biliões de dólares. É provável que, a partir de certa altura, os investidores deixem de estar disponível para emprestar aos Estados Unidos a baixas taxas de juro e que a contínua acumulação de reservas da China seja vista como um mau investimento. Nessa altura, o défice comercial norte-americano vai começar a diminuir.

Se os desequilíbrios entre os Estados Unidos e a China são insustentáveis, faz sentido que os decisores políticos procurem uma solução “suave”. No caso dos Estados Unidos, isso exige o reconhecimento de que o governo enfrenta uma limitação orçamental. Para a China, significa redireccionar as poupanças da acumulação de reservas para pequenas e médias empresas que necessitam de liquidez, bem como para investimentos em educação, cuidados de saúde e habitação.


Willem Thorbecke é investigador do Asian Development Bank Institute e consultor do Instituto de Pesquisa para a Economia, Comércio e Indústria do Japão.


Direitos de Autor: Project Syndicate, 2011.
www.project-syndicate.org


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