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Robert Shiller - Economista 11 de Outubro de 2010 às 12:50

Mais sete anos de tempos difíceis?

Após o Simpósio Económico de Jackson Hole em Agosto de 2010, que reuniu muitos economistas

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Após o Simpósio Económico de Jackson Hole em Agosto de 2010, que reuniu muitos economistas e representantes dos bancos centrais de todo o mundo, muito se tem falado sobre um estudo apresentado durante o evento e que reúne uma alarmante avaliação sobre o futuro das economias mundiais.

O estudo, intitulado "After the Fall" ("Após a Queda"), foi escrito pelos economistas Carmen Reinhart e Vincent Reinhart. O seu trabalho baseia-se no recente livro de Carmen Reinhart em co-autoria com Kenneth Rogoff, intitulado This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly (Desta vez é diferente: oito séculos de loucura financeira).

Segundo o estudo de Reinhart, "o crescimento do produto interno bruto e dos preços das casas é significativamente mais baixo e o desemprego mais alto" na década subsequente a uma crise financeira, como a que teve início há três anos, do que nos dez anos que precederam a crise financeira. Assim, podemos concluir que nos esperam outros setes anos de tempos difíceis.

A teoria económica não está suficientemente desenvolvida para antecipar momentos cruciais com base nos primeiros princípios ou em modelos matemáticos. Assim, o nosso método tem que ser historicamente orientado. A história pode ser uma ciência social "suave" mas temos que olhar para ela, mesmo para a história mais distante, se queremos entender outras crises importantes.

Além disso temos que analisar o mundo inteiro. Muitos economistas estudam a história recente dos seus países, que é o mais fácil a fazer, e os seus resultados soam superficiais à maioria dos seus conterrâneos. Mas pelos padrões de apenas um país as grandes crises financeiras são raras. Assim temos que analisar um longo período histórico para ter informação suficiente sobre a forma como determinada crise surgiu.

A pesquisa realizada por Reinhart e Rogoff é uma expansão e uma generalização do pensamento económico informal de muitas pessoas, que muitas vezes compara o presente com importantes episódios do passado.

Desde que a actual financeira começou em 2007, muitas pessoas questionam-se se a Grande Depressão que se seguiu ao "crash" bolsista de 1929 e a crise do sector bancário do início dos anos 30 é, ou não, relevante para a nossa experiência actual. O factor preocupante da Grande Depressão é que foi severa, global e durou perto de uma década - e ocorreu após o colapso do mercado bolsista e imobiliário, semelhante ao que aconteceu antes da actual crise.

Da mesma forma, muitas pessoas questionam se a fraqueza que se seguiu o "crash" bolsista e imobiliário no Japão no início dos anos 90 é relevante para a nossa experiência actual. Este período era conhecido como a "década perdida". Actualmente é mais apropriado descrever esta experiência como as "décadas perdidas".

Estes exemplos são modelos para o nosso futuro? Uma coisa é certa. Fazem-nos parar e pensar. Mas não são evidências convincentes do que vai acontecer no futuro. Na verdade, duas observações, muito dificilmente, são suficientes para provarmos alguma coisa.

Mas agora Reinhart e Rogoff têm, sistematicamente, estudado muitos mais exemplos da história financeira moderna. Existe também a crise financeira mundial que se seguiu ao choque petrolífero de 1973 e 1977 e existem as crises financeiras específicas de determinado país, como a crise financeira em Espanha em 1977, no Chile em 1981, na Noruega em 1987, na Finlândia e Suécia em 1991, no México em 1994, na Indonésia, Coreia, Malásia, Filipinas e Tailândia em 1997, Colômbia em 1998, e Argentina e Turquia em 2001.

Assim, existem muito mais do que apenas dois casos modernos (apesar de não serem totalmente independentes porque de alguma forma agrupam-se no tempo). Da análise destes casos, Reinhart e Rogoff concluíram, por exemplo, que a taxa de crescimento anual média do produto interno bruto (PIB) per capita real dos países avançados foi um ponto percentual abaixo na década que se seguiu à crise, enquanto as taxas de desemprego médias foram cinco pontos percentuais mais elevadas.

Como é que isto aconteceu? Os dois autores descobriram que, em geral, durante a década que precede a crise, os níveis de dívida e alavancagem aumentam, o que leva a uma subida dos preços dos activos por um longo período de tempo. Reinhart e Rogoff descrevem o "síndrome desta vez é diferente" durante o período de expansão que precede a crise, altura em que se permite que estas bolhas continuem a existir durante demasiado tempo porque as pessoas pensam que os episódios passado são irrelevantes.

No trabalho de Reinhart e Rogoff parece estar a semente de uma nova teoria económica mas continua sem estar bem definida. Aparentemente existe uma componente económica comportamental, dado o "síndrome desta vez é diferente" parecer ser psicológico e não racional. No entanto, não chega a ser uma teoria em que nos podemos basear para fazer previsões confiáveis.

Além disso, há razões para acreditar que desta vez possa ser mesmo diferente. Odeio dizê-lo, pois não quero cometer o pecado definido no "síndrome" de Reinhart e Rogoff, mas desta vez pode ser diferente porque todos os exemplos modernos das crises passadas ocorreram durante um período em que muitos economistas de todo o mundo estavam a exaltar as virtudes do modelo económico das "expectativas racionais". Este modelo sugeria que uma economia de mercado devia funcionar, o mais possível, sem intervenção, e isso era o que os governos tendiam a fazer.

De acordo com as "expectativas racionais", as bolhas simplesmente não existem - o que deu lugar ao crescimento de bolhas reais. No entanto, essa mentalidade está a perder força e agora os governos e os líderes empresariais realizam avisos constantes sobre as bolhas e adoptam políticas para as conter. Assim, desta vez é, pelo menos, um pouco diferente.

Neste caso, todas as crises que levaram a más décadas deixaram de ser relevantes. Mas qualquer esperança de que as sequelas da actual crise vão ser melhores continua na categoria dos pensamentos, teorias e sonhos, e não na categoria da ciência.

Não é verdade que vá ter sete anos de má sorte por ter partido um espelho. Isso é uma superstição. Mas se se permitir que um mercado financeiro saia do controlo até entrar em colapso, corre-se realmente o risco de enfrentar dificuldades económicas durante vários anos. Este é o padrão histórico.


Robert Shiller, professor de Economia na Universidade de Yale University e economista-chefe da MacroMarkets LLC, é co-autor, com George Akerlof, de "Animal Spirits: How Human Psychology Drives the Economy and Why It Matters for Global Capitalism".


© Project Syndicate, 2010.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Luísa Marques




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