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Simon Johnson 05 de Agosto de 2012 às 19:42

Crise de legitimidade da banca

A recente saída de Robert Diamond do Barclays marca um ponto de viragem. Na verdade, os presidentes executivos de grandes bancos já foram obrigados a sair antes de Diamond. Chuck Prince perdeu o cargo no Citigroup por assumir riscos excessivos antes da crise financeira de 2008 e, mais recentemente, Oswald Grübel, do UBS, foi forçado a deixar a presidência por não ter conseguido impedir a negociação não autorizada de 2,3 mil milhões de dólares.

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Mas Diamond era um banqueiro que estava, supostamente, no topo da carreira. Foi usado como argumento que o Barclays superou a crise de 2008 e 2009 sem beneficiar de apoio estatal. E, enquanto se descobriu que o banco violou várias regras recentemente, incluindo nos produtos vendidos a consumidores e na forma como define as taxas de juro, Diamond conseguiu distanciar-se do perigo.

As notícias dos meios de comunicação social indicavam que os reguladores estavam dispostos a "deixar passar" – até ao momento em que disparou uma grave reacção política. Diamond começou a contra atacar e apontou um dedo acusatório ao Banco de Inglaterra. Nessa altura, tinha mesmo de sair.

Há três grandes lições a retirar da demissão de Diamond (na foto) do Barclays.
Primeiro, a revolta política não veio da parte de pequenos deputados ou de espectadores mal informados. Os políticos de topo de todos os partidos do Reino Unido estavam juntos ao condenar as acções do Barclays, particularmente no que dizia respeito aos enganos sistemáticos na divulgação das taxas de juro, incluídos no escândalo Libor. (A London Interbank Offered Rate é uma taxa de referência para emprestar e pedir emprestado em todo o mundo, incluindo na definição do preço de derivados).

De facto, o ministro das Finanças George Osborne foi tão longe ao ponto de dizer o seguinte: "A fraude é um crime nos negócios normais; porque não haveria de o ser na banca?" Está obviamente implícito que tinha sido cometida uma fraude no Barclays – uma grave acusação por parte do ministro das Finanças da Grã-Bretanha.

Depois de cinco anos de escândalos globais do sector financeiro à larga escala, a paciência está a esgotar-se. Tal como escreveu Eduardo Porter no "New York Times":

"Mercados de maior dimensão permitem fraudes de maior dimensão. Empresas de maior dimensão, com balanços mais complexos, têm mais locais para as esconder. E os bancos, quando se tornam grandes demais que nenhum governo os deixa falir, têm o maior incentivo de todos."

Em segundo lugar, Diamond pensava, aparentemente, que poderia enfrentar o poder britânico. Os seus funcionários divulgaram os conteúdos de uma conversa que Diamond dizia ter tido com Paul Tucker, um dos nomes de topo do Banco de Inglaterra, sugerindo que o Banco de Inglaterra teria dito ao Barclays para divulgar taxas de juro que não reflectiam a realidade.

Diamond parece ter esquecido que a continuidade da existência de qualquer banco cujo balanço é relativamente grande em relação à dimensão da economia – e a sua capacidade de entregar um retorno aos accionistas – depende, inteiramente, da manutenção de uma boa relação com os reguladores.

O Barclays tem activos no valor total de 2,5 biliões de dólares – aproximadamente a dimensão do Produto Interno Bruto anual do Reino Unido – e é, ainda assim, o quinto – ou oitavo – maior banco do mundo, classificação que depende da forma de se medir o balanço. Os bancos destas dimensões beneficiam de enormes garantias estatais implícitas: é isto que significa ser "grande demais para falir".

Diamond acreditava na sua própria retórica – a de que ele e o banco eram essenciais para a prosperidade económica do Reino Unido. Os reguladores não seguiram essa ideia e obrigaram-no a demitir-se. O preço das acções subiu ligeiramente com base nessa notícia.

A última lição a retirar é que os grandes confrontos entre a democracia e os grandes banqueiros ainda estão para vir – tanto nos Estados Unidos como na Europa Continental. Para todos os efeitos, os bancos continuam poderosos, ainda que a legitimidade se continue a desmoronar.

Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, era o responsável por se terem assumido riscos imprudentes na ordem dos 6 mil milhões de dólares (ao que podemos chamar de um colapso de "três Grüble"), mas o seu cargo parece seguro. Ainda para mais, Dimon continua no conselho de administração da Reserva Federal de Nova Iorque, apesar de esta entidade estar profundamente envolvida nas investigações não só às perdas no JPMorgan Chase mas também do escândalo Libor.

Como documentou no seu depoimento no Congresso, o presidente do grupo de pressão Better Markets, Dennis Kelleher, dois anos depois da aprovação da legislação Dodd-Frank, indica que o sistema bancário norte-americano continua a lutar com afinco – e com eficácia – contra uma reforma considerável. (O depoimento de Kelleher é um texto que tem de ser lido, tal como a declaração inicial na audição).

Mas, independentemente disso, tem havido algum progresso. Dimon é o rosto público da resistência dos grandes bancos à reforma; as humilhações repetidas e públicas de Dimon dão força àqueles que querem colocar limites ao excessivo e irresponsável risco assumido por estes bancos.

Entretanto, a situação europeia parece explosiva. A abordagem da União Europeia à regulação da banca encorajou as instituições financeiras a acumular dívida soberana – supostamente um activo "sem risco". Agora, dada a profunda crise da dívida soberana na periferia da Zona Euro, os incumprimentos soberanos ameaçam derrubar os grandes bancos. O Banco Central Europeu tem cedido enormes quantidades de "liquidez" de emergência para financiar os bancos, que são usadas para comprar ainda mais dívida pública. Isto mantém sob pressão as taxas de juro implícita dessa dívida no curto prazo, mas cria potenciais perdas ainda maiores, caso ocorra um incumprimento.

Os bancos e os políticos estão profundamente interligados em todas as economias avançadas. Diamond descobriu que, em último caso, os políticos saem por cima dos banqueiros – pelo menos, no Reino Unido.

Mas o que realmente interessa é a legitimidade e a opinião pública informada. Acreditam realmente que a crescente noção dúbia que os grandes bancos, tal como actualmente constituídos, são bons para o resto do sector privado e, daí, para o crescimento económico e para a criação de emprego?

Ou começam a considerar mais seriamente a ideia, cada vez mais vulgar, de que os grandes bancos globais e os seus líderes simplesmente se tornaram demasiado poderosos e perigosos?

Simon Johnson, que foi economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), é co-fundador de um blog de relevo na área da economia, http://BaselineScenario.com, é professor na MIT Sloan e membro do Peterson Institute for International Economics. É co-autor, com James Kwak, de White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why it Matters to You.

Copyright: Project Syndicate, 2012.
www.project-syndicate.org
Tradução: Diogo Cavaleiro


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