Robert Skidelsky
Robert Skidelsky 29 de julho de 2018 às 14:00

A história britânica do Brexit

A experiência sugere que os britânicos são mais resilientes, mais inventivos e mais felizes quando se sentem no controlo do seu próprio futuro. Eles não estão prontos para desistir da sua independência.

Desde 23 de Junho de 2016, quando 52% dos eleitores britânicos apoiaram a saída da União Europeia, o debate sobre o Brexit tem vindo a destruir a política britânica. Embora o referendo do Brexit não fosse vinculativo, o governo do então primeiro-ministro David Cameron, esperando um voto a favor do "Remain", prometeu honrar o resultado. O Reino Unido, que se juntou tarde à UE, será o primeiro Estado-membro a sair, com a data do divórcio marcada para Março de 2019.

 

Os defensores da permanência na UE alternam entre culpar Cameron pela sua imprudência em realizar o referendo e a sua incompetência em geri-lo, e castigar os defensores do Brexit por inundarem os eleitores com mentiras. A um nível mais profundo, o referendo do Brexit pode ser visto como parte de uma revolta camponesa transatlântica, que se faz sentir em França, na Hungria, em Itália, na Polónia, Áustria e, claro, nos Estados Unidos. Ambas as explicações têm mérito, mas ambas ignoram as raízes especificamente britânicas do Brexit.

 

A Grã-Bretanha ficou sozinha contra uma Europa continental dominada por Hitler em 1940, o momento da história recente que é recordado com mais orgulho. Anos mais tarde, Margaret Thatcher expressou um sentimento britânico comum com o seu estilo enfático habitual. "Está a ver", disse-me uma vez, "nós visitamos, e eles estão lá". Apesar da intenção declarada do antigo primeiro-ministro Tony Blair, o Reino Unido nunca esteve "no coração" da Europa. Nos seus 42 anos na UE, os britânicos sempre foram um parceiro desconfortável e eurocéptico. A aprovação da adesão só ficou ligeiramente acima de 50%, e em 2010 já estava abaixo de 30%. Um referendo naquela altura resultaria, provavelmente, numa maioria ainda maior a favor da saída.

 

O Reino Unido não assinou o Tratado de Roma de 1957, que juntou os seis membros originais da UE - Alemanha, França, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo - na Comunidade Económica Europeia. Fiel à sua política tradicional de dividir para reinar, o Reino Unido organizou a Associação Europeia de Livre Comércio, de sete membros, como um contrapeso em 1960.

 

Mas o Reino Unido estagnou, enquanto a CEE prosperava, o que levou os britânicos a solicitarem a adesão em 1963. A motivação do Reino Unido era sobretudo económica - escapar das tarifas externas da CEE sobre os produtos britânicos, juntando-se a uma área de livre comércio mais dinâmica. Mas a intenção de impedir a formação de um bloco político esteve sempre presente e contrariava o sonho dos fundadores europeus de uma união política. No final, o presidente francês Charles de Gaulle vetou a candidatura do Reino Unido, considerando o país um cavalo de Tróia norte-americano.

 

Os defensores da permanência na UE esquecem-se, convenientemente, que quando o Reino Unido votou em 1975 para permanecer como membro da CEE - depois de se ter juntado em 1973 - o referendo baseava-se na mentira de que a pertença não tinha implicações políticas. De facto, os fundadores da UE, especialmente Jean Monnet, viam uma união económica cada vez mais profunda como forma de forjar uma união política cada vez mais profunda. Em 1986, Thatcher assinou o Acto Único Europeu (que estabeleceu o objectivo de constituir um mercado único), acreditando aparentemente que era apenas uma extensão do livre comércio de bens para os serviços, capital e trabalho.

 

Mas o estatuto "semi-independente" do Reino Unido foi confirmado pelo Tratado de Maastricht de 1992, segundo o qual o sucessor de Thatcher, John Major, obteve (juntamente com a Dinamarca) uma isenção à exigência de aderir ao euro. Mais do que qualquer outra coisa que a precedeu, a moeda única era uma pedra de toque da disponibilidade de avançar em direcção à união política. Afinal, como os eventos de 2008-2009 mostraram, uma moeda comum sem um governo comum não pode funcionar.

 

Na sequência da decisão do Brexit, a desafortunada sucessora de Cameron, Theresa May, foi apanhada entre as exigências dos "Brexiteers" como o seu então ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, de "controlo das nossas fronteiras" e os receios dos restantes em torno das consequências económicas e políticas do divórcio. May espera uma saída da UE em que o Reino Unido mantenha os benefícios da pertença, mas evite os custos do abandono.  

 

Essa esperança está materializada no Livro Branco "A Relação Futura entre o Reino Unido e a União Europeia", publicado recentemente pelo governo. Nele, o executivo procura uma "Associação" que deixaria o Reino Unido dentro da área de tarifas externas da UE para todo o comércio de bens fabricados no Reino Unido e na UE, mas livre para concluir os seus próprios acordos de livre comércio com todos os demais. O mercado único dos serviços seria substituído por um acordo especial que permitisse aos clientes da UE acesso irrestrito aos serviços financeiros de Londres, evitando simultaneamente um sistema regulamentar comum. Um novo "quadro para a mobilidade" continuaria a ter como objectivo "atrair os mais brilhantes e os melhores, da UE e de outros lugares", ao mesmo tempo que restringia (de formas não especificadas) a liberdade dos cidadãos da UE de trabalhar no Reino Unido.

 

A tentativa de ter as duas coisas não conseguirá sobreviver a um escrutínio sério em ambos os lados do Canal. E isso significa que o Reino Unido deixará a UE em Março de 2019 sem um acordo de divórcio viável. A única questão é se esse resultado será o desastre que muitos observadores temem.

 

Não me convence o argumento dos defensores da permanência de que deixar a UE será economicamente catastrófico para o Reino Unido. A perda de acordos estabelecidos pela UE seria equilibrada pela oportunidade de o Reino Unido redescobrir o seu próprio caminho, nomeadamente na política orçamental e industrial. A experiência sugere que os britânicos são mais resilientes, mais inventivos e mais felizes quando se sentem no controlo do seu próprio futuro. Eles não estão prontos para desistir da sua independência.

 

A minha principal preocupação é a perda da oportunidade de o Reino Unido ajudar a moldar o futuro político da Europa. A organização que o Reino Unido deixará está longe de avançar com confiança para a união política. Está destroçada pelo conflito. A chanceler alemã Angela Merkel é quase tão impotente como May; os neofascistas estão no poder, próximos do poder ou partilham o poder em vários países europeus. Quase todo o peso do projecto europeu está sobre os ombros do presidente francês Emmanuel Macron. Teria sido bom ter o Reino Unido ao seu lado, em vez de à deriva no Atlântico.

 

Robert Skidelsky, membro da Câmara dos Lordes britânica, é professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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