André  Veríssimo
André Veríssimo 03 de abril de 2017 às 00:01

A confiança chegou à bolsa

Não há razões para exultação quando um dos maiores bancos do sistema financeiro português é vendido por zero e com um ónus sobre os restantes bancos do sistema. Mas é mais uma gaveta de incerteza que se fecha, mais um problema que sai da frente. É mais uma razão para haver confiança. E ela está aí. Até na maldita bolsa.

Uma resolução nunca é nem será um processo limpo. A resolução que Carlos Costa diz que vai ser um "case study" na Europa deixou um rasto de destruição maciça de valor, para negócios e poupanças, mesmo tendo poupado depositantes. Mas não poupou clientes, nem contribuintes. Há um custo indirecto, ao contrário do que promove o Governo.

 

A factura que ficou para o Fundo de Resolução já está a ser paga pelos clientes da banca sob a forma de comissões, como assume Licínio Pina, presidente do Crédito Agrícola, na entrevista ao Negócios e à Antena 1. São os bancos que têm a responsabilidade de entregar o dinheiro, mas a dívida é do Estado. E a intervenção feita no sector nos últimos anos, que tinha de se fazer, contribuiu de forma significativa para a escalada do endividamento público, agravando o custo não só dos empréstimos ao sector financeiro mas de toda a dívida emitida. Há, pelo menos, este impacto indirecto.

 

O Novo Banco persiste, evitou-se a liquidação, e esse é um ponto a favor do "case" do Governador. Pese embora ter demorado quase três anos - um tempo que contribuiu para a perda de valor - está encontrado um comprador. É mais uma sombra sobre o sistema financeiro que se dissipa, depois de estabilizada a estrutura accionista do BPI, recapitalizado o BCP e a Caixa.

Fechar estes dossiês era fundamental para reforçar a confiança na banca portuguesa, e por arrasto, na economia. E ela está aí. Passámos do ciclo das revisões em baixa das previsões para o das revisões em alta. Decisivo foi também o resultado alcançado na redução do défice, fruto de uma estratégia seguida com determinação por este e o anterior Governo. 

 

Os sinais dessa confiança estão nos indicadores, de actividade e sobre o espírito com que famílias e empresas encaram o futuro. Os últimos publicados pelo INE vão no sentido de que o "momentum" positivo do quarto trimestre prosseguiu no primeiro deste ano. O crescimento ganha tracção.

 

Há também sinais nos mercados. O risco da dívida portuguesa tem vindo a descer, mesmo com os juros a manterem-se na casa dos 4%. Até a depauperada bolsa de Lisboa traduz essa expectativa em dias melhores e já soma 7% este ano, acima do índice europeu e com quase todas as cotadas em alta.

 

 Mesmo navegando mais depressa, a economia portuguesa não deixou de ser uma embarcação frágil, demasiado vulnerável a uma qualquer borrasca, num oceano de riscos financeiros e geopolíticos globais. Há problemas de estrutura que continuam por resolver, sem que se vislumbre determinação política para os atacar. 

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