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Jean Pisani-Ferry - Director do Bruegel 17 de Agosto de 2011 às 12:20

Os últimos tabus da Europa

Podemos sempre confiar nos americanos, disse Winston Churchill.

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Podemos sempre confiar nos americanos, disse Winston Churchill. No fim, eles fazem sempre a coisa certa, depois de terem esgotado todas as outras possibilidades. Nos últimos 18 meses, também este tem sido o método seguido pela Europa para enfrentar a crise da dívida soberana: tem tomado as decisões necessárias, mas sempre como último recurso.

Mais uma vez, a 21 de Julho, os líderes da Zona Euro proclamaram que aquilo que antes era impensável, agora é, de facto, necessário. Desistiram da ideia de que a Grécia é solvente; admitiram que as excessivas taxas de juro nos resgates só podiam agravar o problema; concordaram em conceder mais empréstimos e prolongar os existentes; exigiram a participação dos credores privados para pagarem alguns dos encargos; asseguraram que, mesmo que as obrigações soberanas gregas sejam classificadas como estando em incumprimento selectivo, os bancos gregos podem continuar a ter acesso a liquidez; reconheceram a necessidade de apoiar o crescimento económico; acordaram o alargamento do alcance do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), tornando-o uma ferramenta de intervenção mais flexível.

Para a Alemanha, França, Banco Central Europeu e outros envolvidos, estes avanços e recuos têm um custo em termos de reputação, capital político e margem de manobra em matéria jurídica. As decisões de Julho foram diversas o suficiente para que todos os protagonistas se pudessem assumir como vitoriosos. Mas todos terão de explicar porque é que os limites anteriormente indicados foram ultrapassados. E todos, sem dúvida, vão dizer que esta foi a última vez em que isso aconteceu.

Será verdade? Os últimos tabus foram todos quebrados? Ou vamos ter outra cimeira em breve para discutir medidas ainda mais duras ou outras negações do que foi antes dito?

No caso da Grécia, houve um verdadeiro aggiornamento. [NT1] Em vez de uma equação sem solução, os líderes europeus apresentaram uma equação substituta que já não parece impossível de resolver. Ao decidirem empréstimos mais baratos e ao acordarem uma redução da dívida, começaram por diminuir os encargos. Infelizmente, a dimensão do envolvimento dos credores privados é demasiado tímida, e teme-se que o sector público venha a ter de suportar os gastos com futuras reduções da dívida. Mas, pelo menos, o tabu da reestruturação da dívida privada, que esteve em discussão durante meses, foi quebrado.

Uma redução da dívida pública não vai tornar as empresas gregas mais competitivas nem vai criar postos de trabalho para os desempregados – mesmo que venha a ajudar. Muitos acreditam que se o objectivo é que a Grécia recupere, vai ser necessário quebrar o tabu do euro e reintroduzir uma moeda nacional.

O resultado vai ser uma imediata desvalorização, muito além daquilo que é exigido para o restabelecimento da competitividade. Quando a Argentina deixou a paridade com o dólar, em 2002, o peso perdeu quatro quintos do valor.

Mas os créditos financeiros na Grécia estão denominados em euros. Uma conversão forçada iria destruir muito do valor das poupanças, e as consequentes disparidades cambiais iriam desencadear uma onda de falências (na Grécia e no resto da Zona Euro, dependendo das condições exactas da conversão). Mesmo antes do choque, iria haver uma fuga dos depositantes dos bancos, com o objectivo de movimentarem os seus activos, o que levaria o sistema financeiro ao colapso.

Além do mais, longe de ser apoiado por essa acção, o resto da Zona Euro iria ser enfraquecido. Os especuladores iriam começar a testar o verdadeiro valor do euro alemão, francês ou português. Por isso, é preferível um ajustamento no interior da Zona Euro, apesar das muitas dificuldades que ele apresenta e dos custos que pode envolver.

Para a Zona Euro como um todo, as medidas anunciadas em Julho não afastam as preocupações em relação a outros países, nomeadamente a Itália e a Espanha. Uma das vulnerabilidades mais acentuada, revelada nos últimos meses, é a correlação entre a crise da banca e a crise da dívida soberana.

Na Grécia, a terrível situação orçamental é uma ameaça para os bancos, cuja carteira de títulos soberanos é duas vezes a dimensão do seu capital. O mesmo medo atravessa a Itália. Na Irlanda, foram os prejuízos da banca que levaram o Governo aos seus pés. O Executivo espanhol tem ficado mais frágil devido às mesmas razões. Independentemente de qual o culpado, a lógica é a mesma: os Estados financeiramente em problemas enfraquecem os bancos, o que conduz à perda de valor dos activos soberanos; por sua vez, os bancos em problemas enfraquecem os estados, devido aos custos com os resgates.

Os círculos viciosos resultam da recusa em diversificar e em partilhar riscos. Nos Estados Unidos, os bancos que estão incorporados em Delaware não sentem o dever de possuir obrigações do estado. Em vez disso, eles detêm títulos do Governo federal. E é o Governo federal de Washington, D.C., e não o estado de Nova Iorque, que é responsável por resgatar Wall Street. Isto não elimina todos os riscos, mas difunde-os. E especifica que, em caso de ocorrência de furacões financeiros, os pedidos de ajuda podem ser feitos ao banco central.

A Europa não é um estado federal, mas a capacidade de resposta da Zona Euro seria muito impulsionada se os seguros a depósitos fossem mutualizados – o que, obviamente, exigiria alterações a nível da supervisão bancária –, e se os bancos diversificassem as suas carteiras de obrigações, com títulos mais representativos da Zona Euro como um todo (através das obrigações europeias, por exemplo).

Com cautela, a Europa tem começado a caminhar nessa direcção, ao alargar o âmbito do fundo financeiro. Mas a mutualização dos riscos continua um tabu. Não é claro se este tabu vai permanecer como tabu no fim da crise.


[NT1] Inovação, modernização.

Jean Pisani-Ferry é director do Bruegel, um “think tank” de economia internacional, professor de Economia na Universidade Paris-Dauphine e membro do conselho de análise económica do primeiro-ministro francês.


Copyright: Project Syndicate, 2011.
www.project-syndicate.org
Tradução: Diogo Cavaleiro

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