Kaushik Basu
Kaushik Basu 19 de julho de 2018 às 14:00

Comércio, tecnologia e a pergunta de Xi Jinping

Argumentar contra a globalização é tão construtivo como culpar a gravidade pelo colapso de um prédio.

"Foi o melhor dos tempos; foi o pior dos tempos", disse o presidente Xi Jinping, citando a famosa frase de Charles Dickens, para abrir o seu discurso no Fórum Económico Mundial de 2017. "Hoje" continuou Xi, "também vivemos num mundo de contradições". Por um lado, "o crescimento da riqueza material e os avanços da ciência e tecnologia" possibilitaram taxas de desenvolvimento sem precedentes. Por outro lado, "conflitos regionais frequentes, desafios globais como o terrorismo e os refugiados, bem como a pobreza, o desemprego e a crescente desigualdade de rendimentos" estão a gerar uma profunda incerteza.

 

Xi lançou, então, uma pergunta poderosa: "O que correu mal com o mundo?"

 

Talvez a resposta esteja na própria tecnologia que Xi considera a chave para a ascensão da China ao estatuto de alto rendimento. Especificamente, pode ser que tenhamos chegado a um ponto de viragem na marcha do progresso tecnológico - que estamos a navegar muito mal.

 

A tecnologia tem moldado e remodelado as nossas vidas desde que os primeiros seres humanos descobriram como fazer ferramentas a partir da pedra. É natural que um processo tão longo inclua momentos em que a mudança tecnológica gera desafios sem precedentes.

 

Um desses pontos de viragem foi a Revolução Industrial. Na Grã-Bretanha de meados do século XVIII, o progresso acarretou grandes adversidades. Alguns operários trabalhavam de 12 a 14 horas por dia, mas a desigualdade aumentava. E a incidência do trabalho infantil subiu além dos níveis observados hoje em algumas das economias mais pobres da África Subsaariana.

 

Mas a Europa esteve à altura da situação. Pessoas como Adam Smith e Antoine Cournot levaram a cabo investigações inovadoras na área da economia, que conduziram a novas intervenções como o imposto progressivo sobre o rendimento e novas leis e regulamentos trabalhistas. Como resultado, a Revolução Industrial acelerou o desenvolvimento económico e o bem-estar humano.

 

O desenvolvimento humano assistiu a outras "revoluções industriais", incluindo a que se está a desenrolar actualmente. A chamada Quarta Revolução Industrial está centrada nos avanços da tecnologia digital, incluindo "tecnologias de ligação da mão-de-obra" (que permitem que trabalhadores de todos os continentes trabalhem juntos em tempo real) e, mais recentemente, a inteligência artificial e a robótica.

 

Esses avanços permitiram a globalização económica que, tal como a Revolução Industrial, trouxe avanços sem precedentes, como reconheceu Xi, ao mesmo tempo que gerou novos desafios, incluindo o aumento da desigualdade e a vulnerabilidade dos trabalhadores. Mas, em vez de gerir esses desafios, como a Europa fez no século XIX, grande parte do mundo está a sucumbir à polarização política, ao crescente nacionalismo e a um jogo de culpas tóxico. Mais notavelmente, os Estados Unidos, sob a liderança do presidente Donald Trump, iniciaram o que está rapidamente a transformar-se numa guerra comercial que vai ser devastadora para todo o mundo, mas especialmente para os próprios EUA.

 

O que esse comportamento não tem em conta é que a globalização é fundamentalmente um fenómeno natural. É o resultado de milhares de milhões de pessoas a realizarem as suas actividades diárias e a tomarem decisões baseadas nas possibilidades disponíveis. Argumentar contra a globalização é tão construtivo como culpar a gravidade pelo colapso de um prédio. Como Xi apontou no seu discurso no FEM, "é um resultado natural do progresso científico e tecnológico, e não algo criado por algum indivíduo ou país".

 

No caso da guerra comercial de Trump, a política dos EUA também reflecte um mal-entendido - que os economistas têm apontado repetidamente - sobre os défices comerciais bilaterais. Segundo Trump, um défice comercial é essencialmente uma perda, e os países com excedentes em relação aos EUA, como o México ou a China, estão a explorar o país e a comportar-se de forma injusta. Assim, devem ser obrigados a pagar.

 

Para entender a falácia, consideremos a nossa interacção com a mercearia do bairro. No final de cada ano, geramos um grande "défice comercial" em relação à loja, porque a loja vende-nos mercadorias, enquanto nós não vendemos nada à loja. Afirmar que a China "deve" aos EUA pelo seu excedente comercial bilateral seria como dizer que a mercearia do bairro nos deve o dinheiro lá gastámos durante o ano passado. Na verdade, não fomos enganados, assim como o nosso empregador não foi enganado pelo défice bilateral que tem connosco. Em vez disso, fizemos transacções mutuamente benéficas com base nas nossas necessidades.

 

A economia moderna depende de défices comerciais bilaterais; entraria em colapso sem eles. Numa era de tecnologias avançadas e especialização crescente, tentar fabricar tudo internamente ou bilateralmente seria proibitivamente caro.

 

Por agora, os EUA parecem comprometidos com as exigências de que os seus parceiros paguem. O cenário mais provável, porém, é que economias como Canadá, Europa e México procurem compensar o impacto das tarifas de Trump aprofundando os seus laços com a China - uma vitória óbvia para o principal concorrente global dos EUA. Ao mesmo tempo, grandes empresas dos EUA deverão transferir a produção para outro lugar para evitar as tarifas de retaliação, como algumas - como a Harley-Davidson - já ameaçaram fazer.

 

Não há como negar que o ponto de viragem tecnológico em que nos encontramos causou desgaste para todos os países. Mas, em vez de nos culparmos uns aos outros pelos desafios gerados pelo progresso tecnológico - uma abordagem que só trará o pior dos tempos - devemos trabalhar juntos para os resolver. Qualquer país que se recuse a fazê-lo criará tensão para todos - e acabará por se condenar a ficar para trás.

 

Kaushik Basu, antigo economista-chefe do Banco Mundial e assessor económico do governo indiano, é professor de Economia na Cornell University.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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