Dani Rodrik
Dani Rodrik 27 de março de 2018 às 14:00

Os truques comerciais de Trump

Mais cedo ou mais tarde, a natureza desastrosa da agenda doméstica de Trump tornar-se-á evidente até para os seus eleitores. Nesse ponto, uma guerra comercial antiquada pode parecer irresistível para proporcionar distracção e cobertura política.

No que respeita à política comercial, o latido do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem sido, até agora, muito pior do que a sua mordida. Mas isso pode estar a mudar. Em Janeiro, Trump aumentou as tarifas sobre as máquinas de lavar e os painéis solares importados. Agora, ordenou tarifas sobre o aço e o alumínio importado (25% e 10%, respectivamente), baseando a medida numa excepção de segurança nacional às regras da Organização Mundial do Comércio que raramente é invocada.

 

Muitos comentadores reagiram exageradamente às tarifas, prevendo uma "guerra comercial" e ainda pior. Um especialista chamou às tarifas sobre o aço e o alumínio as restrições comerciais mais significativas desde 1971, quando o presidente Richard M. Nixon impôs uma sobretaxa de 10% sobre as importações em resposta ao défice comercial dos EUA e previu que "terão enormes consequências para o comércio global". O The Wall Street Journal escreveu que as tarifas de Trump são a "maior tolice política da sua presidência" - uma afirmação notável à luz dos erros dos Estados Unidos em relação à Rússia, FBI, Coreia do Norte, imigração, impostos, nacionalismo branco e muito mais.

 

A verdade é que as medidas comerciais de Trump até à data não são significativas, em particular se as compararmos com as políticas proteccionistas da administração do presidente Ronald Reagan nos anos 80. Reagan aumentou as tarifas e as restrições sobre um grande leque de indústrias, incluindo têxteis, automóveis, motas, aço, madeira, açúcar e electrónica. Reagan pressionou o Japão a aceitar restrições "voluntárias" às exportações de carros. E impôs tarifas de 100% sobre determinados produtos electrónicos japoneses quando o país supostamente não conseguiu manter elevados os preços de microchips exportados.

 

Assim como as políticas de Trump violam o espírito, se não mesmo o texto, dos actuais acordos comerciais, as restrições ao comércio de Reagan exploraram as brechas nos acordos existentes. Distanciavam-se tanto das práticas predominantes que o medo de um "novo proteccionismo" se generalizou. "Há um grande perigo de o sistema se desintegrar", escreveu um advogado da área comercial "ou que colapse numa repetição sinistra da década de 1930".

 

Essas advertências acabaram por se revelar alarmistas. A economia mundial não foi muito afectada pela reversão temporária da tendência em direcção à liberalização do comércio durante a década de 1980. Na verdade, até pode ter sido beneficiada. O proteccionismo de Reagan agiu como uma válvula de segurança que libertou o vapor político, evitando assim maiores rupturas.

 

E assim que a macroeconomia dos EUA melhorou, o ritmo da globalização acelerou significativamente. O Acordo de Livre Comércio da América do Norte, a OMC (que proibiu explicitamente as restrições "voluntárias" às exportação usadas por Reagan) e o boom de exportações da China aconteceram todos na década de 1990, assim como a remoção das restrições remanescentes à actividade financeira transfronteiras.

 

O proteccionismo de Trump pode ter consequências muito diferentes; a história não tem de se repetir. Em primeiro lugar, embora o impacto geral continue limitado, as restrições comerciais de Trump são de natureza unilateral. Grande parte do proteccionismo de Reagan foi negociado com os parceiros comerciais e pensado para aliviar o fardo económico sobre os exportadores.

 

As restrições voluntárias à exportação (VERs) dos anos 80 sobre os automóveis e o aço, por exemplo, foram geridas pelos países exportadores. Isso permitiu às empresas japonesas e europeias convergirem na subida dos seus preços de exportação para o mercado norte-americano. Na verdade, essas empresas podem até ter-se tornado mais lucrativas graças às restrições comerciais dos EUA. Há poucas hipóteses de exportadores sul-coreanos de máquinas de lavar ou exportadores chineses de painéis solares se saírem tão bem hoje. O unilateralismo de Trump causará mais raiva entre os parceiros comerciais e, portanto, é mais provável que gere retaliação.

 

Outra diferença em relação às medidas da era Reagan é que estamos a viver num estágio mais avançado da globalização, e os problemas que a acompanham são maiores. O impulso para a hiper-globalização nos anos 90 criou uma divisão profunda entre aqueles que prosperam na economia global e partilham os seus valores, e aqueles que não o fazem. Como resultado, as forças do nacionalismo e do nativismo são provavelmente mais poderosas do que em qualquer outra época desde o final da Segunda Guerra Mundial.

 

Ainda que as políticas de Trump pretendam, supostamente, restaurar a equidade no comércio global, elas aumentam os problemas, em vez de os amenizar. Como apontam Jared Bernstein e Dean Baker, as tarifas de Trump provavelmente beneficiarão uma pequena minoria de trabalhadores em indústrias protegidas em detrimento de uma grande maioria de outros trabalhadores de outras indústrias. Os desequilíbrios e desigualdades gerados pela economia global não podem ser enfrentados protegendo-se algumas indústrias politicamente bem conectadas, usando como desculpa razões de segurança nacional manifestamente ridículas. Esse tipo de proteccionismo é um truque, não uma agenda séria para a reforma do comércio. 

 

Uma agenda séria de reformas restringiria a protecção das empresas farmacêuticas e de profissionais qualificados, como os médicos, como argumentam Bernstein e Baker. Abordaria as preocupações com o dumping social e a autonomia das políticas, renegociando multilateralmente as regras da OMC. E visaria áreas onde os ganhos do comércio ainda são muito grandes, como a mobilidade internacional de trabalhadores, em vez de áreas que beneficiam apenas interesses especiais.

 

Mas é na arena doméstica que a maior parte do trabalho precisa de ser feita. A reparação do contrato social doméstico requer uma gama de políticas sociais, tributárias e de inovação para estabelecer as bases para uma versão do New Deal do século XXI. Mas com os seus cortes nos impostos pagos pelas empresas e com a sua desregulamentação, Trump a caminhar na direcção oposta. Mais cedo ou mais tarde, a natureza desastrosa da agenda doméstica de Trump tornar-se-á evidente até para os seus eleitores. Nesse ponto, uma guerra comercial antiquada pode parecer irresistível para proporcionar distracção e cobertura política.

 

Dani Rodrik, professor de Economia Política Internacional na John F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, é autor de Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy.

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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