Carmen Reinhart
Carmen Reinhart 27 de fevereiro de 2017 às 20:00

O ciclo da deflação acabou?

Se 2017 marca realmente uma inversão geral de uma década de deflação, é razoável esperar que a maioria dos principais bancos centrais não esteja inclinada a reagir de forma exagerada se a inflação ultrapassar a meta.

Até à crise financeira global de 2008-2009, a deflação deixou praticamente de ser uma preocupação para os responsáveis políticos e os investidores das economias avançadas, com excepção do Japão, que tem estado sujeito a uma persistente pressão descendente sobre os preços há quase uma geração. E agora os receios deflacionários estão a diminuir novamente.

 

Em meados da década de 1960, as economias avançadas deram início a uma era de pressões inflacionárias crescentes, inflamadas em grande parte por políticas orçamentais e monetárias expansionistas nos Estados Unidos e agravadas pelas subidas do preço do petróleo nos anos 1970. A estagflação, a combinação de baixo crescimento económico e inflação elevada, tornou-se um chavão no final dessa década. A maioria das previsões de mercado contemporâneas extrapolou essas tendências, prevendo uma marcha ascendente ininterrupta nos preços do petróleo e das matérias-primas. A inflação passou a ser considerada crónica, e os políticos começaram a olhar para os controlos de preços e políticas de rendimentos. As taxas de juro reais de curto prazo (ajustadas pela inflação) eram consistentemente negativas na maioria das economias avançadas.

 

O grande aperto da política monetária dos Estados Unidos, decidido pelo presidente da Reserva Federal Paul Volcker em Outubro de 1979, pôs um fim àquele longo ciclo. A estagflação deu lugar a um novo chavão: desinflação, que caracterizou com precisão muitas economias avançadas, com as taxas de inflação a caírem de dois dígitos.

 

Mas desinflação não é o mesmo que deflação. Como mostra a figura, entre 1962 e 1986, nenhuma economia avançada registou uma queda anual dos preços. Em muitos mercados emergentes, as taxas de inflação subiram para três dígitos, com vários casos de hiperinflação. Em 1991, a Grécia tinha uma taxa de inflação de cerca de 20%. Mesmo na Suíça, historicamente estável ao nível dos preços, a inflação superava os 5%.


 

Esta parece uma memória distante após a descida constante dos preços na Grécia desde 2013, acompanhada por uma crise da dívida e um colapso do produto. O banco central da Suíça, por sua vez, tem lutado com os efeitos deflacionários da apreciação dramática do franco nos últimos anos.

 

As forças deflacionárias foram desencadeadas pelas grandes deslocações económicas e financeiras associadas à profunda e prolongada crise global que emergiu em 2008. A desalavancagem privada tornou-se um forte contratempo para os esforços do banco central para reanimar a economia. Em 2009, cerca de um terço das economias avançadas registou uma queda nos preços – um máximo do pós-guerra. Nos anos que se seguiram, a incidência da deflação manteve-se elevada tendo em conta os padrões do pós-guerra e a maioria dos bancos centrais ficou aquém das suas metas de inflação extremamente modestas (cerca de 2%).

 

Como os planos de estímulo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, são pró-cíclicos – deverão ganhar força quando a economia estiver próxima do pleno emprego ou nesse nível – despertaram expectativas de que a taxa de inflação dos Estados Unidos está em trajectória ascendente. De facto, espera-se que a taxa de inflação nos Estados Unidos ultrapasse a meta de 2% da Reserva Federal. Mas as condições monetárias mais restritivas agem para mitigar a magnitude do impulso da inflação: enquanto o aumento esperado dos juros nos EUA é a "normalização" mais modesta e gradual da história da Fed, a apreciação do dólar deve limitar os ganhos de preços para um vasto conjunto de bens importados e para os seus concorrentes domésticos.

 

Este ponto de viragem esperado no comportamento dos preços não é exclusivo dos Estados Unidos. Se as projecções do Fundo Monetário Internacional para 2017 estiverem correctas, este ano será o primeiro de uma década em que nenhuma economia avançada está a passar por deflação (figura). Talvez os efeitos há muito esperados da expansão monetária histórica estejam finalmente a dar frutos. O mais provável é que a depreciação da moeda do Reino Unido, Japão e Zona Euro tenha sido um catalisador.

 

Se 2017 marca realmente uma inversão geral de uma década de deflação, é razoável esperar que a maioria dos principais bancos centrais não esteja inclinada a reagir de forma exagerada se, após uma década ou mais (mais tempo para o Japão) de decepções, a inflação ultrapassar a meta. Além disso, a visão de que metas de inflação mais elevadas (talvez 4%) podem ser desejáveis (porque dariam mais margem aos bancos centrais para baixarem as taxas de juro na sequência de uma recessão futura) ganhou adeptos entre alguns grupos políticos e académicos.

 

Naturalmente, pode haver ainda outro factor a motivar a tolerância dos maiores bancos centrais em relação a uma inflação mais elevada. Mas os seus líderes podem não estar dispostos a reconhecê-lo abertamente: como já argumentei noutro lugar, uma dose constante de inflação, ainda que moderada, ajudará a corroer as montanhas de dívida pública e privada que as economias avançadas têm acumulado nos últimos 15 anos.

 

Carmen Reinhart é professora de Sistema Financeiro Internacional na Kennedy School of Government da Universidade de Harvard.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria
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