Harold James
Harold James 22 de janeiro de 2016 às 21:30

Poderá o Reino Unido sobreviver ao Brexit?

A facção pró-UE tem alertado sobre o choque económico que o Brexit causaria. Pode ter parecido uma estratégia razoável, mas o medo não é racional; ele pode muito bem conduzir os eleitores para as aparentes certezas oferecidas pelo Estado-nação.

O referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia que será realizado, quase certamente, este ano, poderá vir a ser mais uma grande catástrofe a atingir a Europa. Se os eleitores britânicos escolherem sair, como parece cada vez mais plausível, o resultado será uma UE fortemente desestabilizada - e um Reino Unido despedaçado.

 

O problema é que, com a UE aparentemente atolada numa crise perpétua, o "Brexit" carrega um fascínio intelectual e emocional significativo. Mesmo antes de os problemas de dívida da Zona Euro terem emergido em 2009-2010, parecia claro para muitos britânicos que, para resistir a choques, uma união monetária exige uma maior integração, em particular, alguma forma de união orçamental. Por outras palavras, a Europa precisa de agir mais como um Estado-nação. E essa é uma condição que o Reino Unido nunca esteve disposto a respeitar.

 

E, ao nível emocional, o medo da imigração em grande escala, de dentro e fora da UE, tem alimentado uma reacção populista, que a recente crise de refugiados intensificou. A resposta populista baseia-se no argumento bizarro, mas evidentemente ressonante, de que a Europa - ou, mais especificamente, a Alemanha - está a incentivar os fluxos de refugiados.

 

Ao mesmo tempo, os defensores da permanência do Reino Unido na UE têm feito um erro atrás do outro. Aparentemente, muitos depositaram as suas esperanças na expectativa irrealista de que poderiam renegociar os tratados da UE. Em particular, apresentaram argumentos para enfraquecer elementos cruciais do processo de integração europeia, especialmente no que diz respeito à mobilidade laboral.

 

Além disso, a facção pró-UE tem alertado sobre o choque económico que o Brexit causaria. Pode ter parecido uma estratégia razoável, mas o medo não é racional; ele pode muito bem conduzir os eleitores para as aparentes certezas oferecidas pelo Estado-nação.

 

E poderia haver uma maneira menos atraente de apresentar a história europeia do que com a sigla do principal grupo de lóbi pró-europeu "Britain Stronger in Europe"? "BSE", afinal de contas, chama a atenção para a encefalopatia espongiforme bovina, ou "doença das vacas loucas", uma doença degenerativa de evolução lenta mas fatal. Não estará também a UE num lento declínio?

 

O fortalecimento da facção anti-UE é muito perigoso, e não apenas para a UE. Se os eleitores britânicos concordarem que a estrutura da UE é tão defeituosa que eles não querem fazer parte dela, estarão, implicitamente, a condenar a união peculiar que é o Reino Unido, que inclui uma união orçamental – ainda por cima problemática.

 

Na verdade, não é certo que o Reino Unido constitui um bom exemplo do tipo de Estado-nação que muitos eurofóbicos dizem ser a forma mais desejável de organização política. Assemelha-se mais à "monarquia composta" que o historiador John Elliott identificou como a forma predominante de governo, no século XVI, quando entidades separadas, como Aragão e Castela, tiveram de se juntar.

Já em 2014, o Partido Nacional Escocês quase ganhou um referendo popular sobre a independência. O Brexit poderia reforçar essa causa, estimulando potencialmente um sentimento similar no País de Gales e Irlanda do Norte. Mesmo no norte de Inglaterra, muitos eleitores seriam atraídos pela maior ênfase da Escócia no bem-estar social.

 

Estas divisões não coincidem com as fronteiras tradicionais. Consideremos a divisão entre a região de Londres, que se assemelha cada vez mais a uma super-metrópole global, e o resto do país. À medida que cada vez mais imigrantes chegam ao Reino Unido, a brecha torna-se cada vez mais evidente. Enquanto uma cidade global como Londres precisa de ser aberta para o mundo – e, assim, atrair os melhores talentos, turistas, trabalhadores de serviços, e talvez, inadvertidamente, criminosos ou mesmo terroristas - a maior parte do resto do país prefere ser fechada.

 

O que os britânicos partilham, neste momento, é sobretudo uma crescente desilusão com o que a UE pode oferecer, em termos económicos e não só. Mas isso não equivale a nada próximo de uma identidade comum. Na verdade, como a UE, o Reino Unido sofre com a falta de uma identidade unificadora ou uma história.

 

Naturalmente, isso não significa que não seja reivindicada nenhuma identidade. O ex-primeiro-ministro John Major chamou ao Reino Unido "o país das longas sombras sobre os campos de críquete, cerveja quente, subúrbios verdes invencíveis, amantes de cães e, como disse George Orwell, ‘solteironas de bicicleta a caminho da sagrada comunhão através da névoa da manhã'..." Mas o que ele estava a descrever, na verdade, era Inglaterra. Os elementos-chave da identidade britânica moderna parecem pertencer todos a Inglaterra, em vez de à entidade composta.

 

Da mesma forma, a igreja estabelecida ou do estado é a Igreja de Inglaterra, criada há quase 500 anos, quando o rei Henrique VIII decidiu que o papa católico não devia julgar o seu casamento. Uma instituição chamada English Heritage é a curadora do passado, desde os monumentos pré-históricos de Stonehenge às casas de campo antigas que são celebradas em ficções televisivas. O dinheiro é controlado pelo Banco de Inglaterra; com a Escócia e a Irlanda do Norte a emitirem as suas próprias notas, que os comerciantes ingleses muitas vezes não aceitam.

 

Quando Henrique VIII adoptou o Estatuto de Retenção de Apelações a Roma, com a sua declaração de que "este reino da Inglaterra é um império" - a primeira afirmação clara da ideia de soberania nacional - seguiu-se uma campanha brutal para acabar com a antiga religião. Mas o esforço para construir uma nova identidade composta ficou claramente aquém. Isso deixa o Reino Unido vulnerável ??ao colapso - um resultado que o Brexit tornaria ainda mais provável.

Harold James é professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Princeton, professor de História no European University Institute, em Florença, e assistente sénior no Center for International Governance Innovation.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016. 
www.project-syndicate.org 

Tradução: Rita Faria

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