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Robert Shiller - Economista 17 de Junho de 2013 às 00:01

Austeridade e desmoralização

Em vez de despedir 25% da sua força de trabalho durante uma recessão, uma empresa pode reduzir temporariamente as horas de trabalho, por exemplo, de oito horas por dia para seis.

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O elevado desemprego que temos actualmente na Europa, Estados Unidos e outros locais, é uma tragédia, não apenas devido à perda de produção total que acarreta, mas também devido aos custos pessoais e emocionais para os desempregados por não fazerem parte da sociedade trabalhadora.


A austeridade, segundo alguns dos seus promotores, supostamente melhora a moral. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, um defensor da austeridade, diz que acredita que o seu programa reduz "a dependência da assistência social", restaura o "rigor" e encoraja "os homens e mulheres de acção, os criadores e os portadores de uma mensagem de vida". Do mesmo modo, o congressista norte-americano Paul Ryan afirma que o seu programa faz parte de um plano para promover a "criatividade e o espírito empreendedor".

Alguns tipos de programas de austeridade podem, de facto, impulsionar a moral. Os monges encontram o seu significado de vida num ambiente mais austero e pensa-se que os campos militares constroem carácter. Mas, o tipo de austeridade orçamental que está a ser praticada agora tem o efeito imediato de levar as pessoas para o desemprego e de preencher as suas vidas com nada, à excepção de um sentido de rejeição e exclusão.

Podemos pensar que um período de desemprego pode ser um tempo de reflexão, de restabelecimento de ligações pessoais e de regresso aos valores fundamentais. Alguns economistas pensavam mesmo, há muito tempo, que poderíamos gozar de muito mais tempo livre nesta altura. John Maynard Keynes no seu ensaio de 1930, "Possibilidades Económicas para os nossos netos", especulou que dali a 100 anos, ou seja, em 2030, rendimentos mais elevados reduziriam o trabalho diário em média para apenas três horas, para um total de apenas 15 horas de trabalho semanais.

Ainda que faltem 17 anos para lá chegar, parece que as previsões de Keynes ficaram longe dessa marca. Assim, foi Robert Theobald que, no seu livro de 1963 "Homens livres e mercados livres", questionou a repugnância pública em relação ao desemprego elevado. Afirmou que "podemos ter tempos livres significativos em vez de desemprego destrutivo" e que não precisamos de "uma economia que gire como um bailarino possuído e que seja dependente do consumo compulsivo".

Mas, encontrar algo satisfatório para fazer com o nosso tempo parece implicar inevitavelmente desempenhar algum tipo de trabalho: o "tempo livre significativo" desgasta-se depois de algum tempo. As pessoas parecem querer trabalhar mais do que três horas por dia, mesmo se for um trabalho numa linha de montagem. E a oportunidade para trabalhar deve ser uma liberdade fundamental.

O desemprego é um produto do capitalismo: as pessoas que já não são necessárias são simplesmente despedidas. Na quinta familiar tradicional, não havia desemprego. A austeridade expõe a falta de conexão interpessoal da economia moderna e os custos morais que isso implica.

A partilha de trabalho pode manter mais pessoas ligadas marginalmente aos seus trabalhos num período de quebra económica e, assim, preservar a sua auto-estima. Em vez de despedir 25% da sua força de trabalho durante uma recessão, uma empresa pode temporariamente reduzir as horas de trabalho, por exemplo, de oito por dia para seis. Todas as pessoas continuam empregadas e chegaríamos um pouco mais perto do ideal de Keynes. Alguns países, nomeadamente a Alemanha, têm encorajado esta abordagem.

No entanto, a partilha de trabalho aumenta os problemas técnicos se for elevada de repente para lidar com uma crise económica como aquela que estamos a viver actualmente. Estes problemas impedem o movimento repentino em direcção ao ideal de mais tempo livre que pensadores como Keynes e Theobald proclamaram.

Um problema é que os trabalhadores têm custos fixos, como o transporte para o trabalho ou um plano de saúde, que não diminuem quando as horas (e o pagamento) são cortadas. Do mesmo modo, as suas dívidas e obrigações são fixas. Estes trabalhadores podiam ter comprado uma casa mais pequena se soubessem que as suas horas de trabalho seriam reduzidas, mas agora é difícil reduzir o tamanho da casa que compraram.

Outro problema é que pode ser difícil reduzir o trabalho de todos na mesma proporção, porque as exigências de alguns trabalhos aumentam ou diminuem segundo a produção, enquanto outros não o fazem.

No seu livro "Why Wages Don’t Fall During a Recession", Truman Bewley, da Universidade de Yale, reportou um extenso conjunto de entrevistas com gestores de negócios envolvidos na fixação de salários e "layoffs". Concluiu que estes acreditavam que um sério problema de moral poderia resultar do facto de reduzir as horas e o pagamento de todos durante uma recessão. Então, todos os colaboradores poderiam começar a sentir como se não tivessem um verdadeiro emprego.

Nas suas entrevistas com gestores, estes disseram que o melhor é (pelo menos de um ponto de vista do gestor) que a dor da redução do emprego se concentre em poucas pessoas, cujas queixas não serão ouvidas pelos restantes trabalhadores. Os empregadores preocupam-se com a moral do local de trabalho, não com a moral dos colaboradores que despedem. A sua moral prejudicada certamente afecta os outros como um tipo de externalidade, que interessa muito; mas isso não interessa à empresa que os despediu.

Talvez pudéssemos todos ser felizes a trabalhar menos horas se a diminuição se reflectir no progresso social gradual. Mas, não somos felizes com o desemprego que resulta de uma crise orçamental súbita.

É por isso que a austeridade súbita não pode ser um construtor de moral. Para construir a moral, precisamos de um compacto social que encontre um propósito para todos, uma forma para que as pessoas se vejam a si próprias como parte da sociedade porque desempenham algum tipo de trabalho. E para isso precisamos de estímulos orçamentais – idealmente, o estímulo favorável para a dívida, ou seja, que os impostos e despesas aumentem igualmente. O aumento da carga tributária para todos aqueles que estejam empregados é análogo à redução de horas no trabalho partilhado.

Mas, se o aumento de impostos não é politicamente viável, os responsáveis políticos devem prosseguir com a antiga política de realizar gastos deficitários. O importante é alcançar qualquer tipo de estímulo orçamental que impulsione a criação de emprego e que coloque os desempregados a trabalhar novamente.

Tradução de Raquel Godinho

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