Edmund S. Phelps 11 de setembro de 2015 às 20:00

O que a Grécia necessita para prosperar

Alguns economistas ignoram a ideia moderna de que a prosperidade de um país depende da inovação e do empreendedorismo. Adoptam a visão mecanicista de que a prosperidade é uma questão de emprego e que o emprego é determinado pela "procura" - os gastos do governo, o consumo das famílias e a procura por investimento.

Olhando para a Grécia, estes economistas defendem que a mudança da política orçamental para a "austeridade" - um sector público mais pequeno – levou a uma deficiência aguda na procura e, assim, a uma depressão. Mas esta argumentação tem uma leitura errada da história e exagera o poder da despesa Estado.

 

Grande parte da redução do emprego na Grécia ocorreu antes dos drásticos cortes na despesa entre 2012 e 2014 – sem dúvida, graças à queda abrupta na confiança dentro do governo. Os gastos do Estado grego por trimestre subiram para um patamar de cerca de 13,5 mil milhões de euros no período entre 2009 e 2012, antes de cair para cerca de 9,6 biliões entre 2014 e 2015. No entanto, o número de empregados atingiu o pico de 4,5 milhões entre 2006 e 2009 e caiu para 3,6 milhões em 2012. No momento em que a Grécia começou a reduzir o seu orçamento, a taxa de desemprego - 9,6% da força de trabalho em 2009 - já tinha subido quase para o nível recente de 25,5%.

 

Estes resultados contrariam a teoria de que "austeridade" trouxe a Grécia para sua situação actual. Indicam que a mudança na Grécia de 2008 a 2013, contra a elevada despesa, não é a razão para o actual desemprego em massa.

 

Outra constatação põe em xeque se realmente a austeridade foi imposta à Grécia. É certo que a despesa do Estado tem caído, mas apenas para os níveis do passado: 9,6 biliões de euros no primeiro trimestre deste ano é superior ao registado em 2003. Assim, a premissa da austeridade parece estar errada. A Grécia não se afastou dos princípios orçamentais do passado. Regressou aos mesmos. Em vez de descrever os gastos do actual Governo como "austeros", seria mais correcto vê-los como o fim de anos de libertinagem orçamental, que culminou em 2013, quando o défice orçamental do Estado atingiu 12,3% do PIB e a dívida pública subiu para 175% do PIB.

 

A "escola da procura" poderia responder que, independentemente de agora existir austeridade orçamental, o aumento da despesa do Estado (financiada, é claro, pela dívida) daria um impulso permanente ao emprego. Mas a experiência recente da Grécia sugere o contrário. O enorme aumento na despesa do Estado, a partir de 2006 até ao período de 2009 a 2013, produziu ganhos no emprego, mas não foram sustentados.

 

O ponto de discórdia real é que o Governo teria de emitir obrigações para financiar os seus gastos extraordinários. Assumindo um limite para a disposição dos investidores estrangeiros em comprar estas obrigações, os gregos teriam de comprá-las. Numa economia desequipada para o crescimento, a riqueza das famílias em relação aos salários iria afundar e a oferta de trabalho iria encolher, levando o emprego a contrair.

 

Gastar mais não é, então, o remédio para a situação na Grécia, assim como gastar menos não foi a causa. Qual é o remédio, então? Nenhum montante de reestruturação da dívida, nem mesmo de perdão da dívida, será suficiente para alcançar a prosperidade (na forma de desemprego baixo e alta satisfação no trabalho). Essas medidas iriam apenas ajudar a Grécia a impulsionar a despesa do Estado. Assim, o estupidificante corporativismo da economia - clientelismo e nepotismo no sector público e interesses adquiridos e elites entrincheiradas no sector privado - ganharia um novo sopro de vida. A esquerda europeia poderia defendê-lo, mas dificilmente seria do interesse da Europa.

 

O remédio deve situar-se na adopção de reformas estruturais adequadas. Quer ou não as reformas pretendidas pelos membros da Zona do Euro aumentem a probabilidade de que os seus empréstimos serão reembolsados, estes credores têm um interesse político e económico na sobrevivência e desenvolvimento da união monetária. Também devem estar prontos a ajudar a Grécia, no que toca aos custos para realizar as mudanças necessárias.

 

Mas é a própria Grécia que deve assumir o controlo das suas reformas. E há sinais encorajadores de que o primeiro-ministro Alexis Tsipras está disposto a assumir essa causa. Mas vai precisar de compreender as reformas necessárias. A Grécia deve quebrar acordos e práticas corporativistas que obstruam qualquer inovação e empreendedorismo que possam emergir. Nutrir uma abundância de inovadores criativos e empreendedores vibrantes requer adoptar uma arrojada visão ??de criatividade e descoberta.

 

Edmund S. Phelps, prémio Nobel da Economia em 2006, é director do Center on Capitalism and Society na Columbia University e autor de Mass Flourishing.

 

© Project Syndicate, 2015.

www.project-syndicate.org


Tradução: André Tanque Jesus


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