A carregar o vídeo ...
Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

A via perigosa de Putin

Se houvesse uma Segunda Guerra Fria, como aparenta ser cada vez mais plausível, a Rússia seria a maior prejudicada economicamente no longo prazo. A União Europeia pode, seguramente, sobreviver sem as importações de gás natural russo, mesmo com um corte total do abastecimento.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 5
  • ...

 

Não se pode somar perigos à crise na Ucrânia. O presidente russo Vladimir Putin está declarada e veladamente a incitar o separatismo no Leste da Ucrânia e anunciou o direito unilateral russo de intervir na região, em completa violação do direito internacional. As políticas provocatórias da Rússia estão em rota de colisão com o Ocidente.

 

Putin explicou este ponto de vista numa recente aparição televisiva: as actuais fronteiras internacionais da Rússia são provisórias, determinadas por acidentes da história, tal como a transferência da Crimeia da Rússia para a Ucrânia em 1954, ou a transferência de territórios russos para o Leste da Ucrânia em 1920. Putin reclama para a Rússia o direito e o dever de defender os cidadãos de etnia russa dos países vizinhos, especialmente à luz das arbitrariedades das actuais linhas fronteiriças.

 

Se as populações russófilas clamarem por um regresso à Rússia, Putin afirma que, então, a Rússia tem de atender ao apelo. Putin tem recordado de forma incisiva que o Leste da Ucrânia era chamado de "Novorossiya" (Nova Rússia) durante a vigência Czarista, implicando de forma clara que poderia voltar a ser Novorossiya.

 

Evidentemente, Putin acredita que a pressão e alegações incessantes sobre estados vizinhos, por forma a minar a sua soberania e forçando-os a aceitar as pretensões russas, vai resultar numa Rússia mais forte e mais capaz de enfrentar o Ocidente. No passado recente a Rússia opôs-se eficazmente às intervenções militares norte-americanas e da NATO na Líbia, Síria e Sérvia, sob o pressuposto de que o Ocidente estava a violar a soberania desses países. Agora Putin reclama o direito de ignorar a soberania de países vizinhos segundo o pretexto de a Rússia estar, somente, a defender os direitos dos cidadãos de etnia russa que vivem no estrangeiro, incluindo os direitos de secessão e de adesão à pátria russa.

 

Não restam dúvidas que Putin pretende criar factos consumados no terreno - como na Crimeia - evitando uma resposta severa do Ocidente. Mesmo sem uma invasão a Rússia pode ameaçar, fazer demonstrações de poder militar, operações secretas e utilizar uma retórica agressiva para desestabilizar os seus vizinhos. Isso poderá ser suficiente para atingir os objectivos da política externa russa, incluindo a docilidade dos seus países limítrofes. 

 

Mas o aventureirismo de Putin poderá acabar mal para a Rússia. Se o Ocidente está, justificadamente, reticente quanto à possibilidade de ser arrastado para um confronto militar com a Rússia, para além dos limites da NATO, também permanece relutante relativamente à aplicação de sanções económicas, mesmo sabendo que as acções de Putin desencadearam um forte e crescente sentimento anti-Rússia nos Estados Unidos e na Europa. A resposta do Ocidente irá intensificar-se dramaticamente se a Rússia mobilizar forças para além-fronteiras, seja qual for o pretexto; se a Rússia adoptar medidas mais subtis de desestabilização política, a pressão do Ocidente crescerá de forma gradual, mas não deixará de aumentar.

 

As trocas comerciais, o investimento e as relações financeiras entre a Rússia e o Ocidente já se estão a deteriorar de forma severa. Novos projectos de investimento e joint-ventures foram suspensos. Os investidores ocidentais, que emprestaram dinheiro a entidades russas, estão a pedir a devolução desses empréstimos. Os bancos e empresas russos vão enfrentar crescentes dificuldades de acesso ao crédito.

 

No curto prazo, a Rússia dispõe de amplas reservas de divisas que permitem compensar a fuga de capitais; mas a inversão dos fluxos de capitais começará a ser sentida dentro de poucos meses. Depois da ocupação coerciva da Crimeia, é praticamente inimaginável que relações económicas normais entre a Rússia e o Ocidente possam sobreviver a nova intervenção, subversão ou anexação russa de outra qualquer região da Ucrânia.

