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Harold James 04 de Setembro de 2016 às 20:00

A ambiguidade do Brexit

Será que o Brexit de que May fala implica o tipo de saída "rígida" da UE que muitos – senão a maioria - dos apoiantes do "Leave" desejam, ou May vai seguir uma abordagem mais suave?

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"Brexit significa Brexit", insiste Theresa May, a nova primeira-ministra do Reino Unido. É um slogan simples e poderoso que envia uma mensagem inequívoca a todos os que têm ansiado por uma reavaliação do resultado do referendo de Junho. Parece claro que o Reino Unido vai deixar a União Europeia. Mas é aí que a clareza termina.

 

Quando Charles de Gaulle estava na varanda do governador em Argel, a 4 de Junho de 1958, disse a uma multidão de colonos franco-argelinos, "Je vous ai compris!" ("Eu entendi-vos"). Dentro de alguns anos, acabaria por negociar a independência da Argélia, enfurecendo os mesmos colonos. "Entender", percebeu-se então, não queria dizer "simpatizar".

 

O slogan favorito de May também pode ser enganoso - uma possibilidade que não foi esquecida pela facção pró-Brexit do Partido Conservador. Será que o Brexit de que May fala implica o tipo de saída "rígida" da UE que muitos – senão a maioria - dos apoiantes do "Leave" desejam, ou May vai seguir uma abordagem mais suave?

 

Um Brexit "rígido" implicaria o corte de todos os laços existentes entre o Reino Unido e a União Europeia: o fim das contribuições para o orçamento comum e o fim da livre circulação de trabalhadores. Esta posição pressupõe que a Europa está em declínio económico e cultural e, portanto, não tem muito mais a oferecer ao Reino Unido, que beneficiaria muito mais de laços mais profundos com as economias emergentes da Ásia e América do Sul. O Brexit "rígido" é, na sua essência, uma amputação.

 

Um Brexit "suave" reflectiria a visão de que o Reino Unido continua a ser uma parte da Europa, e que o país ainda tem muito a ganhar com os laços com a UE, com a cidade de Londres, em particular, a depender da abertura aos trabalhadores estrangeiros, qualificados e não qualificados,  e dos fluxos de capitais. Como tal, o Reino Unido deveria continuar a reger-se pelas normas da UE e garantir que as relações económicas e políticas com a Europa continuam a ser centrais para a política britânica.

 

Esta versão do Brexit significaria o triunfo da visão realista do mundo sobre uma perspectiva auto-destrutiva sustentada por uma noção implausível de soberania. É a melhor opção do Reino Unido. Mas há grandes obstáculos para a escolher.

 

Um Brexit "suave", no contexto actual, não difere muito do compromisso que o governo do ex-primeiro-ministro David Cameron negociou com a UE em Fevereiro - o acordo que 51,9% dos eleitores do Reino Unido rejeitaram em Junho. Como parte desse compromisso, a UE reconheceu a possibilidade de múltiplas moedas dentro da União e aceitou o direito do Reino Unido de colocar limites temporários aos benefícios sociais que incentivam a migração. Esse "travão de emergência" sobre a migração seria estendido num Brexit "suave", tornando-se, eventualmente, permanente.

 

Um acordo eficaz para um Brexit "suave" teria que ir além dessas questões para definir o relacionamento do Reino Unido com a Europa. Isso exigiria uma profunda reflexão no Reino Unido, mas também o estabelecimento de uma visão clara do que a Europa é realmente.

A conexão do Reino Unido com a Europa tem sido geminada. "Estamos com a Europa, mas não lhe pertencemos", disse Winston Churchill à Câmara dos Comuns, em 1953. "Estamos ligados, mas não juntos. Estamos interessados e associados, mas não absorvidos".

 

Isso parece reflectir a postura - expressa por Cameron e pelo ex-ministro das Finanças George Osborne - que ajudou a definir o cenário para o Brexit. Em resposta à crise do euro, argumentaram que a Europa precisava de mais integração orçamental, mas sem o Reino Unido; o país não participaria em futuras operações de resgate do euro. A solidariedade (pelo menos a que custa dinheiro) parou no Canal da Mancha.

 

Mas, tal como as palavras de Charles de Gaulle e de May, as declarações de Churchill empregaram a linguagem da ambiguidade política. Tanto os defensores como os opositores do Brexit apelaram ao espírito de Churchill durante a campanha do referendo. A interpretação mais razoável, surpreendentemente, foi resumida por Boris Johnson, líder da campanha do "Leave" e actual ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido: em relação à Europa, Churchill queria ter sol na eira e chuva no nabal.

 

Em qualquer caso, o problema da definição da Europa continua. Será que a sobrevivência da UE depende de uma integração mais profunda e mais estreita de um grupo central de países? Para as pessoas que acreditam nisso, nomeadamente em França e na Alemanha, o Brexit oferece uma oportunidade para simplificar e clarificar as regras - e o objectivo - do jogo.

 

Mas outros preferem manter um certo grau de ambiguidade, o que facilita o consenso sobre questões complexas e ajuda a manter os líderes no poder. A chanceler alemã, Angela Merkel, enquadra-se nessa categoria, o que faz dela uma espécie de congénere continental de May. Esta estratégia de utilizar a imprecisão para criar espaço para sistemas políticos e mentalidades diferentes - e, às vezes, até mesmo para convencer a maioria a apoiar as decisões de alguns - vai continuar a impedir os esforços para definir a Europa, minando, dessa forma, a negociação de um Brexit "suave".

 

Os britânicos estão bastante confortáveis com a ambiguidade. A mais importante obra de análise literária britânica no século XX é "Sete Tipos de Ambiguidade", de William Empson. De acordo com Empson, a ambiguidade implica a possibilidade de visões alternativas poderem coabitar "sem grandes erros de leitura". De uma declaração que revela a perspectiva "complicada" do autor a uma que destaca um conflito fundamental na sua mente, as ambiguidades poéticas de Empson certamente não parecem deslocadas na política - especialmente a política britânica actual. A questão agora é saber se 27 fontes de ambiguidade na Europa podem tolerar uma 28ª.

 

Harold James é professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Princeton e membro sénior no Center for International Governance Innovation.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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