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A tempestade mudou-se para a Ásia

Um gestor de um fundo de cobertura de risco explicava esta semana em declarações à Bloomberg que a tempestade que assolou os EUA há quatro anos, está agora sobre os emergentes, depois de há dois anos ter assolado a Europa. Já se admite que a Ásia atravesse uma crise semelhante à que varreu o continente na década de 90.

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Mesmo passados cinco anos, explicar as debilidades actuais obriga sempre a regressar a 2008, o ano em que a bolha do crédito hipotecário nos EUA, exponenciada pelos artificialismos da indústria financeira, rebentou com estrondo mergulhando a economia mundial na recessão. Tal como na Zona Euro, os governos dos países asiáticos estão a pagar a factura do endividamento criado pelos planos de estímulo económico para combater a crise financeira.


Um artigo publicado ontem na edição "online" do "Financial Times" lembra que a China lançou o maior pacote de estímulos da sua história após a crise de 2008. Segundo as estimativas de alguns economistas – os números das autoridades chinesas não são de fiar –a dívida pública chinesa já será superior a 200% do PIB.

Outros países da região viram no endividamento público e na facilitação do crédito às famílias e empresas a rede que os protegeria de uma recaída da economia. Afinal enredaram-se numa teia. O que mudou para que a estratégia aparentemente virtuosa esteja agora a revelar-se desastrosa?

A resposta obriga a regressar aos EUA. A crise financeira deu aos bancos centrais um poder sem precedentes. E à Reserva Federal mais do que a todos os outros. Sem a sua actuação, a economia americana não teria regressado ao crescimento em tão pouco tempo. Porque os sinais de retoma são cada vez mais sólidos, a Fed prepara-se para começar a retirar os estímulos monetários, já em Setembro acreditam os economistas. O fim da era do dinheiro ultra-barato provocou uma saída dos investidores das obrigações, a que nenhum mercado escapou. Com a queda dos preços, sobem os juros. Uma má notícia para os países que nos últimos anos apostaram no endividamento externo.

A ponta da história regressa aos países emergentes da Ásia. Com o agravamento dos juros da dívida pública e a saída de capitais veio a desvalorização repentina das moedas e das acções, e o agravamento do défice da balança de transacções correntes. Índia e Indonésia são os países com maior desequilíbrio e têm, por isso, estado sob maior pressão.

A bola de neve segue montanha abaixo. E ameaça estourar a bolha imobiliária que o crédito fácil insuflou. O padrão, dizem os analistas, faz lembrar a crise asiática da década de 90: países com taxas de crescimento elevadas e endividamento externo crescente, vítimas de uma saída repentina de capitais resultante da mudança súbita do sentimento dos investidores.

Pode ser que tudo não passe da volatilidade normal de um mercado que está a ajustar-se ao princípio do fim da liquidez barata. Que seja apenas um movimento, passageiro, de saída de investidores em busca de melhores rendibilidades noutras paragens. Afinal a maioria destes países está muito longe dos níveis de endividamento da maioria das economias desenvolvidas. Mas pode também ser o próximo episódio da crise que desde 2008 varre o globo.

Editor de Mercados Financeiros

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