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Vishakha N. Desai | Astrid S. Tuminez 31 de Maio de 2012 às 23:30

Poder para as mulheres da Ásia

Os olhos de todos estão na Ásia. A China, outrora vista como pobre e atrasada, é agora a segunda maior economia mundial. A Índia, com a sua elevada população, com as suas proezas científicas e com a sua vitalidade empreendedora é outro poderoso motor do crescimento asiático.

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Os olhos de todos estão na Ásia. A China, outrora vista como pobre e atrasada, é agora a segunda maior economia mundial. A Índia, com a sua elevada população, com as suas proezas científicas e com a sua vitalidade empreendedora é outro poderoso motor do crescimento asiático. A somar a isto, há as formidáveis economias do Japão e da Coreia do Sul e o dinamismo do sudeste asiático faz com que o cenário que surge seja de aumento da riqueza, confiança e liderança.

Ainda assim, poucas mulheres na Ásia chegam ao topo. As normas sociais desvalorizam as raparigas e mulheres, os abortos reflectem uma escolha de género, o que tem como resultado estimado que 1,3 milhões de meninas, por ano, não tenham nascido apenas na China e na Índia.

Contudo, as mulheres beneficiaram do desenvolvimento económico na Ásia. De acordo com o Relatório Mundial das Desigualdades de Género do Fórum Economico Mundial de 2011 (World Economic Forum’s Global Gender Gap Report 2011), o crescimento da prosperidade reduziu as desigualdades de género em muitos países. As mulheres estão a progredir em termos de saúde, educação, oportunidades económicas e emancipação política o que pode ter influência numa liderança futura.

Além disso, a família e os factores dinásticos ajudaram a catapultar as mulheres para os mais elevados cargos políticos. De facto, a Ásia tem o maior número de mulheres chefe de Estado que qualquer outra região do mundo, o que, acompanhado pelo sucesso de algumas, cria um ímpeto para a mudança da percepção do papel das mulheres, do estatuto e das capacidades.

Os dados indicadores da liderança das mulheres na Ásia, ainda que limitados, mostram que as Filipinas, Austrália e Nova Zelândia estão consistentemente entre os desempenhos mais elevados. A somar a isto, os parâmetros económicos e ocupacionais – tais como mulheres em posições de gestão "sénior", taxas de promoção, remuneração e igualdade salarial – estes países são acompanhados por Singapura, Mongólia, Tailândia e Malásia.

Enquanto o resto do sul da Ásia tem um desempenho pior na igualdade de género e nas habilitações das mulheres, tem, contudo, três países no top cinco em termos de participação política (Sri Lanka, Bangladesh e Índia). Os países do sul da Ásia lideram também em termos de mulheres nos parlamentos (Nepal e Paquistão); mulheres ministras (Bangladesh) e mulheres na liderança de governos sub-nacionais (Índia, Paquistão e Bangladesh).

Mas tendo ocupado cargos de liderança por terem ligações familiares ou dinásticas não é um sinal de grande igualdade de género. E, enquanto uma acção afirmativa tem também aumentado a representação política das mulheres, os ganhos de uma liderança política limitada têm ainda de ser traduzidos para benefícios reais para as mulheres em geral.

Além disso, enquanto o desenvolvimento beneficiou as mulheres, as relações entre o desenvolvimento humano e a liderança feminina não é directamente proporcional. Algumas das economias asiáticas que estão nos lugares mais elevados dos rankings de desenvolvimento humano, como o Japão e a Coreia do Sul, estão entre os piores em termos de terem mulheres nos lugares de topo das administrações, igualdade salarial, remunerações e emancipação política. Singapura e Hong Kong têm também significativas desigualdades de género em cargos de liderança apesar do elevado desenvolvimento humano.

Na Ásia, muitas mulheres - 70% no Japão, 53% na China e 46% em Singapura – simplesmente não fazem a transição entre os cargos de gestão intermédios e os seniores. As mulheres precisam de mais apoio sistemático de forma a facilitar as suas escolhas de seguir carreiras de topo sem abdicar dos seus papéis de mães e educadoras. São necessárias melhorias significativas na orientação, licença parental, no acolhimento de crianças e no cuidado de crianças mais velhas, bem como, reformas mais equitativas em termos de género e plano de pensões.

Finalmente, as normas sociais e culturais enraizadas continuam a ser o maior obstáculo intransponível à liderança das mulheres na Ásia. Uma campanha ampla é necessária para educar as pessoas, alterar a valorização e a percepção das meninas e das mulheres e dar às mulheres uma voz mais equitativa – em casa e em público – de forma a facilitar a sua transição para papéis de liderança.

Mas a educação é apenas uma parte da solução. Programas de acções afirmativas podem agilizar a representação das mulheres em cargos de liderança, mas elas exigem tempo para terem um impacto profundo nas normas sociais. Contudo, com o tempo a exposição a líderes mulheres ao nível local pode reduzir os preconceitos e impulsionar as aspirações e as conquistas educacionais das jovens mulheres, como está a acontecer na Índia.

Os governos, em particular na China e na Índia, podem intensificar os esforços para pôr fim à selecção de sexos. Mais leis – e melhor aplicação – são necessárias para reduzir a violência doméstica sobre as mulheres e aumentar o poder negocial através de uma ampla posse de propriedades, melhor acesso aos serviços de apoio e legais e uma maior liberdade para abandonarem os seus casamentos.

Mas há um motivo para se estar optimista: o Paquistão e a Indonésia, são exemplos encorajadores e que mostram como parcerias entre o Governo, polícia, grupos de mulheres, solicitadores e organizações não-governamentais pode trabalhar para fortalecer a voz das mulheres e dar assim um contributo potencial para uma sociedade mais plena.

Além disso, os governos asiáticos podem cultivar a liderança feminina em duas áreas da actividade económica, nas quais as mulheres já têm fortes características: agricultura e empreendedorismo. Para ter a certeza, o trabalho tende a ser reduzido em termos de produtividade e de escala e as mulheres frequentemente são empurradas para esses trabalhos pela pobreza. Mas os governos deveriam agarrar esta oportunidade para perseguir políticas que dessem às mulheres nestes sectores um maior acesso a capitais, formação (por exemplo, em orçamento e planeamento financeiro), tecnologias e redes.

O desenvolvimento económico está positivamente correlacionado com a igualdade de género. Mas, e como aponto o Banco Mundial no seu Relatório de Desenvolvimento Mundial de 2012, a igualdade de género é um valor independente, não um instrumento para o crescimento económico e para a eficiência. O Banco Mundial destaca os progressos das mulheres em termos de educação, esperança de vida e participação no mercado de trabalho, contudo, descreve também problemas contínuos como uma taxa de mortalidade de meninas e mulheres excessiva em países de baixos e médios rendimentos, disparidades educacionais, oportunidades económicas desiguais assim como, autoridade desigual dentro e fora de casa.

Desde o nascimento que as meninas na Ásia enfrentam obstáculos significativos para satisfazerem a totalidade do seu potencial humano – especialmente o seu potencial de liderança. É tempo de remover essas barreiras. A emancipação das mulheres asiáticas vai beneficia-las e enriquecer toda a região.

Astrid S. Tuminez é vice-reitora da Lee Kuan Yew School of Public Policy, National University of Singapore. Vishakha N. Desai é presidente da Asia Society. Lançaram recentemente o livro "Rising to the Top? A Report on Women’s Leadership in Asia".

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro


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