Zhang Monan
Zhang Monan 24 de agosto de 2013 às 23:30

O olhar frio da China sobre o dinheiro quente

Com a China a sentir a pressão de grandes fluxos de capital de curto prazo, a Administração Estatal de Câmbio (SAFE, na sigla inglesa) emitiu um aviso, no início de Maio, que define um conjunto de medidas destinadas a controlar o "dinheiro quente", e a reduzir os riscos externos. De facto, as novas regras são essenciais para a gerir a rápida valorização do renminbi e garantir a precisão dos dados do comércio. Mas serão suficientes?

Diversos dados mostram a escala das entradas. No primeiro trimestre deste ano, as compras de divisas por parte dos bancos chineses dispararam para um recorde de 1,2 biliões de renminbis (o equivalente a cerca de 195 biliões de dólares) - mais que o dobro do ano passado. Essas compras aumentaram em cerca de 294,3 mil milhões de renminbis de Março a Abril, que foi o quinto mês consecutivo de crescimento.

 

No mesmo período, as reservas de divisas estrangeiras da China aumentaram de 128 mil milhões de dólares para 3,4 biliões de dólares - o maior aumento trimestral desde 2011, e igual ao aumento total em 2012. Dado o superávit comercial da China de 43 mil milhões de dólares, e os 30 mil milhões de dólares em investimento estrangeiro durante este período, os fluxos de capital devem ter sido um factor importante.

 

Além disso, desde o início deste ano, as compras de moeda estrangeira que os bancos fazem para os seus clientes e para eles próprios ultrapassaram as vendas correspondentes, resultando num grande excedente – um indicador adicional de maiores fluxos de capital. A diferença, que os bancos compensam mediante transacções no mercado interbancário de divisas, tem um impacto significativo sobre as reservas cambiais da China, mas não é equivalente à variação líquida das reservas cambiais durante o mesmo período.

 

De acordo com a Administração Estatal de Câmbio, indivíduos e instituições trocaram 152,2 mil milhões dólares em moeda estrangeira por renminbis através de bancos chineses em Março, e compraram 107,6 mil milhões de dólares em moeda estrangeira às instituições financeiras. Como resultado, o superávit dos bancos em moeda estrangeira chegou a 44,6 mil milhões de dólares americanos, mais 38% do que em Fevereiro, o que marca o sétimo mês consecutivo em que as transacções de bancos para clientes criaram um excedente.

 

As consequências dos fluxos anormais de capital na China estão a tornar-se cada vez mais evidentes, especialmente nos mercados de divisas. Apesar da desaceleração do crescimento do PIB - actualmente é apenas de 7,7% ao ano - o renminbi valorizou-se rapidamente, atingindo uma paridade recorde de 6,2082 contra o dólar dos Estados Unidos no início de Maio.

 

Sem nenhum sinal de melhoria dos fundamentais económicos, a rápida ascensão do renminbi deve estar relacionada com fluxos substanciais de moeda estrangeira. Como a taxa de juro de referência da China é maior do que a taxa comparável nos Estados Unidos, os indivíduos e as instituições têm um incentivo para manter os seus activos em renminbis e as suas dívidas em dólares. A flexibilização monetária em curso em muitos países avançados, aliada às fortes expectativas de valorização do renminbi, também está a alimentar a especulação cambial, impulsionando a taxa de câmbio.

 

As novas normas da Administração Estatal de Câmbio vão tentar travar esta tendência, impondo, pela primeira vez, limites às posições abertas líquidas detidas por bancos chineses, com rácios de crédito sobre depósitos em moeda estrangeira que superem os 75%, e para bancos estrangeiros que superem os 100%. Como vão proporcionar um incentivo aos bancos para manter mais depósitos em moeda estrangeira em relação aos seus créditos, as novas regras vão elevar o preço dos empréstimos em moeda estrangeira, dissuadindo assim as empresas de utilizar créditos em dólares para especular com a apreciação do renminbi.

 

Embora as regras só tenham entrado em vigor a 1 de Junho, o seu impacto foi sentido imediatamente. O renminbi terminou a sua tendência de alta em relação ao dólar dos Estados Unidos a 6 de Maio, fechando nos 6.1667, uma queda de 112 pontos base em relação ao dia anterior – a maior queda desde Dezembro passado. No mesmo dia, os controlos mais apertados sobre os fluxos de capital fizeram com que o renminbi extraterritorial fechasse nos 6.1790 contra o dólar dos Estados Unidos, uma queda de 0,4% - a maior desde Janeiro de 2012. Isto sugere que as medidas terão sucesso em conter a pressão ascendente sobre o renminbi.

 

Simultaneamente, as novas regras visam acabar com a prática utilizada por muitas empresas de canalizar capital para a China camuflado como compras comerciais. Inflacionando as operações de exportação para mover moeda estrangeira - principalmente dólares - para a China, as empresas têm evitado os controlos de capitais e distorcido dados comerciais. Para transformar os fundos em saídas de renminbis, as empresas aumentam a escala das liquidações em renminbis no comércio transfronteiriço. Em Março e Abril, o comércio transfronteiriço em renminbis aumentou em 412,8 mil milhões, um crescimento de 57,6% face ao mesmo período do ano anterior.

 

As divergências crescentes entre os dados do comércio externo e os dados portuários têm aumentado as dúvidas sobre a fiabilidade dos primeiros. No ano passado, as exportações chinesas cresceram cerca de 6,2%, e a movimentação de contentores nos portos chineses de grande escala aumentou 6,8% em termos homólogos.

 

Por outro lado, no primeiro trimestre deste ano, o comércio externo chinês aumentou para 974,6 mil milhões de dólares, o que reflecte um crescimento maior do que em 2012, enquanto os portos chineses completaram o processamento de 800 milhões de toneladas de carga, o que representa uma taxa de crescimento inferior em 4,2 pontos percentuais relativamente ao mesmo período do ano passado. Em Março, o tráfego de contentores nos portos chineses de grande escala foi de 15,29 milhões de TEUs (unidade equivalente a vinte pés), com um crescimento mensal 1,7% inferior ao dos meses anteriores.

 

Claramente, os dados do comércio estão a ser inflacionados porque as empresas realizam operações falsas para trazer capital para o país. As empresas sabem que, uma vez que o dinheiro chegue aos bancos do continente através de Hong Kong, podem esperar rendimentos isentos de risco de mais de 2%. Considerando a recente valorização do renminbi, a taxa de retorno pode chegar a 3 ou 4%.

 

De acordo com as novas regras, a SAFE emitirá um aviso 10 dias depois de detectar que os fluxos de capital de uma empresa não correspondem aos seus embarques físicos. Essas empresas serão controladass mais de perto por, pelo menos, três meses, até que os dados relevantes voltem ao normal.Só podemos esperar que estas medidas sejam suficientes para que os dados de exportação da China voltem gradualmente à realidade. No mínimo, as novas medidas são um passo importante para a melhoria da gestão dos fluxos de capitais transfronteiriços que, muito provavelmente, beneficiará de forma significativa a transformação e reestruturação económica da China.

 

Zhang Monan é membro do Centro de Informação da China, membro da Fundação Chinesa de Estudos Internacionais e investigador da Plataforma de Pesquisa Macroeconómica da China.


Direitos de Autor: Project Syndicate, 2013.
www.project-syndicate.org

Tradução: Rita Faria

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