 

Por outras palavras, se houvesse uma Segunda Guerra Fria, como aparenta ser cada vez mais plausível, a Rússia seria a maior prejudicada economicamente no longo prazo. A União Europeia pode, seguramente, sobreviver sem as importações de gás natural russo, mesmo com um corte total do abastecimento. As exportações de gás russo para a Europa constituem menos de 10% do consumo primário energético da União Europeia. Por outro lado, a Rússia sofreria uma enorme perda de receitas.

 

Putin parece acreditar que a Rússia pode contrabalançar a deterioração das relações económicas com o Ocidente através do fortalecimento das relações económicas com a China. Mas as tecnologias e os negócios estão demasiado interligados a nível global para permitir a divisão do mundo em dois blocos económicos. A China sabe que a sua prosperidade económica a longo prazo depende da manutenção de boas relações económicas com os Estados Unidos e a Europa. Putin parece não entender este ponto, ou mesmo o facto de que o colapso da economia soviética resultou do seu isolamento em relação às economias tecnologicamente avançadas.

 

Futuramente a robustez económica russa depende da sua capacidade de melhorar a capacidade tecnológica em sectores chave, incluindo a aviação, a rede ferroviária de alta velocidade, os automóveis, a maquinaria e a indústria pesada. Tal só poderá ser alcançado se as empresas russas estiverem mais integradas nas redes de produção global, junto com as companhias alemãs, japonesas, norte-americanas e chinesas que estão concentradas na tecnologia de vanguarda e na engenharia avançada.

 

Obviamente, a situação podia piorar ainda mais. Uma nova Guerra Fria podia transformar-se facilmente em algo pior. Muitos, nos Estados Unidos, defendem já uma Ucrânia armada como forma de dissuadir a Rússia. Contudo, apesar de por vezes a dissuasão militar resultar, o Ocidente deveria enfatizar a retaliação comercial e financeira, mais do que as respostas militares às provocações russas. Respostas militares podem causar um desastre, assim como tornar a Ucrânia num campo de batalha como o da Síria, com incontáveis milhares de mortes.

 

Não pode haver nenhuma dúvida de que a NATO defenderá os seus próprios membros se necessário. Mas a beligerância russa e o seu comportamento aterrador não devem permitir que os defensores da linha dura do Ocidente assumam a liderança do debate político. Aproximações numa perspectiva de linha dura trouxeram os graves conflitos no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, resultando em numerosas vítimas sem que soluções políticas e económicas significativas tenham sido alcançadas nesses países. A guerra não é política por outros meios. Guerra é caos e sofrimento.

 

As acções de Putin na Ucrânia são, sem dúvida, guiadas com a política doméstica em mente, utilizando o aventureirismo além-fronteiras para capitalizar politicamente no interior da pátria. A economia russa vacila e a população está cansada de repressão, para não mencionar a corrupção tentacular que vigora. A anexação russa da Crimeia e a ameaça de invasão do Leste da Ucrânia aparentam ser bastante populares. Permanece uma realidade aterrorizadora de que os políticos, com regularidade, encarem a guerra como um antídoto contra a sua fraqueza interna.

 

Nos últimos anos tanto a Rússia como o Ocidente jogaram com o direito internacional e perderam. O Ocidente violou a soberania nacional da Sérvia, Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria. A Rússia está agora a jogar a mesma cartada com uma desarmante ousadia nas suas zonas limítrofes, justificando mormente as suas acções apontando o dedo aos precedentes do Ocidente.

 

Porém, os verdadeiros interesses da Rússia no longo prazo residem no multilateralismo, na integração na economia mundial e na prevalência do direito internacional. O actual caminho de Putin está pejado de pesados riscos. Ele está a prejudicar as perspectivas económicas da Rússia ao mesmo tempo que confronta o mundo com uma crescente ameaça de guerra. A nossa única esperança é que todas as partes envolvidas retomem o respeito pela primazia dos princípios do direito internacional, que abandonaram há demasiado tempo.

 

Jeffrey D. Sachs é professor de Desenvolvimento Sustentável, de Política e Gestão da Saúde e director do Instituto da Terra na Universidade de Columbia. É também assessor especial do Secretário-geral das Nações Unidas para os Objectivos do Millennium.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2014.

www.project-syndicate.org

Tradução: David Santiago

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias