Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

À sombra das sondagens

A economia cresce, não 2,8% mas já 2,9%, o maior crescimento em 17 anos e, no entanto, há um risco que paira sobre o país: o da complacência.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 10
  • ...

A história recente mostra que quem nos governou raramente soube aproveitar os tempos de bonança para prevenir futuras tempestades. E a história repete-se com este Governo.

Claro que baixar o défice e a dívida pública são passos nesse sentido. É justo reconhecer um esforço para resolver alguns dos desequilíbrios estruturais de que a economia portuguesa padece. Houve preocupação em criar medidas que facilitem a recapitalização das empresas. O problema do malparado está a ser enfrentado. Mas não chega.


É preciso semear as condições que permitam sustentar taxas de crescimento mais elevadas, tornar as Finanças Públicas e a economia mais resilientes aos ciclos económicos. E o que se vê é um natural contentamento com os números mais robustos do crescimento que vão chegando, mas uma insensibilidade ao que se pode fazer para os alimentar no futuro.


Ainda que o país precise de investimento público, fazer das obras públicas o grande desiderato é demasiado curto. António Costa disse em Abril que a expressão "reformas estruturais" o arrepia, que "qualquer cidadão normal fica logo alérgico". O que arrepia é o primeiro-ministro bastar-se na semântica para as descartar.

A frase é reveladora – o que realmente incomoda o primeiro­-ministro é a impopularidade das reformas. Porque elas significam muitas vezes afrontar corporações, interesses instalados que se crêem inamovíveis. Ainda que a paz política e social de que o país tem gozado seja um activo importante, até para a actividade económica, fazer dela um valor absoluto e intocável significa hipotecar o potencial futuro.


Agora que o crescimento está de volta, em parte porque o Governo devolveu rendimentos, mas em parte ainda maior porque a envolvente externa é também muito mais benigna, o que vemos são corporações a exigir mais benesses. Algumas justas, outras nem tanto.

Por muitos Simplex que nos vendam, a burocracia continua a ser um entrave. A justiça, outro ainda maior. O Estado e a sua despesa continuam por racionalizar. A fiscalidade é demasiado elevada e complexa. Olha-se para o investimento e a construção é o que mais o anima, não que isso seja mau em si, mas não é o que o país precisa.

Consensos. Esses sim seriam importantes. E ainda que a solução governativa possa ser considerada uma evolução saudável da democracia portuguesa, a incapacidade para fazer acordos duradouros a longo prazo em áreas prioritárias são reveladores de imaturidade. António Costa pede-os, mas é só retórica.

Sentado à sombra da sua popularidade, que nem Pedrógão ou Tancos foram capazes de abalar, o Governo é um gestor, financeiramente apurado e cuidadoso, de benefícios. Tudo o mais arrepia.
Ver comentários
Saber mais Governo António Costa Sondagens Crescimento da economia Reformas estruturais
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias