Harold James
Harold James 22 de junho de 2011 às 14:35

Alimentar a revolução

As cimeiras são definidas pelo seu local de realização. É curioso constatar que a Conferência Económica Mundial de 1933 teve lugar no Museu Geológico de Kensington, em Londres
As cimeiras são definidas pelo seu local de realização. É curioso constatar que a Conferência Económica Mundial de 1933 teve lugar no Museu Geológico de Kensington, em Londres, numa altura em que a ideia de cooperação internacional parecia tão estranha quanto um dinossauro fossilizado. Com base nestes critérios, Deauville, na Normandia francesa, com a elegância (ligeiramente esbatida) de uma época passada de luxo de elites, consumo de ostentação e sumptuosos banquetes, não foi talvez uma escolha feliz para a reunião do G-8.

Este ano, os membros do G-8 estão a debater questões muito interessantes, mas periféricas, como é o caso do impacto económico da Internet. Pior ainda, estão a debater assuntos muito importantes, como a segurança alimentar, de forma periférica.

A questão da segurança alimentar surgiu pela primeira vez como grande tema na cimeira de Julho de 2009 do G-8 em L’Aquila, Itália, em resposta ao “boom” das matérias-primas, cujo apogeu tinha já passado mas que tinha reaparecido com a força de um furacão. Agora, o G-8 tem em debate o financiamento de medidas paliativas.

No entanto, a questão da segurança alimentar está estreitamente associada a uma série de questões económicas muito mais vastas, às quais a comunidade internacional não responde de modo satisfatório. Apesar de, actualmente, a economia global parecer relativamente robusta em geral, a cooperação económica internacional está mais frágil agora do que em qualquer outro período do mundo pós-1945.

A fraca segurança alimentar coloca em evidência todos os grandes problemas da “não-ordem mundial” moderna. Os nacionalismos económicos e financeiros pairam como uma ameaça. Fala-se de guerras cambiais, gestão nacional e regulação da banca, bem como de uma crescente exigência de maiores níveis de protecção comercial. E todas estas questões estão interligadas.

O debate sobre política monetária é especialmente gerador de divisões. Devido às baixas taxas de juro nos Estados Unidos, as grandes instituições financeiras podem pedir crédito em dólares a um preço baixo e depois procurarem retornos mais elevados nos principais países dos mercados emergentes.

O resultado cria um dilema impossível para muitas das economias mais dinâmicas do mundo. Se tentarem endireitar as coisas através de um aumento das taxas de juro nacionais, só irão atrair maiores entradas de capital. Se deixarem a divisa apreciar-se, poderão conter algumas entradas de capital, mas também irão penalizar os seus exportadores e fazer aumentar o desemprego a nível nacional. Os dirigentes políticos dos grandes países emergentes, como o Brasil, a China e a Turquia, apontam regularmente o dedo aos Estados Unidos e à sua política monetária, dizendo ser uma fonte de inflação, tensão social e instabilidade política.

A consequência mais óbvia e perigosa das baixas taxas de juro nos principais países industriais é o seu impacto nos preços das matérias-primas, que é especialmente pronunciado no caso dos alimentos e do combustível. Tal como já foi demonstrado por muitos economistas, nomeadamente por Jeffrey Frankel, os preços nestes mercados são estabelecidos através de um processo semelhante aos leilões; consequentemente, os mercados das “commodities” transmitem os efeitos da expansão monetária particularmente depressa. Em contrapartida, os mercados dos produtos de marca, nos quais os produtores investiram enormemente para os garantirem, são muito menos voláteis e os preços são muito menos sensíveis aos efeitos da política monetária.

A subida dos preços dos alimentos teve um forte impacto na expansão dos terrenos de cultivo em muitos países, tendo levado a maiores níveis de produção a nível mundial. O Brasil, a Rússia e a China, mas também a Argélia, o Egipto e a África do Sul – de facto, todos os países africanos que mantiveram os seus governos em funcionamento – registaram drásticos aumentos da produção de matérias-primas alimentares ao longo da última década.

Esta deveria ser uma imagem feliz, pois aparentemente o planeta tem agora uma melhor capacidade para se alimentar. Mas o mesmo estímulo económico que provocou um aumento da produção alimentar, conduziu também a um problema ao nível da oferta, a uma diminuição dos padrões de vida e a enormes tensões sociais, especialmente nos centros urbanos.

É importante não nos esquecermos disto, pois o aumento dos preços dos alimentos tem sido, historicamente, o “gatilho” das revoluções políticas. As três revoluções que estiveram na origem do mundo moderno – em França, na Rússia e na China – tiveram todas as suas origens mais imediatas na escassez de alimentos, no receio de fome e nos conflitos em torno do preço dos bens alimentares.

A revolta do pão que assolou França em 1789 e a incapacidade do governo para garantir o fornecimento deste produto destruíram o antigo regime. O cognome atribuído desdenhosamente a Luís XVI foi “o padeiro”. A inflação registada durante a guerra destruiu a estabilidade do império russo em 1917, uma vez que os agricultores, preocupados com a crescente depreciação do seu dinheiro, armazenavam a sua produção e deixavam as cidades a morrer à fome. Os bolcheviques chegaram ao poder com a promessa de pão (e paz). E também a China foi paralisada pela inflação após a Segunda Guerra Mundial, ficando vulnerável a um movimento de pânico alimentar.

Os impactos dos preços dos alimentos não costumam ficar limitados a um só país. Em 1848, várias revoluções irromperam em simultâneo na Europa, na sequência da forte queda da produção agrícola, cuja mais notória manifestação foi a fome irlandesa. As subidas de preços têm sido um dos principais accionadores do descontentamento que se gerou este ano no Médio Oriente e no Norte de África. Apesar de as economias egípcia e tunisina estarem a expandir-se de forma bastante satisfatória, as suas populações tinham pagar muito mais pelos produtos alimentares.

Além disso, seria errado encarar estes recentes acontecimentos como um fenómeno puramente regional, limitado à chamada Primavera Árabe. O mesmo género de fenómeno, em que o campo se opõe à cidade, com ambos os lados a exigirem mais direitos, pode minar a ordem política na China e noutras grandes economias de mercados emergentes.

Nas últimas décadas, inúmeras crises financeiras contagiosas criaram apuros e movimentos de desordem em muitos países. Os efeitos do dinheiro globalizado estão agora a gerar um verdadeiro turbilhão. Nos próximos anos, ou mesmo meses, é provável que assistamos a uma espécie de efeito dominó. Tal como em 1848, a luta por alimentos a preços acessíveis está a gerar um descontentamento que ultrapassa as fronteiras nacionais, ameaça os regimes estabelecidos e alimenta as exigências populares de uma ordem política mais justa.


Harold James é professor de História e de Assuntos Internacionais na Universidade de Princeton, e é professor de História no Instituto Universitário Europeu de Florença. É autor do livro intitulado “The Creation and Destruction of Value: The Globalization Cycle”.


Direitos de autor: Project Syndicate, 2011.
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