Stephen  Roach
Stephen Roach 23 de agosto de 2013 às 23:30

Quebrar maus hábitos

Nunca vai ser fácil, mas os bancos centrais das duas maiores economias do mundo – Estados Unidos e China – parecem finalmente encaminhados para a normalização das suas políticas. Viciados numa política monetária acomodatícia, que foi criada na grande crise de 2008-2009, os mercados financeiros estão agora a tentar recuperar o fôlego.

A Reserva Federal e o Banco Popular da China estão no mesmo caminho, mas por razões muito diferentes. Para o presidente da Fed, Ben Bernanke e os seus colegas, parece haver um sentimento crescente de que a emergência económica já passou, o que implica que as acções extraordinárias - ou seja, uma política de taxa de juro zero e uma quase quadruplicação do seu balanço - não são mais apropriadas. Por outro lado, o Banco Popular da China está envolvido em mais uma greve preventiva - a tentativa de garantir a estabilidade, reduzindo o excesso de alavancagem que tem apoiado muito o lado real da economia chinesa, cada vez mais dependente de crédito.

 

Ambas as acções estão correctas e muito atrasadas. Enquanto a primeira ronda de “quantitative easing” (QE) da Fed ajudou a acabar com a turbulência dos mercados financeiros que ocorreu no pico da crise recente, as duas rondas posteriores - incluindo o actual QE3 - pouco fizeram para aliviar a pressão prolongada sobre os consumidores americanos. Na verdade, a dívida do sector doméstico ainda é superior a 110% do rendimento pessoal disponível e a taxa de poupança pessoal continua a ser inferior a 3%, médias que comparam desfavoravelmente com os padrões de 75% e 7,9%, respectivamente, que prevaleceram nas últimas três décadas do século XX.

 

Com os consumidores americanos retraídos como nunca, a procura ajustada pela inflação tem-se mantido presa a uma trajectória de crescimento anualizado de 0,9% desde 2008, mantendo a economia dos Estados Unidos atolada numa recuperação decididamente abaixo da média. Incapaz de estimular a actividade económica real, o QE tem-se tornado, pelo contrário, numa perigosa fonte de instabilidade nos mercados financeiros globais.

 

Com a liquidez a conta-gotas do QE agora em risco, os recentes espasmos nos mercados financeiros deixam poucas dúvidas sobre os perigos crescentes dos excessos especulativos que têm vindo a construir. Felizmente, a Fed está finalmente a enfrentar o lado negativo da sua experiência grandiosa.

 

Os desenvolvimentos recentes na China contam uma história diferente - mas com implicações igualmente poderosas. Lá, o aperto de crédito não decorre da acção determinada por um banco central independente, mas reflete uma mudança importante nas políticas económicas do Estado. A nova liderança da China, chefiada pelo presidente Xi Jinping e o primeiro-ministro Li Keqiang, parece determinada a acabar com a fixação dos seus antecessores na manutenção de um ritmo acelerado de crescimento económico, e a reorientar a política pela qualidade do crescimento

Essa mudança eleva a importância da agenda pró-consumo do 12 º Plano Quinquenal da China, mas também põe em causa as táticas pró-activas da autoridade fiscal e monetária do país. A resposta política - ou, mais precisamente, a não-resposta política - à actual desaceleração é uma importante validação desta nova abordagem.

 

A ausência de uma nova ronda de estímulos fiscais indica que o governo chinês está satisfeito com uma taxa de crescimento de 7,5-8% do PIB - muito longe do vício anterior em taxas de crescimento em torno dos 10%. Mas o crescimento mais lento na China só poderá continuar a sustentar o desenvolvimento se a estrutura da economia mudar de direcção, da procura externa para a interna, da produção para os serviços, e da utilização intensiva de recursos para uma gestão mais cuidada dos recursos. A nova liderança da China não reduziu apenas s sua meta de crescimento; aumentou também a aposta em imperativos de reequilíbrio da economia.

 

Consistente com esta nova mentalidade, a falta de vontade do Banco Popular da China para colocar um fim rápido à crise de liquidez de Junho envia um forte sinal de que os dias de expansão do crédito estão contados. Este é um desenvolvimento muito bem-vindo. A dívida do sector privado da China subiu de cerca de 140% do PIB em 2009 para mais de 200% no início de 2013, de acordo com estimativas da Bernstein Research - um aumento que pode ter agravado os desequilíbrios da economia chinesa, já por si desequilibrada.

 

Há uma boa razão para acreditar que os novos líderes da China estão determinados em afastar a economia da dívida crescente (e desestabilizadora). Esta posição parece estar alinhada com os comentários bastante enigmáticos de Xi sobre uma campanha de educação para as massas, que visa resolver os problemas decorrentes dos "quatro ventos" do formalismo, burocracia, hedonismo e extravagância.

 

Os mercados financeiros estão a ter dificuldades em adaptar-se à nova mentalidade política das duas maiores economias do mundo. Ao mesmo tempo, os investidores têm levantado questões sérias e legítimas sobre o regime de política económica do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, que, infelizmente, depende muito mais da engenharia financeira - flexibilização quantitativa e depreciação do iene - do que de uma nova agenda de reforma estrutural.

 

Tais dúvidas são compreensíveis. Afinal, se os quatro anos de flexibilização da política monetária pela Fed não pode acabar com o balanço recessivo da América, por que é que alguém deveria acreditar que um programa agressivo de compra de activos por parte do Banco do Japão iria acabar rapidamente com duas décadas perdidas de estagnação e deflação naquele país?

 

Com os mercados financeiros confrontados com a normalização da política monetária nos Estados Unidos e na China, e com as deficiências de esforços do Banco do Japão, o lado real da economia global está menos em risco do que os preços dos activos. Em grande parte, isso acontece porque as políticas monetárias não convencionais nunca foram a droga milagrosa que deveriam ser. Acrescentaram espuma aos mercados financeiros, mas não fizeram quase nada para promover a recuperação vigorosa e para corrigir problemas profundamente enraizados na economia real.

 

Quebrar maus hábitos dificilmente será uma experiência indolor para os investidores viciados em liquidez. Mas é melhor agora do que depois, quando os excessos nos mercados de activos e de crédito gerassem distorções novas e perigosas no lado real da economia global. Foi isso que empurrou o mundo para a crise de 2008-2009, e não há nenhuma razão para que isso não possa acontecer novamente.

 

Stephen S. Roach, membro do corpo docente da Universidade de Yale e ex-presidente do Morgan Stanley na Ásia, é o autor de “The Next Ásia”.


Direitos de Autor: Project Syndicate, 2013.
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Tradução: Rita Faria

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