Hans-Werner Sinn
Hans-Werner Sinn 09 de maio de 2016 às 20:30

As bolhas emergentes da Europa

O sul da Europa sucumbiu à droga do crédito barato. Mas quando o crédito privado estagnou e os sintomas de abstinência começaram a aparecer, o BCE forneceu drogas de substituição. Em vez de tratar o vício, criou economias completamente dependentes que foram incapazes de funcionar sem um ajustamento.

As últimas decisões de política monetária do Banco Central Europeu (BCE) chocaram muitos observadores. Ainda que o objectivo – prevenir a deflação e impulsionar o crescimento – seja claro, as políticas em si abrem caminho a uma grave instabilidade.

 

As políticas em causa incluem a descida da taxa de juro de referência para zero; o aumento das compras mensais de activos em 20 mil milhões de euros para 80 mil milhões de euros; e a descida da taxa que o BCE cobra pelas reservas que os bancos depositam no banco central para terreno ainda mais negativo – para -0,4%. Além disso, o BCE lançou quatro novas operações de refinanciamento de mais longo prazo, também elas com taxas negativas. Os bancos recebem juros até 0,4% sobre os créditos do BCE, desde que emprestem às empresas privadas.

 

Estas políticas são, na sua essência, as mais recentes tentativas por parte do BCE para fazer frente às consequências do colapso da enorme bolha que se formou no Sul da Europa nos primeiros anos do euro. Tudo começou com o anúncio da introdução do euro na Cimeira Europeia de 1995, em Madrid, que provocou a queda das taxas de juro.

 

A bolha de crédito inflacionária, que foi impulsionada nos países do sul da Europa pela persistência das taxas de juro mais baixas, penalizou a sua competitividade e conduziu os preços dos activos e imóveis para níveis insustentavelmente elevados. Quando a bolha estourou, o BCE tentou impedir que os preços excessivos regressassem aos seus níveis de equilíbrio utilizando a sua impressora e prometendo cobertura ilimitada aos investidores. As mais recentes medidas do BCE são apenas mais do mesmo.

 

Naturalmente, quando a crise financeira estalou com toda a sua força em 2008, depois do colapso do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers, as intervenções do BCE foram justificadas. Mas depois de a economia global ter começado a recuperar, durante a segunda metade do ano seguinte, os movimentos do BCE tornaram-se cada vez mais problemáticos, porque permitiu aos países fugirem das reformas estruturais e dificultou a necessária desinflação nos países do sul da Zona Euro - ou travaram-na completamente, como em Portugal e na Itália.

 

O sul da Europa sucumbiu à droga do crédito barato. Mas quando o crédito privado estagnou e os sintomas de abstinência começaram a aparecer, o BCE forneceu drogas de substituição. Em vez de tratar o vício, criou economias completamente dependentes que foram incapazes de funcionar sem um ajustamento.

 

O Japão cometeu um erro semelhante quando sua bolha imobiliária estourou em 1990. Durante mais de duas décadas, o Banco do Japão inundou a economia com dinheiro a taxas de juro próximas de zero. O governo japonês, por sua vez, seguiu uma política tão implacável de défices orçamentais que a dívida pública saltou de 67% para 246% do PIB, actualmente, com o mais recente impulso altista a ser provocado pela duvidosa estratégia económica - "Abenomics" - que está a ser prosseguida pelo governo do primeiro-ministro Shinzo Abe.

 

Nada disto ajudou, porque nem a política monetária nem a política orçamental pode substituir a reforma estrutural. Pelo contrário, quanto mais drogas keynesianas e monetaristas são administradas, mais fraco o poder de auto-regeneração dos mercados e mais fraca a vontade dos políticos para impor tratamentos de desintoxicação dolorosos na economia e na população.

 

Mas os piores efeitos da política do BCE podem estar ainda por vir, se as economias que ainda estão sólidas também se tornarem dependentes de crédito. Já há alguns sinais preocupantes. Os mercados imobiliários da Áustria, Alemanha e Luxemburgo praticamente explodiram durante a crise, depois de os bancos terem andado a perseguir os mutuários com ofertas de crédito a taxas de juro quase nulas, independentemente da sua capacidade para pagar esses empréstimos.  Na Áustria, os preços dos imóveis subiram quase 50%; no Luxemburgo aumentaram em quase um terço.

 

Até a Alemanha, a maior economia da Europa, tem assistido a um ‘boom’ imobiliário desde 2010, com os preços médios dos imóveis urbanos a subirem em mais de um terço – e em quase 50% nas grandes cidades. O país está a viver um auge da construção como não se via desde a reunificação. Os agentes imobiliários têm apenas sobras na sua oferta.

 

O ‘boom’ imobiliário alemão poderia ser refreado com um salto adequado das taxas de juro. Mas, dada a aparente determinação do BCE em caminhar na direcção oposta, a bolha só vai crescer. Se ela estourar, os efeitos podem ser terríveis para o euro; o novo partido eurocéptico denominado Alternativa para a Alemanha, que registou um resultado surpreendente nas últimas eleições, vai assegurar isso mesmo.

 

Hans-Werner Sinn, professor de Economia e Finanças Públicas na Universidade de Munique, é presidente do instituto de pesquisa económica Ifo e conselhiero do ministro da Economia alemão. É autor do livro The Euro Trap: On Bursting Bubbles, Budgets, and Beliefs.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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