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Adeus à Globalização

O termo “globalização” surgiu pela primeira vez na década de 90 e atingiu o seu pico de popularidade nos anos de 2000 e 2001.

O termo “globalização” surgiu pela primeira vez na década de 90 e atingiu o seu pico de popularidade nos anos de 2000 e 2001. Em 2001, por exemplo, o “Le Monde” incluiu mais de 3.500 referências à globalização. Mas depois, esse número sofreu uma forte queda – mais de 80% em 2006. Desde o surgimento da crise financeira em 2007, a utilização desta palavra pelos principais jornais como é o caso do “New York Times” e o “Financial Times” caiu ainda mais. O termo globalização está a entrar em desuso.

Uma breve história sobre o conceito, e a comparação com outro termo que também caiu em descrédito por utilização abusiva, ajuda a explicar o que aconteceu.

As duas inovações, ao nível dos conceitos, mais importantes do século XX, “totalitarismo” e “globalização”, são de origem italiana. O primeiro termo define a agitação de meados do século XX, e o seu favorável final. O “totalitarismo” desintegrou-se em 1989 enquanto a globalização permaneceu.

Os dois termos originaram críticas que deveriam ter minado e subvertido as tendências políticas que descreviam. Mas ambas acabaram por tornar-se frequentes e utilizadas entusiasticamente pelos seus respectivos apoiantes.

“Totalitarismo” iniciou a sua vida como conceito em 1923 como crítica, ou mesmo paródia, do escritor liberal Giovanni Amendola quanto às pretensões megalómanas do novo regime de Benito Mussolini. Poucos anos depois, transformou-se orgulhosamente na auto-definição do fascismo italiano firmemente apoiado pelo ministro da Educação de Mussolini, Giovanni Gentile, que se transformou no filósofo oficial do fascismo e mais tarde redigiu, de forma anónima, grande parte da na Enciclopédia do Fascismo para Benito Mussolini na Enciclopédia do Fascismo.

Tanto no sentido hostil como no sentido de celebração, a palavra totalitarismo tinha por objectivo descrever um movimento que aglutina todos os aspectos da vida naquilo que tinha a pretensão de ser uma filosofia coerente na política, economia e sociedade. Os fascistas gostavam de se considerar como os detentores de todo o conhecimento e de todo o poder.

Hoje em dia, poucos sabem a origem do termo “globalização”. O Oxford English Dictionary dá-nos a como a primeira utilização corrente do termo um artigo académico em 1972. A palavra tinha sido utilizada anteriormente, mas com um sentido diferente. Era um termo diplomático que visava a articulação entre áreas políticas distintas (por exemplo, em negociações simultâneas em questões financeiras e de segurança).

A etimologia do Oxford English Dictionary ignora as origens do termo não-inglesas, que podem ser encontradas na terminologia linguística inventiva do radicalismo estudantil da Europa Continental. Em 1970, o periódico radical da ala esquerda italiana “Sinistra Proletária” publicou um artigo intitulado “O Processo de Globalização da Sociedade Capitalista”, que era uma descrição da IBM, uma “organização que apresenta ela própria como um todo e que controla todas as actividades com o objectivo do lucro e ‘globaliza’ todas as suas actividades no processo produtivo.” Porque a IBM, de acordo com o artigo, produzida em 14 países e vendida em 109, “contém em si própria a globalização (mondializzazione) do imperialismo capitalista”. Esta publicação obscura da ala esquerda é a primeira referência, no sentido contemporâneo, à globalização.

Desde então, o termo tem tido altos e baixos. O seu uso aumentou durante a década de 90 mas, sobretudo, no sentido pejorativo do termo. No final da década de 90 e no início da década de 2000, as manifestações anti-globalização tinham como alvo a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o Fórum Económico Mundial e a McDonald´s. A globalização era vista nesta altura – como era vista na década de 60 pela esquerda italiana – como a exploração da população mundial mais pobre por uma elite plutocrática e tecnocrática.

Mas na década de 2000, o significado de globalização alterou-se e começou a assumir um sentido semi-positiva, em larga medida porque cada vez mais era vista como benéfica para muitos mercados emergentes de crescimento rápido. Certamente, que países que anteriormente foram descritos como “subdesenvolvidos” ou de “Terceiro Mundo” transformaram-se em hegemonias mundiais incipientes. Além disso, muitos antigos críticos começaram a reconhecer as ligações globais como forma de solucionar problemas mundiais como as alterações climáticas, crise económica e pobreza.

Os historiadores começaram a integrar a globalização na história. Esta já não é apenas vista como a história da integração dos mercados de capitais das últimas duas décadas do século XX, ou como uma “primeira onda da globalização” no século XIX, quando o padrão ouro e o telegrama do Atlântico pareciam unir o mundo. Em vez disso, a visão histórica mais ampla e profunda da globalização é aquela que abrange o império Romano e a dinastia Song, e volta para a globalização da espécie humana a partir da origem comum africana.

Os termos que utilizamos para descrever fenómenos políticos e sociais complexos e processos têm estranhas ambiguidades. Alguns conceitos são criados como críticas e rapidamente invertem para se tornarem de comemoração.

Em 2011, a retórica anti-globalização já se desvaneceu e a globalização já não é vista como algo para comemorar ou pela qual lutar. Mas como uma característica fundamental da história do ser humano, na qual geografias distantes e temas distintos estão intrinsecamente ligados. Em suma, a globalização perdeu o seu cariz polémico e com essa perda, a sua atracção como conceito desvaneceu-se.


Harold James é professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Princeton e professor de História no Instituto Universitário Europeu em Florença. O seu mais recente livro é “The Creation and Destruction of Value: The Globalization Cycle”.


Direitos de Autor: Project Syndicate, 2011.
www.project-syndicate.org
For a podcast of this commentary in English, please use this link:
http://media.blubrry.com/ps/media.libsyn.com/media/ps/james48.mp3
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