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Perfis dos pacificadores

Há 50 anos, Kennedy mostrou que a paz era possível, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. A sua coragem, visão, eloquência e competências políticas constituem um modelo e inspiração para os EUA e para outros países nos dias de hoje.

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Há 50 anos, o presidente John F. Kennedy fez o que parecia impossível. No auge da Guerra Fria, levou as duas superpotências nucleares, os EUA e a União Soviética, à paz. As lições do acto de liderança de Kennedy – um dos mais célebres dos tempos modernos – são directamente relevantes nos tempos que correm.


Conto uma vez mais esta história extraordinária num novo livro, intitulado "To Move the World". Para muitos, a guerra entre as duas superpotências parecia inevitável. A crise dos mísseis cubanos em Outubro de 1962 criou um ambiente global de medo e pessimismo e a convicção de que os Estados Unidos e a União Soviética não conseguiriam reconciliar-se.

Mas Kennedy sabia que era possível. Ele percebeu que grande parte do perigoso clima de tensão se devia aos intransigentes de cada um dos lados, que agiam como se a paz fosse impossível. As acções de um lado provocavam fortes reacções do lado oposto, alimentando uma espiral crescente de desconfiança que fortalecia os extremos de ambos os campos.

Os "peritos" da época falavam do equilíbrio da energia nuclear. Eles achavam que nenhum dos lados usaria armas nucleares, devido ao receio de retaliação. Mas Kennedy reconheceu algo muito mais perigoso: acidentes, erros de apreciação, "bluffs", provocação por parte de intransigentes ou erros tácitos poderiam facilmente levar o outro lado a entrar em pânico. Na crise dos mísseis cubanos, os EUA e a União Soviética estiveram à beira de uma guerra nuclear, não por desejo de um dos lados de que isso acontece (excepção feita a alguns extremistas), mas devido a uma série de cálculos errados e à pressão exercida por parte dos intransigentes.

Passada a crise, Kennedy mostrou-se determinado a sair de vez da beira desse precipício. No seu extraordinário "Discurso de Paz" proferido a 10 de Junho de 1963, disse aos norte-americanos que havia uma forma de chegar à paz com a União Soviética. Em vez de enunciar uma lista de reivindicações, Kennedy fez algo muito mais interessante e invulgar: apelou aos norte-americanos para reconsiderarem as suas próprias atitudes em relação à guerra e à paz.

"Antes de mais, analisemos a nossa atitude perante a própria paz. Muitos de nós pensamos que é impossível. Muitos pensam que é irreal. Mas isso é uma convicção perigosa e derrotista. Isso leva à conclusão de que a guerra é inevitável, que a humanidade está condenada, que somos agarrados por forças que não podemos controlar. Não temos de aceitar esse ponto de vista. Os nossos problemas são provocados pelo homem: por isso, eles podem ser resolvidos pelo homem", disse.

Kennedy diagnosticou o problema de forma sucinta: "Ambos os lados foram apanhados num ciclo vicioso e perigoso em que a desconfiança de um lado alimenta a desconfiança do outro lado e em que novas armas engendram armas de combate a essas armas". E a sua avaliação da possibilidade de resolução para este problema foi igualmente concisa: "Os Estados Unidos e os seus aliados, bem como a União Soviética e os seus aliados, têm um interesse mutuamente profundo numa paz justa e genuína e na paralisação da corrida às armas".

O discurso de Kennedy provocou uma reacção fortemente positiva por parte do seu homólogo soviético, Nikita Khrushchev, que chamou o representante norte-americano e lhe disse que aquele discurso tinha sido o melhor alguma vez proferido por um presidente dos EUA desde Franklin Roosevelt. Ao fim de algumas semanas, ambos os lados tinham acordado o Tratado de Proibição Parcial dos Testes Nucleares. Cinco anos mais tarde, o primeiro tratado levou a um segundo acordo ainda mais importante: o Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares.

Kennedy comprovou uma poderosa verdade. "A História mostra-nos que as inimizades entre nações, tal como entre as pessoas, não duram para sempre", disse. "Por mais imutáveis que pareçam os nossos gostos e os nossos desagrados, o curso do tempo e dos acontecimentos trará frequentemente surpresas nas relações entre nações e vizinhos".

Essa lição aplica-se actualmente com grande pertinência. Os Estados Unidos estão de novo presos numa espiral de desconfiança e de incerteza com outros países (e o mesmo se pode dizer dos inúmeros conflitos em todo o mundo que não envolvem os EUA). O conflito da América com o Irão é um exemplo bastante ilustrativo: entre outros, encontramos os seus conflitos com Cuba e com a Coreia do Norte, e também o conflito Israelo-Palestiniano, em que os Estados Unidos demonstram o seu forte apoio a Israel.

Em todos estes casos, muitas pessoas consideram inevitáveis o ódio e o conflito, devido a um choque fundamental de valores e interesses. Mas esse é raramente o caso. A título de exemplo, mesmo estando os EUA e o Irão numa espiral de desconfiança, poderá haver bases para restabelecer uma relação bilateral muito mais saudável.

Não há qualquer dúvida de que ambos os lados estão neste momento perigosamente divididos. O seu conflito já transbordou para a Síria, com os EUA a planearem armar a rebelião contra o presidente Bashar al-Assad, em grande parte por o seu regime estar alinhado com o do Irão. A guerra civil na Síria é, assim, cada vez mais, um combate por procuração entre o Irão e os Estados Unidos (e outros países anti-iranianos), com a morte massiva dos sírios enquanto vítimas de um conflito que não é o deles.

Agora que o povo iraniano elegeu um novo presidente, Hassan Rowhani, surge a oportunidade de uma nova abertura para a paz. Sim, há assuntos importantes a discutir, nomeadamente as ambições nucleares do Irão; mas vários países vizinhos do Irão possuem já armas nucleares, ameaçando toda a região.

O presidente norte-americano, Barack Obama, deverá dar os próximos passos, tanto com o Irão como com outros países (incluindo a Coreia do Norte e Cuba). Uma década de guerras secretas e não tão secretas dos EUA, de ataques com aviões telecomandados e de operações encobertas é mais do suficiente. É necessária agora, urgentemente, uma liderança norte-americana que vise a paz em vez da guerra como solução.

Há 50 anos, Kennedy mostrou que a paz era possível, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. A sua coragem, visão, eloquência e competências políticas constituem um modelo e inspiração para os EUA e para outros países nos dias de hoje. Naquela época, tal como agora, o caminho para a paz deve ser sempre o preferido, em detrimento da guerra.

© Project Syndicate, 2013.

www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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